Internacional

Grupo Wagner acusado de ataques a minas na fronteira entre o Sudão e a República Centro-Africana

22 junho 2022 18:12

anadolu agency/getty images

Nos últimos meses, os vários ataques a minas artesanais causaram dezenas de mortes. Testemunhas descrevem os massacres e a destruição causada pela organização russa

22 junho 2022 18:12

Membros do Grupo Wagner estiveram alegadamente envolvidos em vários ataques a minas artesanais nas zonas fronteiriças do Sudão e da República Centro-Africana. Os três maiores ocorreram a 13 de março, 15 de abril e 24 de maio, causando dezenas de mortes.

Especialistas e testemunhas ouvidos pelo “The Guardian” indicam que o objetivo era roubar o comércio de ouro da região. A maioria das vítimas eram trabalhadores migrantes do Sudão e do Chade que trabalhavam nas minas de ouro, além de civis. Há ainda relatos de novos ataques a minas em pelo menos seis outros locais da República Centro-Africana.

As várias testemunhas entrevistadas pelo diário britânico no Sudão descreveram os “massacres” dos combatentes, identificados como pertencentes ao grupo Wagner, nos acampamentos de mineiros entre a cidade de Am Daga e a fronteira: dispararam indiscriminadamente com armas automáticas, destruíram equipamento e edifícios e roubaram motas.

Ao jornal, Mohammed Zain Mohamed Wadi, de 42 anos, contou que foi atacado em Jabal a-Nar, a oeste da fronteira com o Sudão, por russos – alguns em veículos blindados – e por soldados da República Centro-Africana em carrinhas e motas. Disse ainda que ajudou a sepultar 21 das vítimas, todas sudanesas: “Nunca mais voltarei. Na verdade, não creio que tenha ficado ninguém. As minas de ouro ali foram ocupadas pelos russos.”

A diretora adjunta para África do Grupo Internacional de Crise, Pauline Bax, aponta que “há relatos regulares de atacantes que chegam de helicóptero, matando mineiros artesanais e rebeldes, levando tudo o que podem”. Partem depois, mas “por vezes voltam um mês depois e fazem a mesma coisa”.

Ações do grupo têm aumentado em África

O Grupo Wagner é uma organização paramilitar e uma empresa privada que presta serviços de segurança, cuja atuação tem vindo a aumentar em África desde 2015, a par com o interesse na região do Presidente russo, Vladimir Putin – que nega ligações ao grupo. Um dos principais objetivos do grupo no continente africano é o acesso aos recursos naturais, desde logo o petróleo ou o gás, mas também os metais raros.

Em países como a República Centro-Africana ou a Líbia, o Grupo Wagner presta serviços de segurança e o pagamento é feito “com uma percentagem do que é extraído em termos de recursos”, conforme já explicou ao Expresso a investigadora Joana de Deus Pereira. Um relatório de maio da Human Rights Watch identificou forças russas (sem insígnias) na República Centro-Africana, onde espancaram, torturaram e mataram civis desde 2019.

A presença dos combatentes Wagner “está a duplicar no Sahel e não se vai embora tão cedo”, destaca Sorcha MacLeod, líder do grupo de trabalho das Nações Unidas sobre o uso de mercenários. A especialista afirma que este tipo de grupos prolongam os conflitos locais, conduzem a níveis mais elevados de violência e cometem abusos dos direitos humanos.