Cultura

“Que poema enviaria ao primeiro-ministro? Um que lembrasse que há só uma vida, uma só humanidade e cada um faz apenas a sua parte”

3 abril 2019 9:22

raquel marinho

André Tecedeiro é artista plástico e poeta, nascido em Santarém em 1979. Estudou Pintura e Artes Plásticas, e atualmente frequenta o mestrado integrado em Psicologia. Publicou três livros de poesia, e vai publicar o quarto este mês. No seu livro “O Número de Strahler”, edição Do Lado Esquerdo, faz uma reflexão sobre o processo de mudança de género a que se submeteu recentemente. Recebeu-nos em sua casa, mostrou-nos o seu trabalho artístico, leu-nos um poema, e conversou sem reservas ou tabus

3 abril 2019 9:22

“não há solidão
comparável
à de vivermos longe de nós.”

Este poema que acaba de ler é do seu próximo livro. Já pode falar sobre ele?
Sim, vai sair em abril e chama-se “A Arte da Fuga” porque reúne histórias sobre fugitivos. Todos os poemas são baseados em histórias de alguém que lutou pela sua liberdade, e este poema que li foi inspirado pela história do Papillon, que é bem conhecida. Claro que depois os poemas não são só sobre essas pessoas, falam também sobre mim.

Nada a ver com Bach?
“A Arte da Fuga” foi um bocadinho roubado, foi. (risos) Porque o título pôs-se a jeito. Apesar de que para Bach a fuga é outra coisa.

Disse que se interessa pelas situações em que as pessoas se tentam superar. Interessa-lhe esse percurso?
Sim, a luta pela liberdade. A pessoa não se submeter às circunstâncias da vida e tentar ir mais longe, voltar a ganhar a sua liberdade.

Isso tem alguma coisa a ver consigo?
(risos) Tem, claro. Eu acho que tem a ver com toda a gente. Acho que quase toda a gente já esteve em situações incómodas em que precisou de força para sair, e eu acho isso importante. E achei que trazer estas histórias que são realmente pesadas, de pessoas que conseguiram superar essas dificuldades, podia ser também uma inspiração para outras pessoas.

Mas então são sempre poemas baseados em histórias reais.
Sim, sim. Situações históricas. Algumas são baseadas em histórias de fugas de escravos americanos, histórias de gladiadores romanos que fugiram, fugas da prisão durante a Segunda Guerra Mundial. Algumas histórias são muito conhecidas, mas eu dou um olhar diferente, sempre. Faço uma interpretação.

E dizia que nesses poemas fala sobre essas pessoas, mas que simultaneamente fala sobre si. É sempre assim?
Sim, porque os meus poemas nascem sempre de coisas que eu vejo ou que estão fora de mim, mas passam sempre por uma interpretação que faço. Ou seja, essas percepções que eu tenho são filtradas pela minha experiência, e no fundo é sempre uma mescla entre o que está fora e o que está dentro. Eu gosto de fazer isso assim, é a minha leitura sobre o mundo.

A sua leitura sobre o mundo também se encontra neste último livro “O Número de Strahler”. Este livro, creio eu, reflecte de alguma maneira um processo que o André iniciou e pelo qual está a passar agora. Quer falar sobre isso?
Sim, sobre a minha mudança de género. O livro foi interpretado pela maior parte das pessoas como a história desse processo. Para mim começa um pouco antes porque é também a história do que permite esse processo. E tem também a ver com as tais fugas. É preciso nós tomarmos posse de nós mesmos para depois podermos chegar mais longe. É preciso sentir que temos liberdade para fazer as coisas. Então, o livro acompanha o processo mas também tudo aquilo que existe para que o processo possa acontecer.

E o que é que permitiu que o processo pudesse acontecer?
Ter consciência de que sou dono de mim. Ter consciência de que há coisas que só podem ser decididas por mim. E creio que há muitos poemas que têm essa busca de identidade mas também de poder sobre nós próprios.

E essa consciência que ganhou foi um processo com adversidades?
Com muitas adversidades. Acho que é mais difícil esse processo do que o outro. O outro faz-se e faz-se com a ajuda dos médicos, das equipas que nos ajudam. Se não tivermos força para acreditar que temos mão em nós, então não conseguimos fazer nada na vida. E acho que as pessoas se identificaram com muitos poemas desse livro porque muitas delas têm situações em que sentem que não são donas da sua vida.

O André sentiu isso também?
Sim, sim. Muitas vezes.

Quando?
Ao longo da minha vida, até aos últimos anos, senti muitas vezes que não podia escolher coisas. Sei lá, por medo de magoar pessoas que estavam à minha volta, por medo das reações, por medo de ser diferente. Mas nós temos de tomar decisões e ninguém as vai tomar por nós. E não vale a pena estar a viver a vida de outras pessoas, ou os desejos de outras pessoas, nós temos de viver os nossos desejos e elas farão o mesmo.

E o seu desejo qual era, André?
Era ser eu e ser livre. E isso está nestes dois livros. Tanto n`”O Número de Strahler”, que é o início dessa liberdade (o número de strahler é o conjunto dos rios que se unem para criar um rio maior) como agora com estas histórias de fugas do livro novo, que têm a ver também com a possibilidade de juntar à minha história outras histórias - porque eu quero passar uma mensagem, eu quero comunicar, é por isso que escrevo - e que outras pessoas possam perceber que há muita gente em fuga e muita gente a fugir para si. E que podem também fazer isso.

Não é a primeira vez que usa a palavra liberdade, ou a expressão busca da liberdade para falar deste processo. Não era livre antes?
Não. Eu acho que não somos livres se não tivermos corpo. Ou se não pudermos decidir o que é importante para nós. A identidade é uma necessidade básica do ser humano.

E antes sentia que não tinha corpo?
Sentia que a minha identidade não estava completa. Imagine que agora você foge para um país qualquer e não tem cartão do cidadão, número de identificação, não tem a sua identidade. Na verdade, não pode fazer nada. Não é você. Não pode arranjar trabalho, aliás, nós vemos como isso é difícil para um imigrante, não é? E o quanto é importante ser um cidadão pleno. É uma coisa importante. E eu acho que as pessoas não percebem esta questão do género como uma questão de identidade, mas isso é que é o importante de tudo.

Quando diz que as pessoas não percebem, significa que encontrou alguma resistência, algum preconceito, nessa sua busca de identidade?
Sim, sim. Toda a gente que está num processo como o meu sente. Porque nós falamos entre nós, e toda a gente sente esse preconceito, e há pessoas que não compreendem. Eu percebo porque é que não compreendem. Para elas, quem nasce mulher e se sente mulher, pensa que os outros devem sentir mais ou menos o mesmo. Se se nasce homem e se sente homem, os outros devem sentir mais ou menos o mesmo. E é realmente estranho que uma pessoa olhe para si e não se reconheça. Eu percebo, quem não passou por isto terá muita dificuldade em perceber, mas é isto que se sente e não é agradável. Aliás, não é nada agradável.

Quando diz que não é nada agradável significa que comporta também algum sofrimento?
Sim, sim.

Em que medida?
Sente-se um desajuste. Aquilo que esperam de si naquele papel é muito difícil para si, é como se estivesse a interpretar. Tem de interpretar o papel para que toda a gente à sua volta fique contente, do género "ah, sim, está a comportar-se como uma menina." E isso é mau. Está-se sempre a fingir. Há pessoas que se dão bem sempre a fingir e que nem têm problemas de género, e fingem o dia todo, mas eu não me sinto confortável assim.

E agora como é que está?
Estou cada vez mais confortável. (risos) Sim, estou a descobrir-me, é bom.

Para quem não conhece o seu trabalho, a sua formação é artes plásticas e agora faz este tipo de trabalhos. Quer falar-nos sobre isto?
Sim. Eu comecei por estudar escultura e depois acabei o curso em pintura, mudei a meio do curso. E acabei por nunca fazer pintura com tintas, fiz durante o curso mas não era aquilo que me chamava a atenção, porque gosto muito de trabalhar com o material em si, com as matérias. E estes trabalhos são realizados com papéis e agrafos. Ou seja, em vez de trabalhar sobre uma superfície de papel, a superfície é criada com a própria matéria. Vou juntando fragmentos, vou agrafando uns aos outros e vai crescendo uma forma com cores.

E depois do resultado final, atribui-lhe um conceito ou um significado?
Dou-lhe um título que geralmente me surgiu com o fazer, ou com o tipo de cores e materiais que estou a usar. E geralmente são uns títulos um bocado poéticos, são mini poemas.

Por exemplo?
Agora não me lembro, mas fiz uns com umas caveiras e os títulos que lhes dei foi “renascer” porque sinto que eles falam sobre uma possibilidade de nascer de novo. As pessoas identificam a caveira com um símbolo da morte mas para mim não é a morte. É pensar "um dia vais morrer portanto agora é melhor aproveitares e usares bem."

Por falar em usar bem. O André estudou Artes Plásticas mas agora está a estudar psicologia.
Sim. Sou uma pessoa com muitos interesses, que é uma coisa que geralmente não é muito bem vista, porque na nossa sociedade pensa-se que temos de escolher um caminho e depois especializar-nos até... Só que, tem a ver com a tal coisa, eu quero aproveitar a vida bem e quero fazer tudo aquilo que sinto que tem interesse. Eu sempre me interessei por comportamento humano e quero explorar também isso.

Para terminar a nossa conversa, vamos falar do tema que nos trouxe cá, que é a poesia. Escreve desde cedo?
Eu sempre tive interesse pela escrita, sempre gostei muito de ler, é uma das coisas que mais gosto de fazer. E na altura dos blogues, eu tinha um blogue, e o Miguel Martins, o poeta Miguel Martins de quem gosto muito, perguntou-me se eu escrevia e se podia ver as minhas coisas, e foi ele que me editou. O primeiro livro foi editado por ele.

Pela Tea For One.
Pela Tea For One. E correu bem, eu gostei mesmo. Aprendi imenso com ele, com a escolha e edição que ele fez dos poemas, aprende-se muito. Depois editei o segundo livro pela Douda Correria, do Nuno Moura, que também é um poeta que aprecio muito. Tem sido bom (risos). Esta possibilidade de editar também me dá a conhecer pessoas, pessoas que são importantes para mim. E este terceiro livro foi editado pela Do Lado Esquerdo.

Disse há pouco que sempre se interessou pela escrita. Isso significa que escreve sempre? Que tem de escrever, como naquele poema do Charles Bukowski em que ele diz que só se deve escrever se rebentar dentro da pessoa a despeito de tudo?
É mesmo esse o caso, é absolutamente. Eu mesmo que não publicasse escreveria, sempre escrevi. E é uma forma de conhecimento. É uma forma de pormos as nossas ideias por escrito e termos mais consciência de nós, mais consciência das nossas ideias. E todos os poemas são muito verdade para mim. São coisas que eu preciso de dizer, nem que seja a mim próprio.

Dizia há pouco que uma das coisas que pretende com o seu trabalho poético é comunicar com as pessoas. Quer dizer-lhes alguma coisa específica, passar-lhes uma mensagem?
A princípio não tinha essa intenção, mas depois percebi... O livro “O Número de Strahler” tem poemas que foram muito partilhados e as pessoas escreviam-me, começaram a enviar-me mensagens e a dizer-me "olha, este poema explica mesmo o que eu sinto e não consigo dizer." E eu comecei a perceber que os poemas comunicavam mais do que eu pensava e que as pessoas adaptavam à sua vida, à sua realidade. E achei que se calhar faz falta não escrever só para mim e partilhar, porque há pessoas que precisam às vezes dessas palavras.

O André também precisa de algumas palavras?
Preciso, claro. E há poemas que me mudam a perspetiva. Falou há pouco do Bukowski e há vários poemas dele que, quando eu estou num ponto de mais desespero, me dão força, porque ele tem esse lado. Para além de ter um lado bastante miserável, tem um lado muito luminoso. E os poemas luminosos dele são como orações para mim, só para dar um exemplo. Há outros poetas que também têm esse poder em mim, e eu também, no meu lugarzinho mais modesto, se conseguir também às vezes ser uma luz para algumas pessoas, é bom, fico muito contente com isso.

O André tem 40 anos. Quando olha para a frente, e pensando na sua vida, o que gostaria de ver?
(pausa) Sempre que fiz esses exercícios no passado, vi menos do que na verdade aconteceu. A minha imaginação não foi suficientemente longe para visualizar as voltas que a vida deu. Então até tenho medo de fazer esse jogo agora. Não sei, não sei. Eu nunca pensei que um livro meu fosse editado, por exemplo. Ou nunca pensei que ia ter força para fazer esta mudança de género, nunca pensei nada disto, portanto a vida tem sido muito mais surpreendente do que a minha imaginação.

A poesia serve para quê?

Para dizer coisas que sem poesia nunca poderiam tomar forma.

Há uma parte de se ser humano que só pela poesia se consegue comunicar.

Deve saber vários versos de cor. Qual o primeiro que lhe vem à cabeça?

“Alma minha gentil, que te partiste”

Se não fosse poeta português (ou de outro país) seria de que nacionalidade?

Não importava a nacionalidade desde que pudesse escrever em português.

Um bom poema é?

Um bom poema é caminho mais curto que não seja um atalho.

O que o comove?

O anúncio ao azeite na época de Natal.

Que poema enviaria ao primeiro-ministro português?

Um que não falasse de mar salgado nem de Portugal, nem de impérios, nem de amanhãs. Algo que lembrasse que há só uma vida, uma só humanidade e cada um faz apenas a sua parte.

Por sua vontade, o que ficaria escrito no seu epitáfio?

“Foi pela vida adentro”

O Poema Ensina a Cair começou por ser, em 2015, uma rubrica semanal do Expresso Diário sobre poesia portuguesa. Pretendia divulgar autores contemporâneos, mas não só. A ideia original de Raquel Marinho volta agora ao Expresso, desta vez com uma comunidade grande de seguidores nas redes sociais. Pode acompanhá-la no Instagram e no Facebook.