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Acesso às armas nos Estados Unidos: “Para quando o fim deste pesadelo?”

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O senado americano pretende aprovar leis que limitem o acesso às armas, mas faltam votos. Nem a chacina de crianças no Texas demove políticos com ligações à indústria do armamento

25 maio 2022 19:26

Ricardo Lourenço, correspondente nos EUA

Menos de 24 horas depois do massacre na cidade texana de Uvalde, onde 21 pessoas morreram, 19 delas crianças, a maioria democrata no Senado americano ultimou duas propostas legislativas com objetivo de acabar com os sucessivos banhos de sangue nos Estados Unidos.

“São propostas que pretendem regulamentar a compra de armas em feiras e na internet, assim como aumentar o período durante o qual as autoridades verificam o histórico do comprador”, explica ao Expresso Alex Nguyen, um dos porta-vozes de Chuck Schumer, líder democrata na Câmara Alta do Congresso.

Na prática, trata-se de “reciclagem legislativa”, reconhece Nguyen, referindo-se ao fato dos textos serem, praticamente, os mesmos que foram aprovados na Câmara dos Representantes em 2019 e que, desde então, aguardam votação no Senado - os 50 republicanos mais o democrata Joe Manchin estão contra.

Apesar de oferecem os usuais “pensamentos e preces”, nenhum daqueles 51 políticos aparentou mudar de ideias. Furioso com a atitude, o senador democrata Chris Murphy, que desde 2012 tornou-se um dos maiores ativista anti-armas, na sequência do massacre na escola Sandy Hook, que provocou 28 mortos, entre eles 20 crianças, insurgiu-se no plenário. “Estamos numa posição de autoridade e mesmo assim não fazemos nada enquanto as nossas crianças são massacradas. Para quando o fim deste pesadelo?”.

As razões do impasse

Edward Patterson, assessor de imprensa do representante do Connecticut, revela que “há uma enorme dor coletiva no senado”, mas que, mesmo assim, as esperanças de que algo seja feito “atenuam-se a cada hora que passa”.

Ontem à noite, Ted Cruz, senador republicano representante do Texas, explicou as razões do impasse: “A culpa é dos democratas e dos media que procuram a toda a hora restringir o direito constitucional de acesso às armas por parte de cidadãos respeitadores da lei”.

Igualmente em conversa com o Expresso, no âmbito de um trabalho que será publicado na edição de sexta-feira, Gerry Souter, ex-membro e um dos fundadores da National Riffle Association (NRA), explica que existem hoje mais de 15 mil leis estaduais que regulam o acesso às armas. “Criou-se uma enorme confusão”, lamenta. “Uma pessoa que vive num certo estado pode transitar para outro e comprar seja o que for sem lhe fazerem uma pergunta. Uma dúzia de leis federais que regulamentassem a compra acabariam com o flagelo”.

Souter considera que urge resolver um problema central. “O NRA já não representa o pequeno caçador, ou os indivíduos que gostam de ir ao fim de semana para a carreira de tiro afinar a pontaria contra alvos feitos de papel reciclado. Essa gente gosta de armas, mas respeita a lei e não quer saber de política. Hoje, o NRA representa, unicamente, a indústria de armamento e está disposto a investir milhões nas campanhas dos políticos”.