Internacional

Mais um dia mau para Boris Johnson: governante ludibriado pelo primeiro-ministro demite-se por tê-lo defendido (e não vai só)

6 julho 2022 10:08

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Azáfama jornalística à porta da residência oficial do primeiro-ministro britânico, em Downing Street, Londres

dan kitwood/getty images

Dois secretários de Estado abandonam Executivo por causa do escândalo sexual que envolve o deputado Chris Pincher. Saídas acontecem um dia depois da demissão dos ministros das Finanças e da Saúde, pelo mesmo motivo

6 julho 2022 10:08

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Depois de uma tarde para esquecer, esta quarta-feira amanhece aziaga para Boris Johnson. Se ao meio-dia o primeiro-ministro do Reino Unido vai enfrentar os deputados no debate semanal na Câmara dos Comuns, ainda não eram 8h30 quando mais um membro do Executivo se demitia: Will Quince, secretário de Estado da Família e da Criança.

A meio da manhã, saía do Executivo o secretário de Estado das Escolas, Robin Walker. Afirma ter perdido a fé na liderança de Johnson, por problemas de “integridade”.

Na véspera foram dois ministros, quatro subsecretários de Estado e outros três titulares de cargos de nomeação governamental a bater com a porta. Um vice-presidente do Partido Conservador também renunciou.

Em causa está o escândalo sexual que envolve o deputado Chris Pincher, suspenso do partido por ter apalpado homens numa noite de embriaguez no fim de junho, atos reconhecidos pelo próprio e que não aconteceram pela primeira vez. O problema é que era número dois da direção da bancada parlamentar, posição para a qua Johnson o nomeou apesar de saber de repetidos casos de comportamento sexual indevido.

Versões contraditórias

O primeiro-ministro começou por negar que soubesse dos atos de Pincher, mas depressa veio a lume que fora informado de tudo (incluindo episódios passados no próprio Parlamento) antes de o designar para a direção do grupo parlamentar. Johnson mudou de ,versão para dizer que se esquecera das acusações e, na tarde de terça-feira e face às demissões dos ministros das Finanças e da Saúde, acabou a pedir desculpa e a assegurar que apenas quisera dar a Pincher hipótese de se melhorar.

Quince garante “não ter opção” senão abandonar o Executivo. É que foi atirado para frente das câmaras para defender o primeiro-ministro com base em informação falsa.

Segunda-feira o agora demissionário foi mandado a vários programas de televisão, onde afirmou ter “garantias categóricas” de Downing Street de que Johnson “desconhecia qualquer alegação ou queixa específica” contra Pincher no momento em que o designou para o cargo que ocupava. Agora demite-se porque isto era “inexato”.

Outros membros do Executivo foram criticados pelas figuras que fizeram na televisão a tentar defender Johnson, nomeadamente os titulares das pastas da Justiça (Dominic Raab, também vice-primeiro-ministro) e do Trabalho (Thérèse Coffey). Estes mantêm-se no Governo.

Esta quarta-feira a deputada conservadora Laura Trott renunciou às funções de apoio parlamentar ao ministro dos Transportes, Grant Shapps, um dos que se mantêm fiéis a Johnson. É a quinta pessoa com tarefas deste tipo a renunciar às mesmas desde ontem. “Em política a confiança é e deve ser sempre da maior importância, mas tristemente, nos últimos meses, perdeu-se”, escreveu nas redes sociais.

Defenestração para breve?

Dezenas de deputados conservadores viram no último escândalo a gota de água que os faz, agora, retirar confiança ao primeiro-ministro em público. No passado dia 5 de junho, Johnson sobreviveu a uma moção de censura interna. Dos 359 deputados conservadores, 211 votaram a favor da sua permanência, 148 contra.

Agora os números não seriam os mesmos. O caso Pincher e a derrota estrondosa em duas eleições intercalares (por sinal, para substituir deputados que se demitiram por causa de escândalos sexuais) iraram as bases e estruturas do partido.

Para já o chefe dos tories está teoricamente a salvo. As regras ditam que só passado um ano sobre uma moção de censura interna falhada se possa realizar nova votação do mesmo tipo. No entanto, diz a história política do Reino Unido que quando um partido que expulsar o líder, acaba por consegui-lo.

Se a pressão das demissões não vergar Johnson, que parece apegado ao poder, há deputados dispostos a alterar as regras internas para encurtar prazos e proceder já a nova votação de censura.

Nas respostas a Javid e Sunak o chefe do Executivo foi lacónico e não abordou as graves questões que as suas demissões suscitam. Apressou-se a substituí-los, respetivamente, pelo ex-ministro do Brexit Steve Barclay e pelo até agora titular da Educação, Nadhim Zahawi (para cujo lugar nomeou a secretária de Estado do Ensino Superior, Michelle Donelan.

Esta quarta à tarde Johnson enfrentará um comité parlamentar onde podem surgir indícios do que tencionam fazer os deputados tories. As sondagens impelem muitos a avançar contra Johnson.

Já há algumas semanas que o Partido Trabalhista (o maior da oposição) encabeça as intenções de voto para as legislativas (que, segundo um calendário normal cada vez mais improvável, podem esperar até janeiro de 2025). Mas os mais recentes estudos indicam que 69% dos britânicos querem que Johnson se demita e só 18% preferem que permaneça no poder.

Entre os que votaram no Partido Conservador nas eleições de 2019, pela primeira vez são mais (54%) os que defendem exatamente isso do que os que seguram Johnson (33%), segundo o instituto YouGov.