Política

Há um jovem que fala diretamente com António Costa - e diz que os "jovens estão revoltados". O que ele lhe pede em 4 pontos

hugo delgado

Miguel Costa Matos, que voltou a ser eleito líder da Juventude Socialista este mês, entrou para o Parlamento com 25 anos, em 2019. Hoje já não é o deputado mais novo, mas é um dos jovens mais próximos de António Costa. Garante que a JS “não serve só para distribuir folhetos”, reconhece que os jovens estão cansados das “quatro crises” que já viveram, que os pode levar a um “voto de protesto”. E leva "propostas” ao primeiro-ministro. Mas, afinal, quais são? E como faz para convencer Costa?

3 janeiro 2023 14:27

Sem antecedentes familiares na política, Miguel Costa Matos não precisou de muito tempo para perceber que o seu futuro passava pelas bancadas parlamentares. “Inscrevi-me na JS quando fiz 14 anos, em 2008”. Dois anos mais tarde foi eleito representante dos estudantes socialistas, o que lhe permitiu “ganhar reconhecimento” dentro da JS.

Depois de uma passagem por Inglaterra, regressou a Portugal para terminar os estudos superiores na NOVA SBE, porque “queria contribuir” para o país. E fê-lo por dentro: em 2016 fez um estágio no Ministério da Economia, passou pelo Ministério das Finanças e foi convidado pelo primeiro-ministro para integrar o seu gabinete. A passagem para a Assembleia aconteceu em 2019, altura em que entrou como o mais jovem deputado. “Estes três anos de experiência parlamentar têm sido uma viagem. É uma experiência que me tem deixado fazer a diferença na minha geração”, dizia ao Expresso Miguel Costa Matos, na semana seguinte a ser reeleito líder da JS, durante o XXIII Congresso da JS, em Braga.

Hoje, Costa Matos já não detém o título de deputado mais novo da AR – perde-o para Rita Matias, do Chega, com 24 anos – mas mantém-se como um dos jovens mais influentes e próximos do primeiro-ministro. Apelidando Costa de “cabeça jovem” e “disponível para ouvir”, Costa Matos garante que existe “abertura” do partido para as propostas da JS. Provas? Miguel fala da mensagem de Ano Novo do primeiro-ministro, dedicada aos jovens, onde destaca a “confiança no futuro" e a necessidade de “garantir” que os jovens (o “maior ativo que um país pode ter”) escolhem Portugal para trabalhar.

Em quatro perguntas e respostas, dizemos-lhe mais sobre a relação entre a JS e o Governo, as propostas prioritárias dos jovens socialistas e a perspetiva de as ver aprovadas.

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Qual é a influência do líder da JS nas decisões do Governo?

Propostas, justificações e custos – são estes os três ingredientes que a JS leva a Costa nas reuniões “regulares”, mas sem ”periodicidade fixa" que têm com o primeiro-ministro. “Falamos regularmente sobre as várias propostas da JS, sobre a situação política e a atualidade”. Apesar de ser parte integrante do Partido Socialista, Costa Matos caracteriza a JS como um organismo “autónomo” e com “irreverência” que nem sempre está em “concordância” com o partido.

Miguel diz que tem prioridades: medidas de combate às alterações climáticas ou de apoio à saúde mental. “O melhor contributo que a JS pode dar é quando acrescenta causas, preocupações e pessoas ao projeto do PS”. A relação entre juventude e partido, nas palavras do jovem, sai “reforçada” pela JS “afirmar essa diferença”.

Mas será que as propostas ditas ‘irreverentes’ da JS conseguem chegar aos dossiês do partido? Miguel Costa Matos garante que sim. “Se não fosse assim não teríamos tido tantas conquistas em áreas como o ensino superior ou o clima”. O deputado vinca que foi o organismo que lidera que “exigiu” mais “ambição climática” ao partido de António Costa e produziu resultados como a aprovação da Lei de Bases do Clima – que juntou os projetos de lei do PS, PSD, Verdes, PAN, Bloco de Esquerda e deputadas não-inscritas Joacine Katar Moreira e Cristina Rodrigues – em 2021. “A JS não serve só para distribuir folhetos, serve para dar ideias ao PS”.

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Quais são as medidas para os jovens que quer convencer Costa a aprovar?

Além da legalização da canábis, que Miguel Costa Matos vê como uma “causa estruturante na saúde pública”, o presidente da JS aponta a causa da saúde mental como uma das grandes bandeiras da organização socialista. A inclusão de psicólogos nas equipas de saúde da medicina no trabalho é uma das propostas da JS que está a “ser trabalhada” junto do Ministério do Trabalho. “Temos a expetativa de vir a ser implementada em breve”. O líder da JS lembra que “Portugal é um dos países da Europa com mais pessoas em risco de burnout” e, por isso, é fundamental existir uma “avaliação precoce no local de trabalho”.

O trabalho da JS na área da saúde mental também chega aos mais jovens. “É fundamental haver mais psicólogos nas instituições de ensino básico, secundário e superior”. Esta aposta no aumento do número de psicólogos também deveria ser refletida no Serviço Nacional de Saúde, defende Costa Matos. “A nossa proposta é que, tal como cada pessoa tem um médico de família, possa ter um psicólogo de referência, que consiga assegurar-lhe acompanhamento psicológico”. Antes de terminar as propostas para o futuro, o líder da JS não se esquece de invocar as conquistas do passado. “Nos últimos dois anos já conseguimos [a JS] a garantia legal de igual tratamento da saúde física e mental nos seguros de saúde, incluindo na ADSE”. E conclui: “Agora temos de garantir que também na saúde pública também há essa correspondência”.

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O PS está a aproveitar a maioria absoluta suficientemente bem para implementar medidas a favor dos jovens?

Apesar de nove meses de uma maioria absoluta que diz ser de “muito trabalho”, Costa Matos reconhece que “mais trabalho aí vem”. “A nossa é a geração das 4 crises – de 2008, de 2011, de 2020 e 2022 – e se olharmos para a realidade, percebemos porque é que os jovens estão revoltados”.

Tal como os dados estatísticos sobre emprego jovem têm demonstrado, também o líder da JS está a par da situação negra em que se encontra a mão-de-obra acabada de sair da universidade. “Um em cada seis jovens não encontra emprego, dois terços dos contratos são precários, três quartos dos salários dos jovens são abaixo dos 950 euros”.

Apesar desta geração enfrentar “enormes desafios”, Costa Matos está confiante que é possível mudar o rumo atual. O socialista garante que, até agora, a JS já conseguiu influenciar o Governo a aplicar medidas como “as creches gratuitas, o abono de família, o reforço das pensões, um acordo de rendimentos com o setor privado”. Para os próximos quatro anos é necessária “mais habitação acessível”, uma aposta na “inovação”, o reforço da “ação social” e não desistir da luta pela “igualdade de oportunidades”. Só estas medidas, nas palavras de Costa Matos, poderão evitar o “voto em protesto” dos jovens nos partidos de direita e extrema-direita.

Ciente de que há “problemas estruturais” difíceis de erradicar – como a “precariedade” ou os “baixos salários” –, Miguel Costa Matos não deita a toalha ao chão. “Temos a convicção [a JS] que vamos conseguir deixar o nosso país melhor em cada uma dessas áreas [habitação, saúde e trabalho jovem]”.

Quando lhe perguntamos sobre os últimos sete anos de governação socialista, o líder da JS não evita aquilo que chama de “fait divers” e “conjunto de infortúnios” que têm atribulado o seu partido – do caso de Alexandra Reis à mais recente demissão de Pedro Nuno Santos, que se juntou às 10 saídas acumuladas durante o pouco mais de meio ano de maioria absoluta. Contudo, vem em defesa do partido que representa. “[O PS] decidiu esvaziar os casos e casinhos ao invés de tentar soterrá-los com areia. Isso é um gesto de maturidade que merece ser reconhecido”. Para assegurar a estabilidade dos próximos quatro anos, é necessário “esclarecer” e “evitar” futuros casos semelhantes.

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Mas como é que os jovens, que não o Miguel, podem chegar ao primeiro-ministro?

Os membros da JS são alguns dos jovens com maior proximidade ao primeiro-ministro. Ainda assim, Miguel Costa Matos garante que as juventudes partidárias “têm vantagens”, mas não são o “único caminho”: “O primeiro-ministro é alguém que valoriza muito a iniciativa dos jovens, tem tempo disponível para ouvir e para ser surpreendido pelas nossas ideias”.

De acordo com o deputado, qualquer jovem “empreendedor”, “investigador” ou integrado em “associações juvenis” tem potencial para chegar a conversações com António Costa. Apelidando o primeiro-ministro de “cabeça jovem” e com “grande abertura” para “ouvir e valorizar” os mais jovens, Costa Matos defende que esta posição deve ser aproveitada por quem quer ser ouvido. “Os jovens devem aproveitar essa abertura e procurá-lo, escrever-lhe".

Este texto faz parte de um conjunto de conteúdos que o Expresso publica para falar diretamente com os leitores mais jovens e sobre aquilo que os afeta mais de perto. Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail para aqui.