Sociedade

Cancro da mama: apenas 32% das doentes portuguesas fizeram rastreio, mais de 80% não têm apoio da Segurança Social, 91% foram operadas

Dados da Liga Portuguesa Contra o Cancro revelam que há 500 diagnósticos de neoplasia por cada 100 mil mamografias realizadas

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Estudo do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica identifica como vivem e quais são as necessidades das doentes, as preocupações dos profissionais, as boas práticas, as barreiras e as dificuldades. Em 2020, foram diagnosticados 7041 novos tumores da mama, 12% em estádios mais avançados

26 outubro 2022 7:10

As portuguesas com cancro da mama têm um “percurso longo, que começa aquando da confirmação da doença, e compreende várias etapas, muitos tratamentos e culmina, por vezes, com a recidiva e tratamentos paliativos.” O diagnóstico consta na primeira “avaliação 360 graus” à doença em Portugal, a apresentar esta quarta-feira por investigadores do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica.

Com a participação de doentes, associações e de profissionais e administradores de sete hospitais nacionais, incluindo um privado (Hospital da Luz, Lisboa), a avaliação revela um dado alarmante: “Apenas 32% das doentes inquiridas participaram num rastreio ao cancro da mama. A principal forma de deteção foi a autopalpação mamária e a mamografia pedida pelo médico assistente.”

48% com mastectomia total

Fica ainda a saber-se que quase todas as doentes (91%) fizeram cirurgia, 48% mastectomia total. Várias falhas no suporte emocional, desde logo financeiro, foram apontadas. “Menos de 20% tem apoio da Segurança Social” e quase metade (40%) recorre “a ajuda informal junto de familiares próximos, sendo que o apoio formal, “quando existe, é contratado pela própria”.

Dos profissionais e gestores, as queixas são as de sempre: a falta de capacidade de resposta atempada no Serviço Nacional de Saúde (SNS). “O número desproporcionado de doentes face à capacidade de resposta hospitalar, quer em meios técnicos, físicos e de recursos humanos”, “os tempos de espera prolongados para a disponibilidade dos meios complementares de diagnóstico e para a execução dos tratamentos”, “a dificuldade no SNS no acesso às terapêuticas inovadoras” ou o “elevado e excessivo número de consultas médicas que resultam do medo da recidiva por parte das doentes” integram o rol de críticas.>

Sob a responsabilidade de conhecidos médicos nacionais, liderados pelo presidente do Colégio de Oncologia Médica da Ordem dos Médicos, Luís Costa, a avaliação descreve também boas práticas. É disso exemplo “a discussão dos casos em contexto de reunião multidisciplinar é uma realidade em todos os hospitais entrevistados” e “são sempre tidas em consideração as diretrizes nacionais e internacionais, bem como os protocolos internos”.

Mas há barreiras no acesso à melhor forma de tratar, a primeira patente na escassez de profissionais e de recursos técnicos para os exames de diagnóstico. As consequências são óbvias: “Podem comprometer a rapidez do diagnóstico e o estadiamento da doença e consequentemente atrasar o início do tratamento e prejudicar a qualidade dos serviços e cuidados prestados às doentes.” Por isso, os oncologistas sublinham que isto acontece no SNS, “apesar de o diagnóstico precoce ser atualmente considerado o fator mais importante associado ao benefício de sobrevivência nestas doentes”.

Seis medidas prescritas ao Governo

Ao Governo são deixados ‘guias de tratamento’ para melhorar as políticas públicas de Saúde. São seis: educação à população, acesso aos cuidados de saúde pelas doentes, melhoria das equipas multidisciplinares, melhor integração entre cuidados de saúde primários e hospitalares, melhoria do apoio à doente oncológica e à sua integração na sociedade e promoção da investigação.

1864 mortes

Dados da consultora Iqvia revelam que em 2020, ano mais recente com dados disponíveis, foram diagnosticados 7041 novos cancros da mama, o segundo cancro mais detetado em Portugal e representando 28% do total de novos carcinomas na mulher. Um total de 12% das doentes encontram-se em estádios mais avançados da doença.

O cancro da mama matou 1864 mulheres, traduzindo a maior mortalidade por cancro entre a população feminina portuguesa. Ainda assim, há boas notícias: 70% a 80% dos tumores da mama em fases iniciais são curáveis.