Longevidade

Jogar futebol a andar: uma modalidade pensada “para todos”

9 novembro 2022 8:18

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

ilustração sara tarita

Sem corridas, sem guarda-redes, sem contacto entre jogadores: estas são algumas regras do walking football, uma modalidade para maiores de 50 anos. Os benefícios não se limitam à atividade física, mas sobretudo à promoção do convívio e bem-estar

9 novembro 2022 8:18

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

Seja qual for a idade, não é novidade para ninguém a importância da prática de exercício físico. O que poderá ser desconhecido da maioria é que há uma variante de futebol para pessoas com mais de 50 anos – o walking football, ou futebol a andar. A modalidade surgiu em 2011, em Inglaterra, para aqueles que queriam continuar a jogar, mas já não sentiam a mesma agilidade.

Em 2017, chegou a Portugal através da Fundação Benfica, que convidou a RUTIS – Rede de Universidades Seniores para se juntar ao projeto, que conta com o apoio do Instituto Português do Desporto e Juventude. O presidente da rede, Luís Jacob, conta ao Expresso que, logo de início, considerou que seria uma “ideia excelente”, esperando “grande recetividade por parte das universidades”.

O responsável enumera “quatro grandes atrativos” que justificam o “grande sucesso” que tem sido. Uma vez que “os nossos seniores têm muito baixos índices de atividade física”, esta era uma “oportunidade de os pôr a fazer desporto”. Além disso, o futebol é uma modalidade que “toda a gente conhece”. Depois, existe a “componente muito grande da parte social, dos torneios, dos convívios, de interatividade entre a própria equipa e com outras equipas”. “E outro fator importante é o vestir a camisola, ou seja, temos um equipamento, uma equipa e puxamos pela mesma equipa”, conclui Luís Jacob.

Mas antes da implementação em Portugal, foram necessárias algumas adaptações. O modelo original inglês foi “desenvolvido para antigos jogadores”, o que não era o objetivo em Portugal, daí um “aligeirar das regras” e a inclusão das mulheres – por cá, as equipas são maioritariamente mistas. Ao contrário daquilo que acontece em Inglaterra, não há guarda-redes, é proibido “qualquer tipo de contacto entre os jogadores” e a bola “não sobe acima da cintura, para não haver saltos ou cabeçadas”. “Retirámos ao máximo possível aquilo que podia causar lesões nos atletas”, sintetiza Luís Jacob.

Os jogos duram 15 minutos, cada conjunto em campo tem seis jogadores e não há limite de substituições. As 30 equipas de norte a sul do país e também das ilhas – abrangendo um total de 500 a 600 atletas – inscrevem-se nos torneios que pretendem, onde normalmente se realizam “quatro, cinco jogos, ou seja, apesar de serem só 15 minutos, significa que fazem uma hora e meia”, indica o presidente da RUTIS. “E apesar da expressão futebol a andar, isto cansa. Cansa porque é um andar rápido.”

Desconstruir o que significa ser mais velho

O torneio final, em que costumam participar quase todas as equipas, acontece em julho no Estádio da Luz, um momento com um “impacto” particular nos atletas devido à “componente emocional”. “Vemos o neto a ver a avó a jogar. O neto está habituado a ver a avó a dizer que lhe doem as costas ou no sofá e de repente vê a avó, com um equipamento de futebol, a marcar um golo no Estádio da Luz”, conta Luís Jacob. “Há aqui uma enorme desconstrução social do que é ser mais velho.”

Ver tantas mulheres a jogar futebol “pela primeira vez” é algo que “dá muita satisfação”. No caso de Ana Paula Angélico, de 63 anos, a prática da modalidade não é algo novo. “Sempre gostei muito de jogar futebol, mesmo em mais nova”, recorda. Depois de ter estado 20 anos fora do país, regressou já reformada e sentiu que tinha de “fazer qualquer coisa”. Foi assim que integrou a Academia Sénior de Artes e Saberes de Vila Nova de Santo André, onde joga walking football desde a formação da equipa, há quatro anos.

Ana Paula aponta que “a nível físico é muito bom porque os treinos são intensos, duas vezes por semana”. A prática “mexe muito com a condição física da pessoa, acima de tudo o que melhora bastante é a coordenação e o equilíbrio, algo que é extremamente importante nas idades mais avançadas, e melhora também os índices cardiovasculares”, corrobora Luís Jacob.

Convívio e inclusão

O mais importante é o convívio. “É estarmos todos juntos, quando há torneios, as pessoas de outros sítios, os abraços, é muito bonito”, destaca Ana Paula, que neste momento até está lesionada, mas continua a ir com a equipa “para todo o lado” para apoiar.

Luís Jacob considera que esta “grande vertente social” é a “base de tudo”. “É o facto de ir aos treinos, de jogar com outras pessoas, de sair de casa, de conviver”, elenca. Além disso, é um jogo que “é para todos”. “Não há aquela desculpa de dizer ‘não tenho jeito’, ‘sou gordo’ ou ‘não posso porque sou mais lento’. É um desporto totalmente inclusivo, não só no género, mas também nas competências que a pessoa tem.”

E a tentação de começar a correr? “É difícil porque se a bola nos vai ao pé, não corremos, mas se a bola vai um bocadinho mais à frente, a tendência é logo correr. Mas com o tempo habituamo-nos”, garante Ana Paula. Armando Jorge Domingues, diretor desportivo da Associação de Moradores da Portela, onde também pratica walking football, diz já estar “habituado”. “Acho que já consegui inverter o chip. Como costumo dizer, o meu coração também acaba por comandar essa tendência a não correr.”

Armando refere-se ao “duplo enfarte” que sofreu, após o qual viu a modalidade como uma “boa solução”. “Apesar de ter um coração condicionado, é uma coisa que me faz sentir fisicamente muito melhor”, conta o também treinador, de 57 anos. “Em termos de convívio é sempre espetacular. Apesar de ser tudo feito a andar, dá muito ânimo, boa-disposição e alegria”, salienta. Os benefícios fazem-se sentir no “equilíbrio da saúde física em geral, mental e do próprio bem-estar”.

Para Armando, é de realçar a relação que se estabelece entre pessoas na casa dos 50 anos e outras com mais de 70 – e até já jogou com um atleta de 92 anos. “É importante olharmos aquela pessoa que tem essa vontade de ir lá para dentro. Dá-nos sempre muito gozo estarmos a jogar com equipas onde vemos gente muito mais velha.”

Modalidade “tem vindo a crescer”

Para 2023 está previsto o primeiro Mundial, a ter lugar em Inglaterra. O walking football “tem claramente vindo a crescer”, incluindo com “algumas alterações”, indica Luís Jacob. “Algumas equipas já fazem escalões de idade, dos 50 aos 60 e mais de 60, e equipas só de homens e só de mulheres. Tem sido essa a evolução que tem acontecido a nível europeu.”

Relativamente a Portugal, a pandemia de covid-19 causou um impacto “terrível”, obrigando a parar totalmente, mas 2022 tem sido de recuperação. É também o ano em que o país tem uma seleção nacional representada em torneios europeus, algo “extremamente gratificante”. “Tem sido muito interessante porque temos dado oportunidade a pessoas de 60, 70 anos ainda vestirem a camisola nacional e irem representar Portugal”, destaca o presidente da RUTIS.

Os principais objetivos passam por aumentar o número de praticantes e trabalhar para “atrair outro tipo de equipas”, além das universidades seniores. Agora que o projeto “está consolidado”, importa que “toda a gente perceba a mais-valia que é praticar walking football e provar que o desporto é para todos”.