Política

"Se esta degradação continua, vai ser difícil o Governo chegar a 2026", avisa Marques Mendes

8 janeiro 2023 22:18

Eunice Lourenço

Eunice Lourenço

Editora de Política

Conselheiro de Estado considera que primeiro-ministro perdeu autoridade e credibilidade nas duas últimas semanas e que o Governo se tornou uma “anedota”

8 janeiro 2023 22:18

Eunice Lourenço

Eunice Lourenço

Editora de Política

“Se esta degradação continua, vai ser difícil o Governo chegar a 2026. Na política não há milagres” — o aviso foi deixado este domingo à noite por Luís Marques Mendes, comentador da SIC, mas também conselheiro de Estado, ou seja membro do órgão de aconselhamento do Presidente da República que tem de ser ouvido em caso de dissolução do Parlamento.

Esta legislatura tem duas fases: uma fase até meio 2024 e outra depois de 2024. Se as coisas correm mal ao PS e ao Governo nas eleições europeias, corre-se o risco de haver uma dissolução e eleições antecipadas e já não haverá segunda fase da legislatura”, prosseguiu o conselheiro, que criticou duramente António Costa no seu comentário dominical. Afirmando que é a favor do “cumprimento dos mandatos” e lembrando que o Presidente afastou por agora a dissolução do Parlamento, Mendes atira, assim, para o pós-europeias o momento de decisão sobre a chamada “bomba atómica constitucional”, como aliás já tinha começado a ser admitido em Belém, mesmo antes da recente crise.

O “Governo parece que está em decomposição” e o “primeiro-ministro em perda de autoridade”, disse Mendes, colocando a responsabilidade sobretudo em cima de António Costa. “Não há maior desautorização de um primeiro-ministro do que aconteceu naquela tarde”, continuo o comentado, lembrando a tarde de quinta-feira, quando a secretária de Estado da Agricultura apresentou a demissão uma hora depois de uma intervenção do Presidente da República, que se tinha seguido a uma defesa da governante por parte do primeiro-ministro no Parlamento.

“Isto é ridículo e o ridículo mata, neste caso mata a credibilidade do Governo”, criticou o conselheiro de Estado, para quem António Costa “não teve o mínimo de cuidado” na escolha dos nomes para o Executivo, fazendo com que o Governo seja “motivo de anedota”. Ora, alerta ainda Mendes, estas situações “matam também os políticos em geral”, pelo que “esta situação não é boa para ninguém”, a não ser para “os populistas, os radicais e os extremistas”. Por isso, “o Chega deve estar a esfregar as mãos de contente”.

A situação, contudo, também não é boa para os portugueses porque “um Governo que tem de tratar destes casos e casinhos não tem cabeça, nem credibilidade para tratar dos casos sérios que, depois, se agravam”, como a inflação ou o custo de vida.

Para Mendes, o ministro das Finanças foi “negligente” na escolha de Alexandra Reis para o Governo e a ministro da Agricultura foi “displicente” na nomeação de Carla Alves, mas o mais grave é que estas situações mostram “insensibilidade do Governo em relação às questões da ética e da transparência”.

Quanto à criação de um mecanismo formal de avaliação prévia de governantes, Mendes acha que Costa não fez a proposta da melhor forma, ao querer envolver o Presidente da República na solução. “Qualquer solução tem de envolver a Assembleia da República e não o Presidente da República”, disse, lembrando que há muito tempo defende uma “audição parlamentar para ver se no seu passado ou seu curriculo há conflitos de interesse ou questões éticas”. Só haver essa audição teria logo “um efeito dissuasor” para os escolhidos caso tivessem alguma dúvida, defendeu o comentador, que aconselha um acordo entre PS e PSD sobre este assunto.

Mendes foi ainda crítico de António Costa na substituição de Pedro Nuno Santos por João Galamba e Marina Gonçalves. “António Costa revelou que tem medo de Pedro Nuno Santos. Tem medo da sua força política dentro do PS”, afirmou o comentador, para quem “Pedro Nuno Santos vê reconhecido o seu peso político” e, ao sair também do secretariado do PS, deu “um sinal de que fez uma rutura com António Costa” e que “está de mãos livres para fazer oposição”.

No entanto, alerta Mendes, este vai ser outro “calcanhar de Aquiles” para o Governo porque “enquanto nos gabinetes se está a falar de sucessão, não está a tratar-se de governação”.

No seu comentário, Marques Mendes também considerou 2023 “muito decisivo para o PSD”, que “ainda não é visto como alternativa pelo país”. “É bom que acelere a construção de uma alternativa”, recomendou.