Internacional

Conheça Chris Pincher, o “Harvey Weinstein da loja dos 300” no centro do escândalo que pode derrubar Boris Johnson

6 julho 2022 12:08

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Christopher Pincher em Downing Street no dia em que Boris Johnson o nomeou para a direção da bancada parlamentar conservadora

aaron chown/pa images/getty images

Deputado desde 2010, acusado de numerosos episódios de comportamento sexual indevido, Chris Pincher demitiu-se da direção da bancada parlamentar conservadora e foi suspenso pelo partido. Defensor do Estado mínimo, gosta de desporto e entrou para a política em reação às greves de mineiros contra a primeira-ministra Margaret Thatcher

6 julho 2022 12:08

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

É quase decerto um exagero considerar Chris Pincher responsável pela possível queda do Governo do Reino Unido. O deputado envolvido em escândalos sexuais funciona mais como gota de água entre muitos episódios que minaram a confiança do país e do Partido Conservador no primeiro-ministro Boris Johnson. Quem é o homem que representa o círculo de Tamworth na Câmara dos Comuns?

Desconhecido do público geral, o até há pouco vice-presidente do grupo parlamentar aparecera nas notícias por motivos pouco edificantes e associados aos que o fizeram perder o cargo. Em 2001, convidou um companheiro tory — o remador olímpico Alex Story — para sua casa. Ali, desabotoou-lhe a camisa e, massageando-lhe o pescoço, previu que chegaria longe no partido.

A vítima do avanço indesejado escreveu que Pincher saiu em seguida da sala, para regressar “de roupão de banho, qual Harvey Weinstein da loja dos 300, com o peito e a barriga à mostra”. A referência é ao produtor de cinema americano que cumpre pena de cadeia por uma série de crimes sexuais.

Quando muitos episódios destes com políticos britânicos vieram a lume em 2017, pediu desculpa por qualquer ofensa que pudesse ter causado, mas negou intenções abusivas. Na mesma altura o deputado trabalhista Tom Blekinsop queixou-se de apalpões.

Da negação ao esquecimento

Passados 21 anos sobre o episódio com o remador Alex Story, foi uma noite de bebedeira em que apalpou dois homens que o fez cair em desgraça. “Envergonhei-me e a outros”, escreveu ao primeiro-ministro, renunciando ao cargo na direção da bancada. O Carlton Club, onde tudo se passou, convidou-o a sair. Pincher anunciou que recorrerá a ajuda profissional.

Johnson começou por não querer tomar qualquer ação contra o abusador confesso, mas isso depressa mudou: sob pressão mediática, da opinião pública e dos seus pares — o partido recebeu várias queixas —, o deputado foi suspenso. Três dias depois da noite em questão, surgiram seis novas acusações de deputados, respeitantes a avanços no bar da Câmara dos Comuns e no gabinete do próprio Pincher.

A lista de alegações foi crescendo e o deputado está sob investigação: em 2012, avanços indevidos dirigidos a um jovem em Londres; em 2013, ameaça a uma funcionária que aconselhou Pincher a deixar em paz um jovem na conferência do Partido Conservador e apalpões a outro rapaz; em 2017 e 2018, avanços a deputados do partido e a um trabalhador de uma organização humanitária; em 2019, tentativa de despir um ativista conservador e promessa a um militante que ajudaria a promovê-lo se o visitasse no seu quarto de hotel; em 2021, apalpões a outro voluntário do partido e a um deputado.

Vencedor num círculo trabalhista

Christopher John Pincher nasceu em Walsall há 52 anos e foi criado em Wombourne, no condado de Staffordshire, perto de Birmingham (Inglaterra). Estudou História na London School of Economics, trabalhou na consultora Andersen (hoje Accenture)

A entrada para a política deu-se em plena guerra dos mineiros contra a primeira-ministra Margaret Thatcher. Pincher estava contra a ação sindical, inscreveu-se no partido governante em 1987 e mais tarde, nos anos dos governos trabalhistas de Tony Blair, colaborou com o líder conservador Iain Duncan Smith.

Quando os tories voltaram ao poder com David Cameron, Pincher foi eleito deputado. Venceu à terceira tentativa, a segunda por Tamworth, círculo que os trabalhistas tinham dominado durante 14 anos. Defensor, como Cameron, de um Estado reduzido, afirmou que o Governo devia “ficar o mais possível fora da vida das pessoas.

Honorável e para sempre

Foi em 2016, no segundo Executivo de Cameron, que o deputado passou a dar assistência ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Philip Hammond, nas relações com o Parlamento. No ano seguinte integrou pela primeira vez a direção da bancada, mas só lá ficou seis meses, por terem surgido as primeiras alegações de cariz sexual, nomeadamente o caso de Story.

Theresa May reconduziu-o após uma investigação sem seguimento e fê-lo tesoureiro real e membro do conselho consultivo da rainha, o que lhe confere o título vitalício “Right Honourable”, no mínimo questionável à luz das últimas informações. Ao suceder a May na chefia do Executivo, Boris Johnson nomeou Pincher secretário de Estado para a Europa e as Américas. Passou ainda pela pasta da Habitação, tendo regressado à direção do grupo parlamentar em fevereiro deste ano.

Na altura houve quem alertasse o primeiro-ministro para o risco daquela escolha: afinal, o cargo que Pincher ia ocupar implicava gerir pessoas. A imprensa britânica escreve que Johnson chegou a mencionar a tendência de Pincher para “manusear” e, esta terça-feira, não quis desmentir ter feito um trocadilho com o apelido do deputado, que pode ser traduzido à letra por “beliscador”. “É Pincher de nome e de natureza”, afirmou o chefe do Executivo, segundo o seu ex-chefe de gabinete Dominic Cummings, que atualmente o detesta.

Demissões em catadupa

É o grau de conhecimento de Johnson sobre as atitudes de Pincher que motiva o descontentamento. Terça-feira saíram do Governo dois ministros, quatro assistentes parlamentares, dois enviados comerciais e um solicitador-geral. Esta quarta-feira vários secretários de Estado demitiram-se e numerosos deputados exigiram a demissão do primeiro-ministro. Um deles, Chris Skidmore, acusou-o de “encobrimento de abuso sexual, que nunca seria tolerado num local de trabalho normal e funcional”.

Downing Street começou por assegurar que Johnson nunca recebera queixas específicas sobre Pincher. Depois, passou a afirmar que estas estavam “resolvidas ou não tinham tido seguimento formal”. Só que a BBC noticiou que uma das queixas fora oficialmente confirmada como verídica e o diplomata Simon McDonald, que esteve no Ministério dos Negócios Estrangeiros à data dos factos, garantiu que o primeiro-ministro estava a par de tudo.

Terça-feira, Johnson reconheceu o “erro” de ter nomeado Pincher, não sem antes o seu gabinete ter ensaiado a desculpa de que se “esquecera” das queixas feitas. Pincher ainda é deputado e não tenciona renunciar.

O homem de quem se fala escreve sobre vinhos para uma revista e é fã do romance clássico infantil “Vento nos salgueiros”, por sinal, protagonizado por um sapo que não mede as consequências das suas ações e é frequentemente salvo por amigos. Também aprecia golfe, corridas de cavalos e provas automobilísticas.