A Beleza das Pequenas Coisas

Djaimilia Pereira de Almeida: “É um ato político e de coragem eu, mulher negra, acordar, beber um café, fumar três cigarros e escrever"

16 dezembro 2022 15:00

João Martins

Sonoplastia

Nuno Fox

Nuno Fox

Fotojornalista

A crítica acarinhou-a logo em 2015 quando se estreou com o romance “Esse Cabelo”, depois foi distinguida com o Prémio Oceanos 2019 com “Luanda, Lisboa, Paraíso”, e, em 2020, teve direito ao segundo lugar do mesmo prémio com “A Visão das Plantas”. Nascida em Luanda, Djaimilia Pereira de Almeida cresceu nos subúrbios de Lisboa. “A escrita trata das minhas dores todas. Quando tenho um problema que me angustia, uma pergunta que me aflige ou uma dor qualquer, o que faço é escrever. Escrever lava-me.” Ouçam-na no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”, com Bernardo Mendonça

16 dezembro 2022 15:00

João Martins

Sonoplastia

Nuno Fox

Nuno Fox

Fotojornalista

Pode um amor ser como um ‘ferry’ capaz de atravessar um rio revolto de tormentas, de fantasmas, de desequilíbrios mentais e sonhos pesados e ainda assim manter-se à tona? E quando esses sonhos por cumprir dão origem a eternas dores e vazios e a pesadelos apocalípticos a cada dia que passa? Será tudo delírio, verdade ou consequência?

Esta é a história de um casal, Vera e Albano, com uma relação à prova de bala, à prova de incêndios, à prova da estranheza e costas viradas dos outros, à prova da frustração de nunca terem tido uma filha - uma filha que, apesar de nunca ter nascido, chama-se Mariana e está a completar a formatura. Ou, melhor, poderia estar, se realmente existisse.

Eis um livro sobre Vera que escreve um diário e que vive a meias com a sua dupla, o seu espelho, a outra Vera. Um livro que conta a travessia ou a convalescência de uma crise nervosa que coloca Vera numa gruta, virada para as profundezas do seu avesso, onde só Albano tem acesso. Ou quase.

“De súbito, Albano achava-se no barco com Vera como dois pássaros trancados numa gaiola” - pode ler-se numa das páginas de “Ferry”, o novo romance da escritora Djaimilia Pereira de Almeida, editado pela Relógio D´Àgua, sete anos depois de “Esse Cabelo”. É o seu nono livro, desta vez a abordar a loucura em ‘flashes’, em capítulos, numa cronologia errante e que aborda as dificuldades da escrita e da linguagem, e de um amor que vem de sempre, entre um casal que envelhece, e faz das falhas possibilidades de salvação ou de perdição, e que não se larga nunca apesar das tormentas e travessias de uma mente perturbada.

Por outras palavras, esta é a história de uma mulher e de um homem, dois amantes que passam a viver no espaço que fica entre a realidade e o sonho, um lugar sobre o qual ninguém fala e ninguém tem real acesso, como chega a ler-se. O que levou Djaimilia a esta travessia? Que inquietação perseguiu até embarcar na escrita deste “Ferry”?

“Quis escrever sobre a relação entre um homem e uma mulher, uma história em que uma relação dessa natureza fosse posta em causa, testada.” Esclarece Djaimilia logo no arranque desta conversa em podcast. Para depois acrescentar:

“Acredito no amor e nas histórias de amor. Isto é capaz de ser a coisa mais fora de moda e, ao mesmo tempo, revolucionária. Aliás, foi uma grande angústia publicar este livro. Tive muitas dúvidas se fazia sentido sequer contar uma história assim. Queria falar de um modo tão profundo quanto fosse capaz sobre o que se perde e ganha na relação entre duas pessoas. O que se diz e o que não se diz, sobre o género de abismo particular que só se conhece numa relação duradoura, mas também o género de redenção que só se encontra numa relação dessa natureza. Há coisas na ligação entre duas pessoas que só se percebem passado muito tempo.”

Recorde-se que Djaimilia Pereira de Almeida estreou-se na escrita em 2015 com “Esse cabelo”, um romance onde conta a autobiografia capilar de Mila, e o seu desafio e desalento de ser dona de uma carapinha, num país de brancos costumes e fraturas coloniais, onde o alisamento capilar surge como a busca de uma aceitação e lugar de pertença.

Autora de outros tantos títulos, Djaimilia foi largamente premiada com o segundo romance “Luanda, Lisboa, Paraíso” que lhe valeu o Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2018, o Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz 2019, e o Prémio Oceanos 2019, que é um dos grandes galardões brasileiros da literatura.

Uma obra que conta a história do pai Cartola, que deixa Luanda, em Angola, para trazer o seu filho “Aquiles” a Lisboa para tratar do seu calcanhar. Mas a cidade mil vezes sonhada pelo velho Cartola, remete pai e filho, cuidador e doente, para o inferno da realidade, da margem, do subúrbio, numa cidade gaiola com prisioneiros à solta.

Destaque também para a sua obra “A Visão das Plantas”, de 2020, com que a escritora foi distinguida com o segundo lugar do Prémio Oceanos, firmando-a como uma das autoras mais interessantes da literatura portuguesa, com uma voz literária sólida e muito própria.

Djaimilia, nome que originalmente quer dizer bonita em árabe, nasceu em Luanda, mas veio logo aos 3 anos para Lisboa, onde cresceu nos subúrbios.

Filha de mãe angolana e pai português, primeiro sonhou ser estilista, desenhar roupa. Mas logo na adolescência decidiu que a escrita seria o seu ofício. E, desde aí, passou a ler muito, sobretudo Fernando Pessoa. É quando decide estudar Literatura Portuguesa. Curiosamente, na universidade, ficou intimidada com o tanto que não sabia e passou por um longo jejum de escrita. E só depois de terminar o doutoramento é que se libertou desses grilhões académicos e começou a desbravar mato até descobrir o caminho da sua escrita, das suas histórias, das suas inquietações.

Os seus livros estão editados em várias línguas e já colaborou com o “New York Times”, “La Repubblica”, “Neue Surcher Zeitung”, “Folha de São Paulo”, “Lit Hub”, “Expresso”, “Serrote”, “Common Knowledge”, “Zum”, entre outras publicações.

Como chega a dar conta nesta conversa, Djaimilia não gosta de ser arrumada em caixinhas, gavetas, rótulos. E considera que o facto de se afirmar escritora e escrever todas as manhãs é já de si um ato de “insolência”. Uma insolência a respeito da tradição literária.

“Há uma pessoa que admiro muito, o fotógrafo suíço Robert Frank, e ele dizia que o nosso modo de viver já é político. Não é preciso grandes gestos. Acordar de manhã e não ter vergonha de passar as manhãs a escrever e de dizer que sou escritora, para mim, já é um ato de coragem. E esta insolência conduz-me também a desejar como mulher nunca mais me envergonhar de nada. Não aceito envergonhar-me de quem sou nunca mais.”

Djaimilia afirma que a sua escrita tem acima de tudo a ver com “liberdade” e “alegria”. Mas não será a criação literária também uma fonte de angústia, de tormenta, dúvida e dor?

“Não. O que acontece é que a escrita trata das minhas dores todas. Quando tenho um problema que me angustia, uma pergunta que me aflige ou uma dor qualquer, o que faço para resolver é escrever. Escrever lava-me”, afirma no podcast.

Nestes dias de temporais, de chuva intensa, de cheias, gripes e outras tormentas, esta conversa foi feita à distância. Mas o clima foi de partilha e proximidade. E houve ainda espaço para surpresas, músicas e leituras.

nuno fox

Como sabem, o genérico é uma criação original da Joana Espadinha, com mistura de João Firmino (vocalista dos Cassete Pirata). Os retratos desta vez são da autoria do Nuno Fox. A sonoplastia deste podcast é do João Martins.

Este podcast entra agora de férias. Regressa em breve. Mas, nas próximas semanas, serão republicados alguns episódios especiais. Boas festas e boas escutas!