A Revista do Expresso

A vida verdadeira de uma falsificadora ao serviço do PCP

15 janeiro 2023 22:31

Joana Pereira Bastos

Joana Pereira Bastos

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Jornalista

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Viveu 20 anos na clandestinidade e foi dezenas de pessoas. Chamou-se Teresa, Laura, Luísa, Marta, Beatriz, Leonor… Cada nome era uma origem, uma história, uma pronúncia. Margarida Tengarrinha, responsável pela oficina de falsificações do PCP, forjou milhares de documentos para os que, como ela, lutavam na sombra. Incluindo Álvaro Cunhal

15 janeiro 2023 22:31

Joana Pereira Bastos

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Tiago Miranda

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desafio que mudou a sua vida chegou-lhe numa tarde de inverno de 1954, durante um encontro secreto com um homem que dizia chamar-se “Gomes”. Foi aí, numa praia da Ericeira fustigada pelo vento e pelo frio, que ele lhe perguntou se aceitava “mergulhar”. A palavra de código usada para referir a passagem à clandestinidade não era escolhida ao acaso. De alguma forma, tratava-se de submergir, de ‘ir ao fundo’ e lá ficar, talvez para sempre. Como se estivessem a pedir-lhe que aceitasse entrar naquelas águas revoltas e se dispusesse a afogar a pessoa que era. Margarida estava consciente do que a proposta implicava. Sabia que teria de cortar com a família e com os amigos, deixar a vida como a conhecia e tornar-se invisível. Sabia do perigo, das privações e do sofrimento que inevitavelmente a esperariam. Mas o orgulho e a excitação de ser convidada a aceder ao que via como o expoente máximo da resistência à ditadura sobrepunham-se à angústia e ao medo. Tinha 25 anos e uma filha de dois quando disse que sim.

Não tomou a decisão sozinha. Ao seu lado, estava José Dias Coelho, pai da sua filha, com quem começara a namorar quando estudavam ambos em Belas Artes. A paixão foi de tal modo arrebatadora que Margarida não hesitou em deixar o casamento recém-celebrado com um jovem arquiteto para se juntar a ele. Era para a vida, mas a de José acabaria por ser brutalmente ceifada pela PIDE, poucos anos depois. Naquela tarde na Ericeira, porém, e apesar do enorme risco que sabiam que passariam a correr, acreditavam num futuro luminoso. Movia-os um “romantismo revolucionário” e uma esperança juvenil onde não cabem desgraças.