Internacional

Polícias à porta e janelas à prova de balas: políticos pró-armas procuram soluções para evitar mais ataques a tiro nas escolas americanas

26 maio 2022 14:17

Salomé Fernandes

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

jordan vonderhaar/getty images

O massacre no Texas voltou a gerar debate sobre como garantir a proteção das crianças quando vão à escola, mas nem todos defendem maior regulação. O senador Ted Cruz prefere escolas à prova de bala e aumento da presença policial. No entanto, o apoio de políticos americanos ao direito de posse e porte de armas – a ‘segunda emenda’ à Constituição – não é necessariamente gratuito. Há quem tenha recebido donativos da Associação Nacional de Espingardas para as suas campanhas

26 maio 2022 14:17

Salomé Fernandes

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

O ataque que vitimou 21 pessoas numa escola primária do Texas a maioria das quais crianças —, terça-feira, reacendeu o debate do acesso a armas nos Estados Unidos. Mas não é impedimento a que alguns políticos se mantenham críticos de maior regulação do acesso a armas. É o caso de Ted Cruz, senador republicano representante do Texas, que não olha para essa via como uma solução.

Chamando ao jovem que cometeu o ataque “monstro” e “psicopata”, Cruz considera que a falta de segurança está em haver portas destrancadas. A sua descrição de uma escola segura é um edifício com menos pontos de acesso e maior presença policial.

A proposta de Cruz para evitar a repetição da tragédia é permitir que as escolas recebam subsídios federais para aumentar a sua segurança, colocando portas e janelas à prova de balas e contando com polícias armados. “Não ter todas estas portas destrancadas. Haver uma porta para entrar e sair da escola, e ter polícias armados junto a essa porta”, disse. O senador defende que tirar armas aos cidadãos “não funciona” para impedir crimes.

Cruz não é isento de interesses nesta área. Segundo dados compilados pela Brady Campaign to Prevent Gun Violence, em 2019, o senador está entre os que receberam mais dinheiro da NRA para a sua campanha – foram 176.274 dólares (cerca de 164 mil euros). Outro senador representante do Texas que defende o porte de armas é John Cornyn, também financiado pela NRA. A Brady Campaign aponta que recebeu 78.945 dólares (74 mil euros).

Cornyn chegou a apresentar uma proposta para restringir o acesso a armas. Em 2016, depois de um ataque com arma de fogo, para impedir a venda de armas a pessoas na lista de terroristas do FBI. A proposta não foi aprovada. Na sua página de senador, porém, declara expressamente o seu apoio à Segunda Emenda à Constituição americana. Lê-se ali que votou contra a proibição de ‘armas de assalto’ e de espingardas semiautomáticas. E votou para permitir o porte de armas em parques nacionais.

O pior pesadelo

“O ataque com arma de fogo à Escola Básica Robb em Uvalde é o pior pesadelo de todos os pais e professores. Nenhum pai, criança ou professor deve ter de questionar-se se é seguro ir para a escola”, reagiu Cornyn em comunicado.

A tabela de contribuições foi liderada por Mitt Romney, que recebeu mais de 13 milhões em donativos da NRA. O direito de porte de armas está declarado de forma tão clara, tão inequívoca, que os liberais têm dificuldade em desafiá-lo diretamente. Em vez disso, estão a fazer todos os estratagemas imagináveis para o restringir”, disse em 2012, ano em que concorreu à Casa Branca.

Anos depois, Romney defendeu que a legislação de armas e medidas de segurança nas escolas devem ser definidas por cada Estado e não impostas a nível federal. Perante a tragédia desta semana, fez uma publicação na rede social Twitter em que diz que é “incompreensível”. “Ofereço preces e condolências, mas sei que é inadequado. Temos de encontrar respostas”, escreveu. Desta vez, mostrou abertura para que a verificação de antecedentes de quem quer comprar armas seja responsabilidade federal.

Da vergonha ao horror

O governador do Texas, Greg Abbott, fez uma publicação em 2015 em que dizia estar “envergonhado” por o seu Estado não estar no topo da tabela de compras de armas. Perante o massacre, emitiu um comunicado a descrever a morte das crianças e professores como “perda horrível” e a indicar que as pessoas “estão de luto pelas vítimas desse crime sem sentido e pela comunidade de Uvalde”.

Há pouco menos de um ano, Abbott assinou sete propostas que regularam o direito de posse e porte de armas no Texas, e alargaram os cenários em que se concede esse direito aos cidadãos. Na cerimónia de assinatura estiveram representantes da Associação Nacional de Espingardas dos Estados Unidos (National Rifle Association, NRA).

A legislação procurou tornar o Texas um “santuário” deste direito, protegendo os cidadãos de nova legislação federal de controlo de armas. Permite que hóspedes guardem armas nos seus quartos de hotel, proíbe entidades governamentais de interditar a venda ou transporte de armas em casos de emergência ou desastre, e revoga o crime de possuir, transportar ou fabricar um silenciador de armas de fogo. Uma das leis passou a permitir que cidadãos “respeitadores da lei” possam ter arma de fogo mesmo sem licença.

“O Texas será sempre líder na defesa da segunda emenda, e é por isso que construímos uma barreira à volta dos direitos às armas nesta sessão. Estas sete leis vão proteger os direitos de cidadãos que respeitam a lei e assegurar que o Texas continua um bastião da liberdade”, disse na altura Abbott.