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Miio já tem 12 mil empresas a pagar para ter a aplicação de carros elétricos

Miio já tem 12 mil empresas a pagar para ter a aplicação de carros elétricos

A empresa já tem 110 mil utilizadores registados e já se expandiu para França e Espanha. Em Portugal, cerca de 70% dos condutores de carros elétricos têm a aplicação da Miio. O Expresso SER foi conversar com Daniela Simões, CEO e cofundadora da empresa, que explicou como é que esta startup da área de mobilidade elétrica quer expandir ainda mais o negócio

A Miio é uma startup lançada por Daniela Simões e Rafael Ferreira em 2019 e que, no ano passado, deu um passo rumo à internacionalização com a entrada nos mercados espanhol e francês. Atualmente, a empresa conta com 110 mil utilizadores registados nos três países – que não são necessariamente clientes porque muitos usam a app de forma gratuita para consulta, – uma comunidade que já representa cerca de 70% do mercado português de utilizadores de veículos elétricos e plug-in.

A ideia de criar a empresa surgiu porque dois estudantes de engenharia informática da Universidade de Aveiro que conduziam carros elétricos chegaram à conclusão que não percebiam nada do assunto: não conseguiam estimar o custo dos carregamentos, não percebiam porque é que havia tantas tomadas, não percebiam se deveriam usar cabos trifásicos ou monofásicos e resolveram, à boa maneira dos engenheiros, criar uma aplicação, “feia e rudimentar”, para sistematizar a informação. Partilharam-na no Facebook e, rapidamente, de uma brincadeira começaram a construir uma pequena empresa que no ano passado faturou 2,3 milhões de euros.

Daniela Simões, em entrevista ao Expresso SER, elogia o mercado português que cedo obrigou os postos de carregamento a ter roaming e explica que, hoje em dia, a empresa que gere já tem três fontes diferentes de receitas: 1) Compram energia verde e vendem-na através da app; 2) Adquiriram a VoltCharge para se lançarem no negócio do eCommerce; 3) E tem ainda um serviço de subscrição para gerir frotas de empresas que já se converteram aos carros elétricos. Metade da faturação da Miio vem de clientes individuais e a outra metade vem de 12 mil clientes empresariais, desde empresas maiores como a Critical Software a empresas unipessoais de TVDE.

Vamos começar do início. Como surgiu a Miio e o que é que fazem?
Vou começar pelo princípio, pelo problema que nós começámos por resolver. Quando a empresa foi fundada, em 2019, eu o Rafael Ferreira éramos colegas de universidade, ambos engenheiros informáticos, e ambos conduzíamos veículos elétricos. Começámos por perceber que não se percebia nada, ou seja, não sabíamos porque é que um carregador é mais rápido do que o outro, porque é que existiam tantos tipos de tomadas, e porque é que os veículos tinham cabos trifásicos e monofásicos. Depois de passarmos a fase piloto, e quando os carregamentos passaram a ser pagos, tudo piorou porque os tarifários não eram lineares, ou seja, nós pagávamos por quilowatt-hora, por minuto, por ativação e mais umas taxas. Então, o que as pessoas começaram a fazer na altura foi um Excel gigantesco, onde se inseriam mais de seis variáveis, para conseguir prever qual é que era o preço ao final do mês. Então, começámos por resolver esse problema, ou seja, prever qual é que é o preço do meu próximo carregamento.

E então surgiu a aplicação da Miio.
Como somos engenheiros informáticos fizemos uma aplicação para telemóvel, muito feia na altura, muito rudimentar. E pensámos: “ok, isto resolve o problema do preço e vamos partilhar isto com a comunidade no Facebook a ver se eles acham útil”. Na altura, a ideia não era fazer negócio. Só que em pouco tempo, juntaram-se mais de 1.000 utilizadores porque toda a gente tinha o mesmo problema.

Agora é mais simples.
Hoje em dia é muito mais simples. Abre-se a aplicação, indica qual é o veículo que conduz e depois só precisa de dizer o que vai carregar. Imagine que a sua bateria está a 30%. Se vai carregar até aos 60% nós dizemos logo o valor final: isto vai custar 8 euros, com tudo incluído. Mas não é uma conta linear, até porque cada veículo e cada bateria tem uma curva de carregamento. Ou seja, carregarmos dos 30% aos 60% é muito diferente de carregar dos 80% aos 100%.

Hoje a Miio é mais do que isso.
A partir do momento em que se entra na Miio tem logo 100% da rede portuguesa, e agora também já tem Espanha e França. Consegue ter a disponibilidade de cada posto, ver se está livre ou não está. E não precisa de compreender os diferentes tipos de tomadas porque nós dizemos qual é que é a melhor tomada em termos de custo/benefício naquele posto de carregamento, e dizemos o preço final.

Depois fomos os primeiros players no mercado a digitalizar o carregamento. Só com a app já se consegue carregar em todos os postos de Portugal: é só clicar em carregar, ligar o cabo, e não é preciso mais nada. E depois o cliente fica com todo o histórico, do controlo de custos.

Desmaterializam os cartões de pagamento.
É uma das inovações que a empresa trouxe ao mercado. Inicialmente, era necessário ter cartões físicos de carregamento. Uma pessoa tinha que ter um contrato como tem como a EDP de eletricidade e também tinha que ter um contrato para fazer o carregamento dos carros. A Miio veio simplificar isso, ao deixar de ser necessário ter um contrato e ter um cartão de carregamento físico de cada vez que se quer carregar o carro.

O pagamento dos carregamentos é feito na vossa empresa?
Sim, exatamente. Na mobilidade elétrica há várias camadas: o CEME (Comercializador de Energia para a Mobilidade Elétrica) tem o contacto que somos nós, nós temos o contacto com o cliente final, depois há os operadores de postos de carregamento (OPC) que são as entidades responsáveis pelo hardware, pelos postos de carregamento. Portanto, o OPC é responsável pela instalação e manutenção do hardware e o CEME é responsável pela ligação e pelo contacto com o cliente e pela qualidade do serviço. Depois, estas entidades ligam-se, através de uma entidade gestora da rede, que no caso chama-se Mobi.E.

Na vossa app, basta carregar com dinheiro e carregar o carro?
Exatamente, pode ser pré ou pós pagamento. O pré-pagamento acaba por ser mais fácil porque toda a gente tem MB WAY e carrega-se uma carteira depois gasta-se o dinheiro em qualquer posto de carregamento. O pós-pagamento, que funciona com débito direto, também é muito simples: é inserir o IBAN e um comprovativo desse IBAN e depois é pago no final do mês.

Daniela Simões, CEO e cofundadora da miio

“Nós adquirimos essa energia num CSE e depois vendemos essa energia ao nosso cliente final”

O que quer dizer Miio?
Apesar de parecer, não é um acrónimo. Nós queríamos que fosse algo que ficasse no ouvido e que fosse curto, para que pudesse ser lembrado.

Quantas pessoas trabalham na vossa empresa?
Neste momento somos 22 pessoas a trabalhar full time. Temos um hub muito importante de desenvolvimento no Brasil e o resto dos colaboradores estão em Portugal, só que espalhados por Portugal inteiro, porque nós somos completamente remote. E estamos presentes em três países: Portugal, Espanha e França.

Qual é a fonte de receitas da empresa?
A nossa primeira fonte de receitas são os carregamentos. Nós adquirimos a energia num CSE (Comercializador do Setor Energético) que primamos por ser energia verde. E depois vendemos essa energia ao nosso cliente final, em que obviamente temos um fee que paga todos os serviços, até porque o cliente final não consegue contratar diretamente ao CSE e precisa do nosso serviço.

Depois, numa segunda fase, inserimos o eCommerce. Adquirimos a VoltCharge que é uma plataforma de eCommerce. Em breve vamos lançar a Miio store. Mais uma vez vamos trazer simplicidade ao mercado porque ainda existe muita confusão sobre que cabo ou que wallbox [carregadores domésticos] é que compro e o que é que se adequa à minha instalação de casa: se sou monofásico, se sou trifásico.

Também trabalham com as empresas.
Sim, por último, temos ainda as frotas, que é um serviço de subscrição, em que nós oferecemos uma plataforma de gestão para as empresas, para elas controlarem o budget e terem também o controlo sobre os carregamentos dos seus colaboradores. Até à data estávamos habituados a ter os cartões de combustível, que tinham até um desconto associado e um plafond muito bem definido. Depois quando chegávamos à mobilidade elétrica não se conseguia. Eu tinha que entregar um cartão físico de energia ao meu colaborador e confiar que o consumo dele ia ser razoável e/ou acertar contas no final do mês. Ora, isso é exequível quando são cinco carros, mas quando são 50 passa a ser um esforço operacional gigantesco.

Portanto, com isso em mente, nós desenvolvemos uma plataforma que faz toda esta operação de forma automática e ajuda também muito na contabilidade e nos acertos de contas. Também dá o controlo à empresa de dizer: “ok, cada colaborador meu tem 100 euros por mês para gastar, isto renova no dia 1 de cada mês, e a partir daqui eles ficam sem acesso”. Eu tenho controlo para interromper sessões, bloquear cartões, fazer o que quiser. Esse é um serviço subscrito, o preço varia mediante o tamanho da frota da empresa.

Em termos de negócio, quanto faturam com esta app?
Nós já publicamos o nosso revenue do ano anterior, que creio que foi de 2,3 milhões de euros, que já inclui Espanha e França.

E a empresa já dá lucros?
Não, ainda não. Estamos ainda muito focados no desenvolvimento, porque como somos uma startup temos que nos diferenciar pelo nosso serviço e isso requer research, desenvolvimento e requer também algum investimento.

“50% da nossa carteira são empresas. Muitas delas são unipessoais, muitas delas são TVDE”

70% das pessoas que têm carros elétricos em Portugal tem a vossa aplicação, é isso?
Exatamente. Já passámos os 110 mil utilizadores, valor que já inclui Espanha e França. Portanto, essa é a nossa base de utilizadores registados que diz respeito a esses 70%. Se calhar hoje em dia já está um bocadinho desatualizado mediante o parque automóvel, mas da última vez creio que andava à volta dos 73%.

Com que empresas é que vocês trabalham?
A Lactalis, a Critical Software e a Vendap são clientes nossos, por exemplo. São as empresas mais conhecidas. Depois posso dizer que 50% da nossa carteira [faturação] são empresas. Muitas delas são unipessoais, muitas delas são TVDE, e depois temos as empresas mais digitais por assim dizer, que começaram a migrar mais cedo para a eletrificação da frota.

E são quantas empresas?
A Miio Empresas tem atualmente cerca de 12 mil empresas/frotas. Cada frota pode ter vários utilizadores. São empresas que efetivamente criaram carteiras para terem o nosso serviço de gestão de frotas, o perfil destas empresas pode ser qualquer um: pode ser desde o unipessoal, até à empresa tecnológica que eletrificou a sua frota.

Querem crescer mais do lado corporativo?
Sim, temos uma plataforma que gere os pagamentos dos colaboradores. Essa plataforma também é extensível ao carregamento doméstico. Estamos também a facilitar a venda e a instalação do wallbox e o nosso software incorpora essa wallbox nas contas mensais da empresa. Se o colaborador da empresa carregar num posto público ou no seu lugar de garagem, o plafond que ele tem da empresa é o mesmo e, portanto, essa energia acaba por ser faturada à empresa da mesma forma.

Legalmente para podermos faturar energia temos de ser um CEME, e para sermos um CEME e faturar essa wallbox tem de estar ligada à Mobi.E. Há muitas pessoas que dizem: “se é para ligar à Mobi.E não quero que tenho de pagar taxas”, o que não é verdade. É um modelo DPC [detentor de posto de carregamento], em que é isento de tarifário de operação, em que o utilizador paga só a energia que consome, que depois será faturada em nome da empresa. O nosso software depois exporta todas essas faturas para a contabilidade da empresa, simplificando o processo.

Para a empresa isso tem um custo?
Sim, a partir dos cinco colaboradores ou de dois centros de custos, começa a ter uma subscrição que começa nos 5 euros/mês e vai aumentando consoante o número de colaboradores e número de centros de custos. Para empresas que têm apenas um centro de custo e um colaborador, o serviço é completamente gratuito e eles conseguem fazer a gestão na mesma.

Horacio Villalobos/Getty Images

“A União Europeia está agora a tentar uniformizar e colocar o roaming como algo obrigatório”

Quantos postos de carregamentos existem em Portugal. Já são suficientes?
Neste momento há quase 3 mil postos de carregamento, o que dá mais ou menos 7 mil tomadas, o que é bastante positivo. Temos de nos lembrar que somos um país pequenino, que é relativamente fácil chegar de um lado ao outro. Em termos de infraestruturas estamos num bom caminho, apenas precisamos de um bocadinho mais de redundância. Por exemplo, na autoestrada A1, Porto Lisboa, no pico do verão e no pico do Natal, há filas de espera, o que é desagradável, porque, além disso, temos também o tempo de carregamento que para alguns veículos pode ser de 20 ou 30 minutos.

A nossa rede de carregamentos é toda publica?
Sim, a Mobi.E é a entidade gestora da mobilidade elétrica na via pública. Depois existem os postos privados, mas que também estão ligados à Mobi.E. Quando digo que são 3 mil postos de carregamentos, estou a falar naqueles que são acessíveis a todos. Depois obviamente posso instalar um carregador no meu lugar de garagem ou de um condomínio e ligá-lo à Mobi.E.

E comparamos bem com os outros países?
Diria que começámos com o pé direito no tema do roaming. Lá fora, nomeadamente em França e Espanha, estamos a sentir todas as dores dos utilizadores, e de nós próprios como players, porque os utilizadores precisam de inúmeros cartões. É como se eu for a um hipermercado: eu não quero ter um cartão de crédito para aquele hipermercado e outro cartão de crédito ou de multibanco para outro hipermercado. Isto é uma experiência que não funciona e que é altamente complexa, morosa e que adiciona muita entropia. E é assim que funciona a rede lá fora. Eu tenho uma rede de carregamento que funciona com um cartão e que tem 50 postos, e uma outra rede com 50 postos vai ter outro cartão. A determinada altura os utilizadores já têm 25 cartões e 15 aplicações instaladas no telemóvel, o que torna a mobilidade elétrica altamente complexa.

Em Portugal, não é assim. Porque sempre implementámos roaming obrigatório. Ou seja, com uma aplicação e um cartão, acedo a 100% da rede. Isto facilita muito não só a experiência do utilizador e depois também uniformiza o pricing, o que é muito importante. Por exemplo, em Portugal, como CEME, não posso dizer que o meu utilizador tem desconto num posto A, mas não tem no posto B. Lá fora o pricing é completamente livre e isso pode levar a situações de monopólio.

Nisso fomos espetaculares, demos o primeiro passos muito antes dos outros, tanto que a União Europeia está agora a tentar uniformizar e colocar o roaming como algo obrigatório precisamente para simplificar a experiência do utilizador, para que a mobilidade elétrica tenha pernas para andar.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: clubeexpresso@expresso.impresa.pt

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