Economia

Tributar os sobreganhos da distribuição? "O sector tenta que o consumidor sinta o menos possível os aumentos", diz a APED

À hipótese de taxar a distribuição por lucros excessivos, António Costa diz nim. O sector, pela voz da sua associação, mostra confiança em escapar a um novo imposto extraordinário

12 agosto 2022 18:48

“As margens na distribuição alimentar em Portugal não aumentaram. Continuam a estar nos 2% a 3%”, garante Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da APED - Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição, em declarações ao Expresso, numa reação às declarações do primeiro ministro relativamente à possibilidade de lançamento de um imposto extraordinário sobre as empresas que estão a ter ganhos anormais na sequência da guerra.

“A distribuição não está certamente no radar (do governo)”, sustenta o dirigente associativo, certo de que “o sector está a sofrer consequências da inflação galopante, mas Portugal, quando comparado com outros países europeus, até tem conseguido conter mais os aumentos de custos porque não aumenta as margens”.

“O aumento da faturação em Portugal não significa aumento de margens, até porque ninguém quer que os preços subam mais. O consumidor está a sentir dificuldades e o índice de confiança do consumidor já está num nível baixo preocupante”, reitera Lobo Xavier.

Mas então porque é que o primeiro ministro referiu a distribuição esta sexta-feira, durante uma visita à creche Luís Madureira, na Amadora, quando admitiu avançar com um imposto extraordinário - a "windfall tax" - sobre as “empresas cuja atividade têm vindo a beneficiar anormalmente pelo facto do aumento dos preços"?

“Na verdade, se ouvirmos o que diz o primeiro ministro, percebemos que está a meditar no assunto. E ele diz que é preciso perceber se os números refletem o aumento de margem e lucros ou são fruto da inflação”, refere o presidente da APED.

António Costa, nas declarações transmitidas pela RTP3, afirma que "há setores para os quais é preciso olhar e onde é duvidoso saber onde está, ou se há sobreganho", apontando o caso concreto da distribuição.

"Quando nós vamos ao supermercado constatamos que a fatura está efetivamente bastante acima. Agora se está por via das margens da distribuição, por via das margens de quem vende os produtos à distribuição... tem de ser analisado para ver onde estão os sobreganhos e para ver se esses sobreganhos estão, ou não, justificados", acrescenta o chefe de Governo, admitindo que os custos também aumentaram do lado dos produtores.

E nestas frases, Lobo Xavier vê “declarações fáceis de explicar do lado da distribuição alimentar”, até porque as empresas deste sector “estão a tentar que o consumidor sinta o menos possível esse aumento de preços”, afirma.

Aliás, recorda que quando o Presidente da República se referiu a esta questão, falando da responsabilidade das empresas, a reação da APED foi também no sentido de procurar "deixar claro que não estava a falar de nós porque o sector da distribuição tem um currículo suficiente em termos de responsabilidade social e apoio mais de mil IPSS".

Quanto aos resultados que essas empresas reportam no final do primeiro semestre, o presidente da APED diz não comentar casos concreto, mas reitera que as margens nos bens alimentares são baixas e estão a ser seguras para não subirem.

Contactada pelo Expresso, a MC, dona do Continente, líder no retalho alimentar em Portugal, remeteu qualquer comentário sobre o tema para a APED, enquanto a Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, número dois no ranking do sector, disse “não comentar” o assunto.

Nas contas semestrais, os dois grupos apresentaram aumentos nas vendas e nos lucros, com a Sonae a fechar os primeiros seis meses do ano com um resultado líquido de 118 milhões de euros (+89%) e o grupo Jerónimo Martins a somar 262 milhões de euros (+40%).

No entanto, no caso da MC (Continente), o comunicado de apresentação das contas semestrais refere que “em termos de rentabilidade, a evolução positiva do volume de negócios da MC, no primeiro semestre, contribuiu para compensar a pressão na sua base de custos, nomeadamente no que diz respeito ao aumento dos custos da energia e combustíveis, conduzindo a um crescimento do EBITDA subjacente, para 242 milhões de euros, com uma margem de 9%”.

Isto significa uma descida de 0,4 pontos percentuais ou 4,3% face a 2021. A redução da margem foi mais significativa no segundo trimestre do ano (0,5 pontos percentuais ou 5,9%). Os lucros da MC no semestre cresceram 29,3%, para os 63 milhões de euros.

No caso do grupo Jerónimo Martins, a apresentação de contas semestrais refere que face à subida generalizada dos preços, “as vendas da insígnia [Pingo Doce] reagiram crescendo 8,5% (+10,9% no segundo trimestre) para atingir os 2,1 mil milhões de euros” e o EBITDA foi de 120 milhões de euros, 7,8% acima do período homólogo, com a margem a ficar nos 5,8%, em linha com o ano anterior.

Mas o comunicado começa, exatamente, por referir que "num contexto de subida crescente e generalizada dos preços, que se intensificou no segundo trimestre, as insígnias do grupo foram eficazes na implementação de medidas para limitar o impacto adverso da inflação nos seus consumidores".