Longevidade

Uma aplicação de telemóvel para prescrever caminhadas: quando a distância percorrida faz parte do tratamento

19 dezembro 2022 21:36

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

ilustração sara tarita

Na doença arterial periférica, que afeta sobretudo pessoas com mais de 65 anos, sente-se dor ao caminhar. Uma app está a ser desenvolvida para promover a prática de exercício físico e as melhorias são significativas, mas é fundamental conseguir manter a motivação. No futuro, o objetivo é estar disponível para todas as doenças cardiovasculares

19 dezembro 2022 21:36

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

Caminhar é uma ação aparentemente simples, mas não para todos. Após alguns metros, pessoas diagnosticadas com doença arterial periférica – que se caracteriza pelo estreitamento das artérias das pernas e consequente dificuldade de circulação do sangue – começam a sentir dor. Foi este o ponto de partida para o desenvolvimento do WalkingPAD, projeto do Centro Hospitalar Universitário do Porto em parceria com o INESC TEC e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Pedir a alguém para caminhar quando tem de parar por sentir dor dificilmente resulta. A conclusão da equipa liderada pela médica Ivone Silva, especialista em angiologia e cirurgia vascular, levou ao desenvolvimento de uma app em que é planeado um percurso para o doente percorrer, na hora e no local que lhe forem mais convenientes. Tal representa uma vantagem face aos centros de reabilitação cardíaca, a possibilidade existente para os que têm esta patologia, mas que são “escassos” e “não são acessíveis a todos”, obrigando a faltar ao trabalho.

“Preconizamos um programa de exercício físico em que, três vezes por semana, os doentes têm de caminhar, no mínimo, 30 minutos. Conseguimos monitorizar através de uma plataforma”, explica a coordenadora do projeto ao Expresso. Além da medicação e do controlo de fatores de risco – como o consumo de tabaco, a hipertensão e a diabetes –, a prática de exercício físico é um fator determinante no tratamento da doença arterial periférica, que é mais frequente acima dos 65 anos e afeta entre 5 a 8% da população portuguesa.

Já testada por 160 utentes do Hospital de Santo António, a tecnologia tem demonstrado resultados muito positivos. Os progressos variam de doente para doente mas, em termos globais, registou-se um aumento de cerca de 30% da distância percorrida. “Um doente que caminhava 100 metros, consegue quase caminhar 200. Os que caminhavam 200, alguns conseguem 300 ou 400”, exemplifica Ivone Silva.

Uma “surpresa agradável” foi o facto de a literacia digital não ter sido um fator “impeditivo”. Tanto os doentes que não tinham sequer telemóvel, como aqueles que tinham apenas com teclas ou os que já usavam um smartphone “adaptaram-se muito bem”, também com o apoio de familiares, convidados a ajudar. “Fomos melhorando a aplicação de maneira que a tornámos extremamente básica, que qualquer doente utiliza.”

Motivação para caminhar

A chave do sucesso está na motivação, que é diferente consoante a pessoa em causa. “Um avô que não consegue caminhar ou jogar à bola com o neto, pode ser essa a motivação para melhorar. Outros doentes não saem de casa porque não são capazes de fazer a distância até ao café, por exemplo, e têm vergonha. Então a motivação é ir tomar café”, aponta a coordenadora do WalkingPAD.

Ivone Silva realça que “a app, por si só, não chega”. O trabalho engloba uma vertente educativa, fundamental para que ocorra a desejada mudança comportamental, de que fazem parte o acompanhamento pela psicóloga do projeto, Susana Pedras, e a criação pela equipa de vídeos explicativos, cartazes e pequenos livros informativos sobre a doença, assim como a promoção de reuniões de doentes.

“Juntamo-los e ficam a saber que não são os únicos, de vez em quando descobrem que têm um amigo ou um vizinho e até se juntam para ir caminhar. É importante o doente sentir que há mais gente assim”, destaca a também professora no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto.

O espírito de grupo é desenvolvido com recurso a desafios, como aconteceu quando o objetivo foi, através das caminhadas, fazer uma volta à Europa, somando os quilómetros de cada um. Também já percorreram a Estrada Nacional 2. “Individualmente estabeleciam qual era a meta quando vinham às consultas, onde é que iriam estar na próxima, o que era uma forma de motivar.”

Travar a progressão da doença

É preciso compreender, em primeiro lugar, a diferença entre andar e caminhar. “Até posso fazer 10 mil passos num dia e não ter feito uma única caminhada. Por exemplo, o senhor que trabalha num café anda de um lado para outro, mas não caminha”, explica Ivone Silva. Uma caminhada significa ir de um ponto até outro, durante um determinado período de tempo, de forma contínua – mesmo que haja paragens pontuais devido à dor.

É a caminhada que faz a diferença na progressão da doença arterial periférica, cujo agravamento pode conduzir, em último caso, à amputação – o que pode ser evitado. “Fazendo as caminhadas, a probabilidade de evolução da doença é muito baixa”, assegura. “Quando os doentes percebem isso, então eles aderem. Se o doente não perceber que tem de caminhar, nunca vai aderir porque tem dor.”

Isto porque a tendência natural é tentar fugir à dor. “Não lhes vai dar prazer nenhum porque vai doer, mas vai dar numa segunda fase em que estão a perceber que melhoram”, garante. Os resultados não são imediatos, mas acabam por surgir com um empenho contínuo – por vezes, não sentir dor assim que se passa a esquina da rua, mas apenas uns metros mais à frente, já é uma melhoria a assinalar.

Com base no sucesso obtido, a equipa iniciou conversações com os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde com o objetivo de que a app “chegue a toda a gente, não só ao doente com doença arterial periférica, mas aos doentes com qualquer patologia cardiovascular”.

“A ideia é que fique para todos os doentes e para todos os médicos, quer a nível hospitalar, quer a nível de cuidados de saúde primários, que se calhar é onde até faz mais sentido”, refere Ivone Silva. Até lá, a app encontra-se neste momento numa fase em que está a ser testada a criação de um avatar para interagir com o doente e a integração de todo o material educativo desenvolvido.