Internacional

Boris Johnson resiste a demissões, mas arrisca a morte de Rasputine

6 julho 2022 0:16

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Boris Johnson durante um Conselho de Ministros a 5 de julho de 2022. À esquerda na imagem, o agora ex-ministro da Saúde Sajid Javid, cuja demissão foi a primeira de muitas no mesmo dia

justin tallis/pool/afp/getty images

Primeiro-ministro do Reino Unido remodelou Governo após demissões ditadas pela ética. Descontentamento cresce no Partido Conservador e fala-se de mudar regras internas para destronar o chefe do Executivo

6 julho 2022 0:16

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

Andrew Mitchell já foi líder da bancada parlamentar do Partido Conservador britânico. Hoje é um deputado crítico do primeiro-ministro do Reino Unido e é-lhe difícil acreditar que Boris Johnson se mantenha no cargo ao fim de um dia marcado pelas demissões de dois ministros importantes — Rishi Sunak, das Finanças, e Sajid Javid, da Saúde —, ainda por cima por razões de ética e conduta, no âmbito de um escândalo sexual.

“É um pouco como a morte de Rasputine. Foi envenenado, apunhalado, baleado, o corpo foi atirado para um rio congelado, e ainda assim está vivo”, afirmou na BBC o deputado que representa o círculo de Sutton Coldfield na Câmara dos Comuns.

O primeiro-ministro foi obrigado a desdizer-se, esta terça-feira, após o seu gabinete ter dado garantias de que não estava a par das acusações que pesavam sobre o deputado Chris Pincher. Este demitiu-se de vice-presidente do grupo parlamentar conservador, dia 30, depois de uma noite em que, segundo o próprio, bebeu de mais e fez uma figura vergonhosa. Está acusado de ter apalpado pelo menos dois homens e está longe de ser a primeira vez que surgem alegações deste tipo.

Primeiro-ministro desmentido em público

Javid e Sunak condenaram a forma como Johnson reagiu ao caso. “Lamento, mas não posso continuar de boa consciência”, escreveu numa carta o ex-titular da pasta da Saúde. O colega das Finanças defendeu que o Executivo deve ser chefiado de forma “apropriada, competente e séria”, qualidades que deixou de reconhecer em Johnson.

Avisado várias vezes e desde há anos sobre condutas impróprias passadas de Pincher, o primeiro-ministro decidiu ainda assim nomeá-lo para o cargo. Foi um diplomata que esteve no Governo e está agora na Câmara dos Lordes, Simon McDonald, quem repôs a verdade e obrigou o governante a reconhecer que fora informado e a emitir um pedido de desculpas que convenceu poucos.

Pincher está suspenso do partido mas continua deputado. O gabinete de Johnson acabou por adotar a versão de que o primeiro-ministro se esquecera da informação que recebeu.

Mitchell, que há muito pede o afastamento de Johnson, acredita que desta vez “acabou”. Ainda que não tenha esboçado a menor intenção de renunciar ao cargo, o primeiro-ministro está cercado por cada vez mais críticos e vulnerável a novas tentativas de o afastar de Downing Street. “É um primeiro-ministro anormal. Brilhantemente carismático, muito divertido, muito engraçado, uma grande, grande personagem. Mas receio que não tenha caráter nem temperamento para ser o nosso primeiro-ministro.”

Reação lacónica

O Governo de Sua Majestade perdeu dois membros importantes e viu demitirem-se dois enviados especiais para o comércio, um solicitador-geral, e quatro subsecretários de Estado que apoiavam outros tantos ministros nas relações com o Parlamento. Também se demitiu um vice-presidente do Partido Conservador. Vários deputados expressaram em público o desejo de ver o chefe pelas costas. Mas este não recua.

A sessão semanal de perguntas ao primeiro-ministro, quarta-feira ao meio-dia, anuncia-se tenebrosa para Johnson. A oposição em bloco exige a sua cabeça. Na reação às demissões, o chefe do Executivo limitou-se a agradecer o serviço prestado pelos agora ex-ministros e a lamentar a sua decisão.

Johnson enfrentou há um mês uma moção de censura interna, motivada por outro escândalo, o Partygate (festas na residência oficial do primeiro-ministro e noutras instalações do Governo durante a pandemia). Aguentou porque 211 deputados conservadores votaram para mantê-lo no cargo, face a 148 que preferiam a exoneração.

Em teoria, tem um ano de moratória até poder haver nova votação de censura. No entanto, há manobras no Comité 1922, um poderoso grupo de parlamentares tories sem funções governativas que gere estes processos, para encurtar os prazos e derrubar o chefe.

Chefes de Governo conservadores como Margaret Thatcher, John Major ou Theresa May também venceram votações internas para, meses depois, anunciarem a demissão ou, no caso de Major, serem varridos nas urnas. O que nos leva a uma das razões para Johnson perder apoios: se um dos seus maiores ativos era ser alguém capaz de conquistar votos — o que gerava tolerância para as suas evidentes falhas morais —, as sondagens e os recentes resultados em eleições intercalares sugerem que essa chama se apagou.

Remodelação pouco imaginativa

Obrigado a mexer no elenco governativo, Johnson elevou o ministro da Educação, Nadhim Zahawi, a titular das Finanças. Para o seu lugar passou a secretária de Estado do Ensino Superior, Michelle Donelan. Já a Saúde fica com Steve Barclay, outrora ministro do Brexit.

Com a passagem de Nadhim Zahawi da pasta da Educação para a das Finanças, a sua secretária de Estado do Ensino Superior, Michelle Donelan, passa a ministra

Com a passagem de Nadhim Zahawi da pasta da Educação para a das Finanças, a sua secretária de Estado do Ensino Superior, Michelle Donelan, passa a ministra

dan kitwood/getty images

A maioria dos ministros expressou apoio ao chefe, embora o silêncio de alguns, como Michael Gove (Presidência), Liz Truss (Negócios Estrangeiros) ou Penny Mordaunt (Comércio) tenha deixado dúvidas nos comentadores. É possível que haja quem espere para ver de que lado sopra o vento. As atitudes que se tomam numa crise política no Reino Unido ditam muitas vezes a sorte dos respetivos autores em futuras corridas à liderança.

O mais recente escândalo sexual é um de dezenas que têm assolado Westminster, sobretudo no Partido Conservador, mas não só. Há 56 parlamentares investigados por alegações desta natureza, tendo já havido condenações e demissões.

Juntam-se a outras dores de cabeça do primeiro-ministro. Com o país inquieto com o custo de vida, as agruras da saída da União Europeia (sobretudo na Irlanda do Norte) e os ensejos separatistas de parte da Escócia, os casos devoram o espaço mediático: do deputado que se demitiu por conflito de interesses e a quem o primeiro-ministro tentou salvar; aos que violaram regras sanitárias; à remodelação do apartamento onde mora Johnson, com fundos de opaca procedência, tudo quanto o governante toca parece fadado a causar controvérsia.

Talvez por isso mesmo, um estudo de opinião divulgado esta terça-feira mostra que 69% dos inquiridos pensam que o tempo de Johnson acabou. Ao mesmo tempo, as intenções de voto estimadas por vários institutos dão vantagem aos trabalhistas.