Internacional

Governo britânico em crise, ministros das Finanças e da Saúde demitem-se por falta de confiança em Boris Johnson

5 julho 2022 18:15

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

O primeiro-ministro Boris Johnson, ao centro, entre os agora ex-ministros da Saúde, Sajid Javid, e das Finanças, Rishi Sunak

frank augstein/getty images

Sajid Javid abandona pela segunda vez um Executivo de Boris Johnson. Rishi Sunak, que o substituiu da primeira vez, também está de saída. Em causa está o escândalo sexual que levou à suspensão de um deputado. Alertado para comportamentos impróprios anteriores, o primeiro-ministro do Reino Unido não agiu e agora alega que se esqueceu da informação que repetidas vezes lhe foi transmitida

5 julho 2022 18:15

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Os ministros da Saúde e das Finanças do Reino Unido demitiram-se esta terça-feira por causa do escândalo que envolve o deputado Chris Pincher, tal como eles do Partido Conservador.

Sajid Javid e Rishi Sunak, considerados dos mais próximos colaboradores do primeiro-ministro, condenam a forma como Boris Johnson reagiu ao caso. Tendo sido avisado várias vezes para condutas impróprias passadas de Pincher, decidiu ainda assim nomeá-lo para vice-presidente da bancada parlamentar do partido.

Pincher demitiu-se desse cargo no passado dia 30, depois de uma noite em que, alcoolizado (nas suas palavras), apalpou vários homens e foi convidado a sair de uma festa. Foi suspenso do partido mas continua deputado. O gabinete de Johnson começou por negar que este tivesse conhecimento das impropriedades do demissionário, para depois alegar que o primeiro-ministro se esquecera da informação.

“Para mim, demitir-me de ministro das Finanças enquanto o mundo sofre as consequências económicas da pandemia, da guerra na Ucrânia e outros problemas sérios não foi decisão que tomasse de ânimo leve”, assegura Sunak na carta de demissão, que tornou pública. “Contudo, o público espera, com razão, que o Governo seja liderado de forma adequada, competente e séria.”

“Não podemos continuar assim”

O agora ex-ministro admite que as Finanças tenham sido “o último cargo ministerial” da sua vida, mas defende a necessidade de renunciar em nome de valores e recorda que sempre foi leal a Johnson. “Tenho pena de deixar o Governo, mas concluí, com relutância, que não podemos continuar assim.”

Javid foi mais duro. “O tom que estabelece enquanto líder e os valores que representa refletem-se nos seus colegas, no seu partido e, em última análise, no país, escreve na sua carta ao primeiro-ministro.

Evocando a recente votação no grupo parlamentar em que Johnson escapou à exoneração (com 211 votos a favor da sua permanência e 148 contra), o ex-ministro da Saúde frisa que esse foi “um momento para mostrar humildade” e lamenta ter percebido que nada vai mudar enquanto Johnson encabeçar o partido. “Por isso, também perdeu a minha confiança.”

A votação aconteceu porque mais de 54 deputados (15% do grupo parlamentar) do Partido Conservador exigiram a demissão de Johnson, no rescaldo do Partygate, escândalo causado por festas na residência do primeiro-ministro e em dependências do Governo durante a pandemia, em violação das regras sanitárias.

Esta terça-feira houve mais demissões em cargos hierarquicamente inferiores, mas ainda assim relevantes. O deputado Andrew Murrison, seu correligionário, renunciou ao cargo de enviado comercial do Governo. Um vice-presidente da força política do primeiro-ministro, Bim Afolami, renunciou em direto na TV, por crer que Johnson “já não tem o apoio do partido nem do país”. Há dias demitira-se o presidente do partido, Oliver Dowden, claro sinal de sarilhos para os tories.

Quatro deputados com funções de apoio a departamentos do Governo também estão de saída. Saqib Bhatti, que estava no Ministério da Saúde com Javid, escreveu: “O Partido Conservador sempre foi o partido da integridade e da honra, mas acontecimentos recentes minaram a confiança e os padrões da vida pública”.

Jonathan Gullis, dependente do ministro para a Irlanda do Norte, Brandon Lewis (que até ver fica no Executivo), sente que o partido está “há demasiado tempo mais concentrado em lidar com danos à reputação do que em cumprir para o povo”.

Nicola Richards, que exercia o mesmo cargo no Ministério dos Transportes (cujo titular, Grant Shapps, não se demitiu), sai por não querer estar associada a “fraco juízo” e porque o Partido Conservador lhe parece “irreconhecível”.

Virgina Crosbie, que assessora o ministro para o País de Gales, Simon Hart, foi clara: “O partido que amo e este Governo estão perante distração, escândalo e alegações de encobrimento”. Não é no cerne, mas no “topo” que vê problemas. Boris, afirma, só é capaz de “levar o partido para a oposição e desgraçar ainda mais o cargo que tem a honra de ocupar”.

Tendo vencido a votação, Johnson teoricamente ficaria a salvo de nova censura interna por um ano. No entanto, nos últimos dias houve notícias de que vários deputados queriam encurtar esse prazo. Pelo meio, os conservadores perderam duas eleições intercalares a 23 de junho, uma delas num círculo que dominavam há um século.

É a segunda vez que Javid abandona um Executivo de Johnson. Foi o seu ministro das Finanças logo de início, em 2019, mas renunciou quando Downing Street quis impor-lhe assessores escolhidos pelo chefe do Governo e sob tutela do seu gabinete.

O próprio regresso de Javid ao Executivo não aconteceu pelos melhores motivos. O seu antecessor na pasta da Saúde, Matt Hancock, demitiu-se depois de ter sido apanhado a violar as regras sanitárias da covid-19 no quadro de um caso extraconjugal.

“Pincher de nome e pincher de natureza”

Johnson pediu desculpa em público, esta terça-feira, por ter designado Pincher para um cargo na chefia da bancada parlamentar. Assegurando que não mentiu sobre o que sabia acerca do deputado, considerou o comportamento deste “muito mau” e reconheceu que não deveria tê-lo nomeado.

“O que quis foi dar a Chris Pincher não o benefício da dúvida, mas a capacidade de provar que era capaz de melhor”, justificou o primeiro-ministro. Declarou-se “desapontado” com o deputado.

Os ministros da Economia (Kwasi Kwarteng), Interior (Priti Patel), Desenvolvimento Internacional (Anne-Marie Trevelyan), Cultura (Nadine Dorries), Defesa (Ben Wallace), Trabalho (Thérèse Coffey) e Assuntos Escoceses (Alister Jack) não tencionam demitir-se, avança o canal televisivo Sky News. A agência PA cita um aliado da titular dos Negócios Estrangeiros, Liz Truss, que a declara “100% com o primeiro-ministro”.

O vice-primeiro-ministro e titular da Justiça, Dominic Raab, também se mantém no posto. Outro peso pesado a apoiar Johnson é Jacob Rees-Mogg, ministro do Brexit, que afirma que o “vasto mandato” obtido nas legislativas de 2019 é suficiente para o primeiro-ministro não se afastar.

Os jornais britânicos consideram de especial importância para a sobrevivência política ou não de Johnson as posições dos ministros Michael Gove (Nível de Vida, Habitação e Comunidades), Nadhim Zahawi (Educação) e Penny Mordaunt (Comércio).

Dias depois de Pincher ter renunciado ao cargo, admitindo ter-se envergonhado e ao partido, surgiram seis novas acusações de comportamentos sexuais impróprios. Dizem respeito a alegados avanços dirigidos a deputados do sexo masculino, no bar da Câmara dos Comuns e no gabinete do próprio Pincher.

Em fevereiro último, um dos abordados queixou-se, com pormenores, ao gabinete de Johnson e criticou a escolha de Pincher para vice-líder da bancada. Dominic Cummings, ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro e hoje um dos seus maiores críticos, afirma que Johnson troçou um dia, em 2020, a respeito do deputado acusado: “Pincher de nome e pincher de natureza”. Pincher significa beliscador em inglês.

Chris Pincher, à direita na imagem

Chris Pincher, à direita na imagem

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Oposição exige demissão

Face a novo escândalo, os partidos da oposição exigem a saída imediata de Johnson da chefia do Governo. Já o tinham reclamado a respeito do Partygate e reiteraram-no esta terça-feira.

O chefe do Partido Trabalhista considera que “depois de toda a aldrabice, dos escândalos e do fracasso, é claro que este Governo está a desmoronar-se”. Acusando os ministros demissionários de terem sido “cúmplices” de Johnson na “vergonha” que trouxe ao cargo que ocupa, assegura que “sempre souberam quem este primeiro-ministro é”.

Keir Starmer recorda que os conservadores seguraram o chefe do Executivo depois de este ter violado a lei (foi multado pela polícia devido às festas ilegais), mentido repetidas vezes e feito pouco dos sacrifícios do povo britânico. “Se tivessem pinga de integridade, teriam saído há meses.”

O líder da oposição avisa que não vale a pena enganar o país. “O Partido Conservador está corrompido e isso não se resolve trocando um homem”, defende Starmer. Logo, conclui, é preciso mudar de Governo. Por isso, pede eleições antecipadas.

Para os Liberais Democratas, o “Governo caótico” de Johnson tem de cair. “Famílias e pensionistas enfrentam uma crise do custo de vida sem ministro das Finanças, e uma crise dos cuidados de saúde sem ministro da Saúde”, criticou Ed Davey, líder do partido. “Enquanto estas crises assolam o nosso país, o Governo passou meses a tentar salvar a pele de Boris Johnson.”

A primeira-ministra da Escócia defende que a queda de Johnson, a acontecer, “não vem cedo”. Estranhando que os demissionários só o sejam porque o primeiro-ministro lhes mentiu, porque “defenderam que ele mentisse ao público”, Nicola Sturgeon, do Partido Nacional Escocês (independentista), deseja ver pelas costas “todo esse grupo imprestável”.

Após a demissão de Pincher o primeiro-ministro não deu explicações claras sobre quão a par estava das acusações contra este. Downing Street demorou uma semana a reconhecer que Johnson fora informado, em 2019, de que o deputado estava sob investigação. O cargo que ocupava por escolha de Johnson inclui garantir a disciplina entre os colegas.

Pincher já fizera parte da direção da bancada em 2016, no tempo da primeira-ministra Theresa May. Demitiu-se passado um ano, depois de o militante conservador Alex Story, um remador profissional, o ter acusado de avanços indesejados. Pincher negou tudo e a investigação do caso foi arquivada.

Deputado pede ajuda profissional

May reconduziu o deputado e o sucessor Johnson promoveu-o em 2019. No verão desse ano, vários funcionários queixaram-se de Pincher a Simon McDonald, então membro da administração pública e agora na Câmara dos Lordes. Esta semana McDonald desmentiu formalmente a versão de Downing Street de que Johnson não conhecia as atitudes de Pincher. Exigiu que o gabinete do primeiro-ministro repusesse a verdade.

O que Johnson não referiu esta terça-feira foi que Pincher, que fora destacado para a secretaria de Estado das Comunidades, voltou à direção da bancada parlamentar depois de ter ajudado o primeiro-ministro em disputas internas, em fevereiro deste ano. Horas depois, o gabinete de ética do Governo recebia novas queixas. Pincher anunciou há dias ter procurado ajuda profissional.

Nos dias após a sua demissão, enquanto Downing Street negava que constasse qualquer “alegação específica” contra Pincher, as dúvidas e as contradições amontoavam-se. Segunda-feira, o subsecretário de Estado da Família e Criança, Will Quince, afirmou à Sky News que exigira explicações ao chefe do Executivo “de forma firme e clara”, tendo-se sido dadas “garantias categóricas” de que Johnson não estava a par das alegações contra o agora ex-vice-líder do grupo parlamentar.

As revelações de Simon McDonald viriam demonstrar a falsidade dessas garantias. Os porta-vozes de Johnson ainda ensaiaram a linha de que este soubera de “algumas alegações”, que estavam “resolvidas ou não avançaram”, mas depressa tiveram de se contradizer.

O próprio vice-primeiro-ministro Raab, que era ministro dos Negócios Estrangeiros quando Pincher, então nessa tutela, foi acusado de comportamentos indevidos, atrapalhou-se na televisão ao defender Johnson dizendo que não fora tomada ação disciplinar contra Pincher. A pivô fez-lhe ver que isso não significava que não houvesse acusações, apenas que o próprio Raab decidira nada fazer, pois a investigação no seu Ministério concluíra que as acusações eram fundadas.

Finalmente, ao meio-dia de terça-feira, o porta-voz de Johnson emendou de novo a mão: Johnson sabia da investigação aberta no Ministério dos Negócios. Um secretário de Estado da Presidência, Michael Ellis, afirmou aos deputados que Johnson “não se lembrara imediatamente dessa conversa”.

Escândalos acumulam-se

O Partygate e os escândalos sexuais (que levaram à demissão de vários deputados nos últimos anos) não esgotam a lista de embaraços de Johnson, que cumprirá três anos no poder a 24 de julho, se ainda estiver no cargo.

Em maio de 2021 soube-se que remodelara o apartamento onde vive, pelo equivalente a mais de €120 mil, sem registar que o dinheiro lhe fora dado por um apoiante do Partido Conservador. Em julho desse ano foi repreendido pelo comité de ética do Parlamento por não ter declarado umas férias oferecidas por outro doador do partido na ilha caribenha de Mustique.

Em outubro passado, tentou alterar as regras de lóbi para salvar da demissão (que acabou por acontecer) o deputado Owen Patterson, seu aliado, apanhado num caso de conflito de interesses (fizera pressão junto do Governo a soldo de empresas privadas).

Quanto aos casos de cariz sexual, estão a tornar-se uma praga difícil de aceitar para os cidadãos. Há um deputado conservador, de identidade não revelada, acusado de violação e outros crimes, que continua a exercer o cargo e a votar à distância.

Em 650 deputados, 56 estão sob investigação por acusações dessa natureza. Três exercem funções governativas (no Reino Unido tal é compatível com o assento parlamentar), dois estão no Governo-sombra trabalhista.