Cinema

Filme do descontentamento: o que se passa nos cinemas?

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As pessoas ainda não voltaram em pleno às salas depois da crise pandémica. O cinema português também sofre com a deserção do público. Estes são os factos

3 janeiro 2023 10:47

É muito provável que “Avatar: O Caminho da Água” ultrapasse 1000 milhões de dólares nas bilheteiras de todo o mundo nos finais de 2022, anunciava, há dias, a “Variety”, a mais importante publicação da indústria cinematográfica. O regozijo acentuava-se face às indicações de que o comportamento do filme nas salas resistira bem à severa perturbação meteorológica que se abateu sobre os Estados Unidos no fim de semana do Natal, a mesma que fizera mergulhar num buraco a estreia americana de “Babylon”.

O contentamento que o sucesso do mais recente trabalho de James Cameron, sobre o qual falou ao Expresso, desperta não tem a ver com as hipotéticas qualidades do filme, mas com o facto de ele estar a ser um bom alimento para o depauperado sector da exibição, lá como cá a tardar uma plena recuperação da hecatombe que o atingiu com a pandemia e o fecho das salas que a acompanhou. Em Portugal, a fome de espectadores é tanta que “Avatar: O Caminho da Água” estreou-se em 249 salas, um número absolutamente sem paralelo. É um maremoto, a varrer tudo. Para se fazer uma ideia da desmesura, basta dizer que “Top Gun: Maverick”, o maior êxito de 2022 no nosso território (mais de 700 mil espectadores) teve 147 ecrãs na estreia.

Vejamos os factos. Nos últimos anos antes da pandemia, o público anual das salas de cinema portuguesas estava estabilizado num patamar à volta dos 15 milhões de espectadores. Uns anos um pouco acima, outros um pouco abaixo: os filmes não são todos iguais, há os que chamam mais público, há os que moderam. Não era um planalto — cada português ir ao cinema 1,5 vezes por ano é pouco — mas era razoavelmente estável. Depois, em 2020 e 2021, afundou-se: menos de 4 milhões no primeiro, pouco melhor no segundo: quase 5,5. Em 2022 todas as atividades económicas entraram em franca recuperação, em algumas, como o turismo, excedendo as expectativas. Todas? Não: o sector da exibição cinematográfica tarda em ganhar o músculo que tinha em 2019. No momento em que escrevo não tenho os números definitivos, mas é credível dizer que se ficará pouco acima dos 9 milhões de bilhetes vendidos, muito longe dos mais de 15,5 milhões de 2019.

CINEMA PORTUGUÊS

Nesta conjuntura sofre muito um parente (bastante) minoritário: o cinema português. Tradicionalmente cativo de um nicho de onde só de longe em longe conseguia sair, o cinema português teve sempre uma esquálida fração do mercado. Em 2019 atingira os melhores números dos últimos anos (12% dos filmes estreados eram portugueses a que correspondiam 4,5% dos bilhetes vendidos). Face ao panorama global, até se aguentou com galhardia em 2022 (estima-se que ficará acima dos 13% no rácio dos filmes e em cerca de 6% no dos espectadores). Mas é fraca a consolação que estes números propõem. Houve um grande sucesso — “Curral de Moinas — Os Banqueiros do Povo”, mais de 300 mil espectadores, o suficiente para o colocar nos dez filmes mais vistos do ano, bem à frente, calcule-se!, de blockbusters americanos como “Mundo Jurássico Domínio” ou de “The Batman”.

Miguel Cadilhe entrou assim pela realização de cinema, muitos anos depois de ter sido produtor de Manoel de Oliveira com quem deve ter aprendido que cinema para fazer dinheiro é diferente do que o ‘mestre’ fazia. Do mesmo campeonato — o das comédias boçais, a apelar ao espalhafato e à truculência — foi o segundo filme português que mais público alcançou (“2 Duros de Roer”, quase 50 mil espectadores). A partir daí nenhum chegou ao patamar dos 20 mil, havendo cerca de 40 que nem dos 5 mil se aproximaram. Uma desolação.

Particularmente significativos foram os fracassos dos filmes de António-Pedro Vasconcelos e de João Botelho, dois cineastas com créditos firmados e definido valor de mercado. Atente-se no historial recentes de António-Pedro Vasconcelos — “Os Gatos Não Têm Vertigens” (2014): 93.305 espectadores; “Amor Impossível” (2015): 35.980; “Parque Mayer” (2018): 42.173. Mesmo verificando que estamos longe dos tempos áureos dos mais de 230 mil espectadores de “Call Girl”, em 2007, a verdade é que nenhuma previsão deixaria supor que o recente “Km 224” nem aos 5 mil chegasse. É descoroçoante, tanto mais quanto o realizador pratica e pugna por um cinema comercial. De igual modo se dirá de João Botelho: situando-se na trincheira do cinema de autor, não desdenhou a glória dos mais de 120 mil bilhetes vendidos de “Os Maias — Cenas da Vida Romântica (em 2014), merecidíssimo sucesso conseguido sem abdicar da sua posição de princípio. “Peregrinação”, em 2017, regressou à dignidade austera dos pouco mais de 20 mil e, em plena pandemia — 2020, para quem estiver esquecido — “O Ano da Morte de Ricardo Reis” que não mostrava o dente à facilidade conseguiu uns surpreendentes quase 12 mil. Como justificar que o engenhoso — e divertido — “Um Filme em Forma de Assim”, revisitando Alexandre O’Neill, se tenha quedado em 2200?

Mais: “O Pai Tirano”, remake do clássico de Lopes Ribeiro, estampou-se — nem 10 mil conseguiu (tão longe dos números dos seus meios-irmãos de sangue, em 2015/2016, “O Pátio das Cantigas”, “O Leão da Estrela” ou “A Canção de Lisboa” que até dói). E era bem melhor do que os outros. Os cínicos dizem que o fracasso foi por isso mesmo. E ainda: “Revolta”, de Tiago R. Santos, bem dialogado, destro de realização, com quatro atores muito conhecidos, desabou nos 1700. É melhor ficar por aqui para não deprimir as consciências.

Cesária Évora (1941-2011) numa fotografia inédita

Cesária Évora (1941-2011) numa fotografia inédita

joanne savio

SUCESSO DOCUMENTAL

Entretanto, surpresas, pela positiva. Documentários a portarem-se bem melhor que obras de ficção encartadas: “Cesária Évora”, de Ana Sofia Fonseca, e “Um Corpo que Dança — Ballet Gulbenkian 1965-2005”, de Marco Martins, ambos no intervalo em torno dos 7 mil; ou “Montado — O Bosque do Lince Ibérico”, do espanhol Joaquín Gutiérrez Acha, acima dos 3 mil; tendo-se estreado num circuito limitado de salas (e, talvez por isso, podido ir permanecendo em exibição), acercaram-se melhor do seu público potencial. O ano foi tão acabrunhado que vários filmes prontos há muitos meses preferiram esperar — ou os distribuidores fizeram-nos esperar, o que vai dar ao mesmo — por melhores dias. É o caso de “Amadeo”, de Vicente Alves do Ó, pronto desde 2020 a estrear em janeiro de 2023. Ou de “A Arte de Morrer Longe”, de Júlio Alves: esteve no IndieLisboa em 2020, só para o ano chegará às salas, ainda sem data aprazada. São casos de óbvio resguardo de uma onda má que ninguém sabe quando passará, se passar.

No seio dos produtores corre célere a necessidade de um estudo do perfil do espectador de cinema para se tentar perceber a situação. Sem uma análise fina do mercado continuaremos a navegar à vista, no reino das opiniões particulares e das decisões absurdas (como as mais de 40 salas acordadas entre o distribuidor e os exibidores para “Nunca Nada Aconteceu”, com os resultados desanimadores que se sabem: 2060 espectadores em 515 sessões. Média, por sessão: 4. Não dá para acender a luz. Não é caso único, só um exemplo.

É verdade que há filmes que não merecem o trabalho de imprimir os cartazes, não é novidade. Não são todos, sequer a maioria. Fracassos condignos e êxitos inusitados sempre os haverá, nenhum planeamento, nenhum decreto, nenhuma decisão altera os factos da vida. Os filmes não são produtos feitos em série numa instalação industrial, o algoritmo para conceber, realizar, distribuir e exibir um sucesso de bilheteira não existe.

DADOS PRECISAM-SE

Premente é ponderar a formulação na base da distribuição/exibição, o número, a especificidade e a localização dos ecrãs adequados a cada filme. Fazer perceber que há cartazes que não valem a tinta que neles se gastou, incapazes de vender o produto que afixam. Ou trailers que não conseguem que o espectador tenha vontade de ver o filme. Sim, é preciso afinar o marketing do cinema português. Mas é só isso? Ninguém sabe.

Os espectadores ficam em casa a ver séries na Netflix ou na HBO em vez de irem ao cinema? Ninguém sabe. Se se empreendesse um estudo aturado talvez se começasse a saber

Os espectadores ficam em casa a ver séries na Netflix ou na HBO em vez de irem ao cinema? Ninguém sabe. E que idade têm, 15, 30, 50, 75 anos? E onde estão, nas cidades, nos subúrbios, em Freixo de Espada à Cinta? E têm a escolaridade básica ou licenciaturas? E leem livros ou só veem telenovelas? E a que classes sociais pertencem? E vão ao cinema regularmente ou só quando Deus quer? Ninguém sabe, deveras, ninguém sabe. Se se empreendesse um estudo aturado talvez se começasse a saber — atenção Instituto do Cinema e do Audiovisual, atenção Associação Portuguesa de Empresas Cinematográficas, atenção Associação de Produtores de Cinema e Audiovisual, está aí alguém?

SUCESSO NOS FESTIVAIS

E, todavia, 2022 foi um ano muito animador no plano internacional. Portugal teve filmes selecionados para os principais grandes festivais e, em alguns casos, prémios (aconteceu com “Super Natural”, de Jorge Jácome, premiado em Berlim; a curta de animação “Ice Merchants”, de João Gonzalez, na Semana da Crítica, de Cannes; “Nação Valente”, de Carlos Conceição, em Locarno; ou “Lobo e Cão”, de Cláudia Varejão, em Veneza). “Fogo-Fátuo”, de João Pedro Rodrigues, depois de uma boa receção crítica na Quinzena dos Realizadores, de Cannes, estreou-se em França e a seguir na Alemanha, Áustria, Itália — e ainda não vai ficar por aqui.

A audiência nas salas não é a única aferição da relevância social de um filme. E ainda menos da sua expressão económica: do VOD à Pay TV, da televisão generalista às plataformas de streaming e aos festivais, há vasto caminho para percorrer

No campo da animação foi um ano histórico com a conclusão das duas primeiras longas-metragens (“Nayola”, de José Miguel Ribeiro, e “Os Demónios do Meu Avô”, de Nuno Beato) e uma presença muito notória do sector nos principais festivais, Annecy e Animafest Zagreb. Os prémios internacionais recebidos pela animação portuguesa no ano passado contam-se pelas dezenas, não sendo por acaso que, pela primeira vez duas curtas de produção lusa estão na shortlist para os Óscares — “O Homem do Lixo”, de Laura Gonçalves, e “Ice Merchants”, de João Gonzalez. E poderíamos continuar a enumerar reconhecimento e aplauso em múltiplas latitudes das diversas facetas do cinema português.

Serve isto para lembrar que a audiência nas salas não é a única aferição da relevância social de um filme. E ainda menos da sua expressão económica: do VOD à Pay TV (em Portugal, os canais TVCine), da televisão generalista às plataformas de streaming e aos festivais, há vasto caminho para percorrer. Quanto à relevância artística, por muito que a queiramos fixar agora, só o tempo, com o seu trabalho de erosão, decantação e sedimento, a vai determinar.