Guerra na Ucrânia

Serviços secretos ucranianos denunciam brutalidade na atuação do Grupo Wagner no leste do país

25 janeiro 2023 7:23

oliver bunic / afp / getty images

Um relatório dos serviços secretos destaca a atuação do conjunto envolvido nos fortes combates que decorrem na região de Bakhmut, onde o uso de granadas e drones tem sido fundamental. Elevado número de baixas e a forma como são tratados os feridos são outros pontos destacados

25 janeiro 2023 7:23

Um relatório dos serviços secretos ucranianos demonstra como os combatentes do Grupo Wagner, apesar de encarados como descartáveis, têm sido eficazes nos combates realizados nos arredores de Bakhmut. O grupo de mercenários russo tem estado fortemente envolvido nos intensos combates em Soledar, na região de Donetsk.

Datado de dezembro, o relatório obtido pela CNN conclui que o grupo liderado pelo oligarca russo Yevgeny Prigozhin representa uma forte ameaça, apesar do elevado número de baixas. “A morte de milhares de soldados Wagner não importa à sociedade russa. Os grupos de assalto não se retiram sem um comando. A retirada não autorizada de uma equipa ou sem estarem feridos é punível com execução no local”, lê-se no documento.

Os membros do grupo que ficam feridos são frequentemente deixados no campo de batalha durante horas. “A infantaria de assalto não está autorizada a transportar os feridos para fora do campo de batalha por conta própria, uma vez que a sua tarefa principal é continuar o assalto até que o objetivo seja alcançado. Se o assalto falhar, a retirada é permitida apenas durante a noite”, acrescenta o relatório.

Além da indiferença pelas vítimas, a análise ucraniana salienta que as táticas do Grupo Wagner são “as únicas que se revelam eficazes para as tropas mobilizadas mal treinadas, que constituem a maioria das forças terrestres russas”. Mais: o Exército russo pode até estar a adaptar as táticas, para se tornar mais parecido com o Grupo Wagner. “Em vez dos clássicos grupos táticos de batalhão das Forças Armadas russas, são propostas unidades de assalto”, refere o relatório.

Os combatetes Wagner são organizados em grupos móveis de cerca de uma dúzia, utilizam granadas lançadas por foguetes e exploram o uso de drones em tempo real, o que o documento classifica como “elemento-chave”. Recorrem ainda a equipamentos de comunicação da Motorola, empresa que garantiu à CNN ter suspendido todas as vendas à Rússia e ter encerrado as operações no país.

O elevado número de vítimas está relacionado com o facto de, na maioria das vezes, reclusos formarem a primeira vaga de um ataque. Seguem-se combatentes mais experientes e mais protegidos, por exemplo com equipamento de visão noturna. O major-general Isidro Pereira já tinha explicado anteriormente ao Expresso que os membros do grupo - que tem recrutado dezenas de milhares de prisioneiros - são “lançados em vagas para a frente das posições defensivas da Ucrânia”, funcionando como “carne para canhão”.

Para as forças ucranianas, os drones são determinantes para evitar que sejam “esmagadas” pelos ataques com granadas. O relatório conta um incidente, ocorrido em dezembro, em que um drone avistou o avanço de um conjunto Wagner, o que permitiu que as defesas ucranianas o eliminassem antes de as granadas serem disparadas.

Os serviços secretos indicam também que quando as forças Wagner conseguem assumir uma posição, o apoio da artilharia permite-lhes cavar trincheiras, mas estas são vulneráveis a ataques em terreno aberto e muitas vezes é inexistente a coordenação entre os membros do grupo e os militares russos.

No dia 11 de janeiro, Prigozhin anunciou a captura da cidade de Soledar, algo não reconhecido pela Ucrânia. Dois dias depois, o Ministério da Defesa russo declarou a vitória. “Nenhuma outra unidade além da Wagner esteve envolvida na captura de Soledar”, garantiu Prigozhin. O líder acrescentou que o grupo é, provavelmente, “o exército mais experiente do mundo atual” e “continuará a avançar” com os seus próprios meios.