Economia

Lagarde sobe juros entre a glória de Draghi e a má memória de Trichet

Exatamente 10 anos depois de ter salvo a zona euro da implosão, Mário Draghi, agora ao leme do Governo italiano,e com uma grave crise política nas mãos, espera que, desta vez, seja Lagarde a garantir que tudo fará para salvar a zona euro.

francois lenoir/lusa

Christine Lagarde anunciará a primeira subida de juros em onze anos, com as experiências dos seus antecessores bem presentes na memória. Em Itália, agora com uma crise política entre mãos, Draghi espera receber as mesmas garantias com que ele, há exatamente uma década, em julho de 2012, serenou os mercados

21 julho 2022 7:00

Se tudo corresse como planeado há um mês, esta quinta-feira, o Banco Central Europeu (BCE) daria início a uma política gradual de subida das taxas de juro. A taxa de referência subiria 25 pontos base em julho e mais 25 ou 50 pontos em setembro. Contudo, com a inflação a escalar e revelar-se mais permanente que transitória, a presidente do BCE poderá ceder aos argumentos dos banqueiros mais conservadores, os chamados “falcões”, e atalhar caminho. Subindo as taxas de juro em 25 pontos base, Christine Lagarde inaugurará a primeira subida dos juros em onze anos. Se os agravar em 50 pontos base, será preciso recuar 22 anos, aos mandato de Wim Duisenberg, para encontrar uma subida tão pronunciada.

A perspetiva de uma subida de 50 pontos base tem pairado nos últimos dias nos mercados financeiros tendo puxado pelo valor da moeda únicas que, há uma semana, tocou a paridade com dólar pela primeira vez em 20 anos. Os que consideram que esta seria a melhor opção defendem que o BCE já está a reagir tarde à subida de inflação, e que tem de sinalizar, sem margem para dúvidas, a sua determinação em controlar a subida de preços na Europa e cumprir, assim, o seu mandato. Ainda esta semana o Eurostat deu conta de uma aceleração da taxa de inflação harmonizada para os 8,6% na zona euro, com todos os países, à exceção da Alemanha e dos Países Baixos, a assistirem a uma escalada de preços face a maio. Ao mesmo tempo, o euro tem vindo a perder valor, tendo mesmo chegado a cotar abaixo do dólar, alimentando também o surto inflacionista.

Apontam ainda para os exemplos noutras geografias. O Banco do Canadá decidiu na semana passada um aumento dos juros em 100 pontos base, de uma assentada. O Banco de Inglaterra, que já aumentou quatro vezes a taxa de juro, para os 1,25%, admitiu esta semana um novo agravamento em 50 pontos base em agosto. E a Reserva Federal já subiu três vezes os juros, para 1,75%, e poderá determinar uma nova subida de 75 pontos base ainda este mês.

Mas, se há bons argumentos para que o BCE atue de forma mais determinada, não faltam contra-argumentos na mesa dos governadores para que o banco central adote uma postura mais gradual. Grande parte da inflação na Europa é importada via bens energéticos, pelo que as subidas de taxas de juro do BCE podem ser menos eficazes. Além disso, subir juros prejudica os investimentos necessários para a urgente transição energética. E, pior ainda, para serem eficazes, as subidas podem conduzir a uma forte abrandamento da atividade económica, e até um aumento de desemprego na Zona Euro – isto num momento em que se teme que as limitações ao fornecimento de gás natural pela Rússia provoque uma recessão na Europa nos próximos 12 meses. Esse é de resto o cenário central de alguns bancos, e um risco já explicitado pela Comissão Europeia, o FMI e o próprio BCE.

Lagarde entre Trichet e Draghi

Nas reuniões a que preside com o seu conselho executivo e os 19 governadores, Christine Lagarde terá bem presente experiências do seus antecessores. É provável que se lembre que Jean-Claude Trichet ficou na história pela famosa subida de juros que decidiu em 2011, poucos meses antes da zona euro afundar numa profunda recessão que forçou o BCE a recuar nessa decisão ainda nesse ano. E ninguém a deixa também esquecer que uma simples frase de Mario Draghi, em 2012, salvou a Zona Euro da implosão, reduzindo a mesma fragmentação entre taxas de juro da dívida soberana que agora voltam a ensombrar os países da periferia.

É com o peso da história e perante uma conjuntura económica e geopolítica inéditas na Europa há décadas que o banco central anunciará hoje a sua decisão. A subida de juros será a primeira em onze anos. Mas se chegar aos 50 pontos base, então Lagarde comparará ainda com outro antecessor, Wim Duisenberg, o primeiro presidente do BCE e o único que, até hoje, anunciou um agravamento tão pronunciado da taxa de juro central quando, em junho de 2000, subiu de 3,75% para 4,25%. A decisão implicará também que a atual taxa de juro de depósito suba para 0%, interrompendo assim a era de taxas negativas na Zona Euro.

A decisão quanto ao custo do dinheiro marcará a inversão de um ciclo a que todos estarão atentos. Mas investidores e analistas ouvirão, talvez ainda com mais atenção, o que Lagarde tiver para dizer sobre a estratégia do BCE para travar a subida de spreads na Europa. A expectativa é grande e em parte por responsabilidade do próprio BCE.

Em junho, após as confirmações do fim dos programas de compra de dívida publica do banco central e de subidas de juros na Europa já em julho, os investidores começaram a testar a resistência dos países periféricos. Tal como há mais de uma década, exigiram juros cada vez mais altos, nomeadamente a Itália, mas também a Espanha, Grécia ou Portugal. Perante o escalar dos ‘spreads’, Christine Largarde convocou uma reunião de emergência e reafirmou que o banco central estava já a trabalhar num mecanismo de combate à fragmentação dos mercados de dívida pública.

Este é mais um dossiê que afasta falcões e pombas no BCE, e cujos desenvolvimentos serão essenciais para o futuro da economia europeia, e em particular para Mario Draghi que, exatamente 10 anos após a sua famosa frase de julho de 2012, se encontra agora ao leme do Governo italiano, com uma grave crise política nas mãos e à espera que, desta vez, seja Lagarde a garantir que tudo fará para salvar a zona euro.