Guerra na Ucrânia

"Em caso de batalha, não use o telemóvel. É como ter um farol no bolso”: assim é a guerra na era da espionagem de smartphone e redes sociais

"Os militares modernos terão de decidir se devem permitir que as tropas tenham esse farol nos seus bolsos"

anadolu agency

Usar telemóveis na frente de batalha coloca um alvo nas costas dos militares de ambos os lados. Ucranianos e russos exploram técnicas que existem há anos, mas que se têm tornado cada vez mais frequentes na guerra moderna. Ninguém está seguro com um telemóvel no bolso, garantem os analistas ouvidos pelo Expresso

13 janeiro 2023 22:04

Um telemóvel pode ser uma arma poderosa (e perigosa) durante uma guerra, e é isso que o conflito na Ucrânia tem vindo a provar. A interceção de sinais já existe enquanto disciplina há mais de um século, tal como a ideia de explorar as comunicações adversárias já existe há muito tempo. Raphael S. Cohen, investigador de Ciência Política do 'think-tank' RAND, que fornece análises e informação às Forças Armadas dos Estados Unidos, garante, por isso, que as táticas usadas por russos e ucranianos não são novas, e que já foram levadas a cabo, por exemplo, pelos israelitas em Gaza, entre 2014 e 2015.

Sendo detetada uma elevada concentração de utilizadores de telemóveis, está estabelecido um “alvo altamente desejável”, diz Walter Dorn, professor de Estudos de Defesa na Canadian Forces College, em Toronto. O perigo da utilização daqueles dispositivos tornou-se notório quando Moscovo culpou os seus soldados por usarem telemóveis, para telefonarem para casa no dia de ano novo, permitindo que os ucranianos identificassem uma alta concentração de soldados russos em Makiivka. A situação foi agravada devido ao “mau hábito” dos militares russos de colocarem grandes depósitos de munição perto dos alojamentos dos soldados. Em Makiivka, as explosões levaram a “uma grande perda de vidas para a Rússia, possivelmente na casa das centenas, já que o depósito de munições também explodiu”, explica ao Expresso o investigador.

Emily Harding, perita de cibersegurança e tecnologia do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, não tem dúvidas de que “rastrear o uso de telemóveis será uma prática constante da guerra moderna”. Todos os soldados têm um dispositivo desses no bolso, o que pode servir como recurso para documentação, comunicação e recolha de informações de terceiros. “Mas também é um grande risco. Encontrar um telemóvel é relativamente fácil, através de algumas tecnologias relativamente acessíveis. Os militares modernos terão de decidir se devem permitir que as tropas tenham esse farol nos seus bolsos.”

Como localizar o telemóvel do inimigo?

O método de triangulação está na base de muitas das operações. Dispositivos designados como simuladores de localização de telemóvel, com funcionamento similar ao de uma antena telefónica, são colocados dentro de drones e camiões e depois enviados para o campo de batalha, de forma a captar os sinais dos telefones próximos. Os simuladores “enganam” os telemóveis e conseguem medir a força e a direção do sinal de várias torres de rede existentes na zona. Segundo Walter Dorn, o lado ucraniano tem uma vantagem competitiva na utilização das principais redes de comunicações móveis na Ucrânia. Mas a localização também pode ser descoberta através dos metadados do telefone, através de dados da torre ou através da triangulação da radiação eletromagnética emitida. Os telefones podem ser fisicamente pirateados, sendo assim identificado o sinal de GPS que o telefone emite.

As redes sociais são também fulcrais. Quando uma fotografia é publicada nas redes sociais, pode ser transferida e depois cruzada com várias outras imagens, de forma a apurar a localização exata do utilizador.

O rastreamento de telemóveis tem sido prática comum durante a guerra, o que leva Harry Halem, analista militar de Londres, a dizer: “Em caso de combate, ninguém quer usar o telemóvel. As comunicações por telemóvel são geralmente mais fáceis de ‘hackear’ do que as criptografias de padrão militar, o que cria um grave problema aos serviços secretos. O uso do telemóvel revela a localização do utilizador.”

Ambos os lados fazem uso desse método quando possível, mas a Ucrânia tem sido muito mais disciplinada com o uso do telemóvel do que Moscovo. “A situação era extremamente má durante as primeiras semanas da guerra, quando a disciplina russa na frente de batalha era muito pouca, e os russos forneceram à Ucrânia uma grande quantidade de informações”, sistematiza Harry Halem. Na Ucrânia, os russos têm usado o sistema de guerra eletrónica Leer-3 - composto por dois drones e um camião de comando - para localizar as forças ucranianas. Trata-se de um sistema que pode captar mais de dois mil telemóveis num alcance de cerca de seis quilómetros.

De que forma podem os militares proteger-se?

Tanto as secretas russas como as ucranianas podem recorrer aos métodos de localização de telemóveis e os russos têm mesmo sistemas móveis de Guerra Eletrónica (EW) que usam camiões e drones para recolher sinais de rádio e até enviar mensagens para dispositivos de adversários, criando novas possibilidades de ataque.

Harry Halem refere que ambos os lados estão a aprimorar a sua disciplina de comunicação, tornando a tática menos comum. “No entanto, os EUA ainda fornecem à Ucrânia amplo suporte operacional e auxílio das secretas, o que significa que Kiev poderá explorar estas técnicas ao longo de mais tempo.” É um padrão seguido há anos e desligar o telemóvel não ajuda, afirma James A. Lewis, vice-presidente do Programa de Tecnologia e Políticas Públicas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington. “O soldado tem de remover a bateria ou colocá-lo numa ‘gaiola de Faraday’, um recipiente de metal que bloqueia o sinal de rádio", afirma o analista.

Mas, se localizar a origem de um telefonema inimigo também significa localizar um soldado inimigo, essa prática também pode ser explorada de forma inversa, nota Walter Dorn. “Os dois lados podem tentar usar o telemóvel para fornecer localizações falsas, colocando espião contra espião.”