Internacional

Mercenários russos do Grupo Wagner ligados a massacres no Mali

4 maio 2022 23:26

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florent vergnes

Em apenas quatro meses, até 456 pessoas terão morrido em nove incidentes nos quais estiveram envolvidos mercenários destacados pela organização paramilitar russa Grupo Wagner

4 maio 2022 23:26

Mercenários ao serviço do Grupo Wagner - uma organização paramilitar russa com ligações próximas a Vladimir Putin - foram associados a massacres em que morreram centenas de civis no Mali.

Documentos internos das Forças Armadas do Mali consultados pelo "The Guardian" revelam a presença de membros do Grupo Wagner, referidos como "instrutores russos", em "missões mistas" com militares e polícias malianos durante as quais ocorreram mortes civis.

Segundo a ONG Armed Conflict Location and Event Data Project, 456 pessoas foram mortas em nove incidentes relacionados com estas "missões mistas" só entre janeiro e meados de abril de 2022.

O massacre mais grave ocorreu em março, em Moura, uma vila controlada por extremistas islâmicos. Entre 350 e 380 pessoas foram mortas ao longo de quatro dias, a maioria da minoria étnica Peuhl. Segundo as testemunhas, a operação foi liderada por um homem branco que falava uma língua estranha que alguns identificaram como russo, mas a maior parte das execuções foi feita por militares do Mali.

A versão oficial do exército é a de que foram mortos 203 militantes de um grupo extremista com ligações à al-Qaida e negou os relatos de execuções. A Rússia vetou uma investigação independente das Nações Unidas ao massacre, enquanto o Mali bloqueou as tentativas da ONU de enviar uma equipa a Moura.

Nas últimas semanas surgiram novas alegações sobre tiroteios em vilas perto da cidade de Hombori, na região central de Mopti. Trabalhadores humanitários, especialistas e ativistas de direitos humanos descreveram um incidente a 19 de abril, no qual uma patrulha mista caiu numa emboscada que terá resultado na morte de um dos mercenários. Em resposta, os soldados malianos abriram fogo contra a multidão num mercado. Um segundo confronto a 23 de abril terá resultado na morte de um mercenário russo, um militar maliano e 12 outras pessoas.

Oficialmente, as autoridades do Mali negam que um mercenário russo tenha morrido nos incidentes de 19 de abril, afirmando que a baixa foi um soldado maliano. Rejeitam também que tenham morrido civis, afirmando antes que foram "neutralizados" 18 terroristas durante "vigorosas" operações de segurança.

Especialistas estão preocupados com a deterioração dos Direitos Humanos no Mali, coincidente com a chegada dos mercenários

Os incidentes têm sido noticiados, mas as autoridades ocidentais têm evitado nomear autores. Contudo, testemunhas, líderes de comunidades locais, diplomatas e analistas têm apontado o dedo a combatentes destacados pelo Grupo Wagner.

A organização está presente no Mali, um país estrategicamente localizado no oeste de África, desde 2021, quando assinou um acordo com o novo governo militar. Os líderes do país descrevem a presença dos mercenários como "instrutores" e rejeitam tratar-se de tropas destacadas para combater.

Estima-se que estejam entre 600 e mil mercenários ligados a esta organização paramilitar russa no Mali. Foram contratados pelos novos governantes por cerca de 10 milhões de dólares mensais, pagos em dinheiro e através dos direitos para a exploração mineira no país.

As situações relatadas levantam medos sobre a crescente intervenção da Rússia no continente, que visam aumentar a estabilidade e segurança. O Grupo Wagner tem estado ativo em vários países por toda a África e tem sido repetidamente acusado de violações dos Direitos Humanos.

Um relatório Humans Rights Watch divulgado na terça-feira identificou forças russas presentes na República Centro-Africana como perpetradores de assassinatos e tortura de civis desde 2019. Um grupo de peritos da ONU chegou às mesmas conclusões no ano passado. Desde o início da invasão, o grupo foi também associado a atrocidades cometidas na Ucrânia.