Blitz

Êxtase após êxtase, o príncipe Harry Styles veio a Lisboa dar aos fãs a melhor noite das suas vidas

1 agosto 2022 2:26

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Harry Styles

twitter @lifewithlaurel

Para o último concerto da digressão europeia, e primeiro a solo em Portugal, Harry Styles guardou várias surpresas e um concerto extremamente emotivo. Em delírio, a plateia correspondeu ao seu carinho e ofereceu uma receção de luxo a uma das grandes estrelas pop do momento. Relato de uma noite que teve um pedido de casamento e um pastel de nata

1 agosto 2022 2:26

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Há um rasto de plumas no caminho que leva à Altice Arena, e um só nome na garganta acesa da plateia, maioritariamente feminina, do concerto de Harry Styles este domingo, em Lisboa. Harry não é um príncipe, pelo menos daqueles que usam coroa, mas reina com firmeza no mundo adolescente/jovem adulto de quem enche o pavilhão ao qual em tempos chamámos Atlântico, emprestando à noite uma energia palpável. Desde cedo, de resto, que a excitação era visível, nas imediações do recinto. Entre caixinhas de maquilhagem, t-shirts personalizadas e bandeiras do arco-íris, a falange de admiradores do inglês mostrava a sua alegria por, finalmente, poder assistir à estreia a solo, em Portugal, da estrela que começou por se notabilizar a bordo dos One Direction. Inicialmente marcado para maio de 2020, o espetáculo foi adiado por duas vezes, devido à pandemia, e entretanto Harry Styles (que hoje, lamentavelmente, não se deixou fotografar pela imprensa) juntou à sua discografia mais um título: "Harry's House", o álbum lançado no passado mês de maio, do qual saiu a maior parte das canções do alinhamento desta noite. Olhando para os rostos, exaustos mas eufóricos, das fãs (permitam-nos que, por uma questão 'estatística', invertamos a regra do plural masculino), é seguro dizer que a espera valeu a pena e que o concerto, com algumas surpresas face aos alinhamentos mais recentes, transbordou as medidas de quem vibrou intensamente com cada canção.

É um triunfo justo para o jovem Harry (28 primaveras celebradas no passado mês de fevereiro), que entra em palco em modo apoteótico: saltitando, rejubilando e celebrando por poder fazer a sua coisa favorita ("por vezes é a segunda, como compreenderão", brinca a certa altura do concerto, com um humor que nunca perde o cariz familiar). Cedo se percebe que este é um daqueles casos em que a vitória por goleada está garantida à partida, independentemente da exibição. O cenário é bonito na sua simplicidade tecnicolor; a banda - com duas mulheres, no baixo e na bateria - brilha com a devida discrição e as canções, viajando pela pop mais sintética dos anos 80 e pela "nação" californiana conforme pintada por gente como os Fleetwood Mac, são tão orelhudas como elegantes. No centro de todas as atenções, mas agradecendo amiúde aos seus músicos e também à banda da primeira parte, os Wolf Alice, Harry Styles é um performer carismático e um cantor que, coisa rara nos concertos que vamos vendo, não parece recorrer a vozes pré-gravadas (na pior das hipóteses, deixa os fãs cantar por si, o que não é um sacrifício para ninguém). Mas, ao longo das primeiras canções, é preciso um esforço significativo para avistarmos estas virtudes. Na Altice Arena, muitos humanos estão claramente a viver a melhor noite das suas vidas, e essa excitação traduz-se numa massa sonora impressionante, feita de coros altíssimos mas também de gritos ensurdecedores, que mal deixam ouvir a voz do seu herói (uma história tão antiga, afinal, como a dos Beatles). Depois de passado o choque de estarem na sua presença, contudo, as energias irão nivelar-se e o concerto decorrerá de forma mais equilibrada, ainda que sempre excitadíssima.

Harry Styles

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Com três discos editados após a dissolução dos One Direction, em "hiato" desde 2015, Harry Styles tem já uma grande quantidade de êxitos, o que lhe permite polvilhar o espetáculo com sucessivos pontos altos. A 'Golden' e 'Adore You', duas das pontas de lança de "Fine Line", segue-se 'Daylight', uma das apostas certeiras do novo "Harry's House"; apresentada no meio do público, com a baixista Elin Sandberg e a baterista Sarah Jones nos coros, a delicada 'Matilda', que o artista diz ser muito especial para si, ajuda a pôr um pouco de água na fervura, antes de 'Boyfriends', um título-dedicatória com que todos & todas se podem identificar, voltar a dar corda aos sapatos de Mr. Styles. Na reta da meta, rumo a um encore explosivo, 'What Makes You Beautiful', única recuperação do repertório dos One Direction, despertou memórias mais remotas em muitas fãs e instalou na Altice Arena um ambiente de febre de domingo à noite, prolongada por 'Late Night Talking' e contrabalançada por uma daquelas baladas tão sinceras que já quase não se usam, mas que está no disco mais recente do britânico, 'Love of My Life'.

Pelo meio, claro, houve a divertida "secção portuguesa" do concerto, com Harry Styels a apadrinhar o pedido de casamento de João a Mariana e a prestar a devida homenagem a uma instituição nacional, o pastel de nata.

Pode parecer tudo muito pensado, e é-o certamente, como resulta obrigatório num espetáculo e numa digressão desta envergadura. Mas um dos trunfos de Harry Styles será o de fazer crer que, por muito trabalho que dê, tudo parece simples. Galã mas inclusivo, ligeiramente rebelde mas capaz de agradar às muitas mães que assistem ao espetáculo, o rapaz da pequena cidade de Redditch (curiosamente, a mesma terra de John Bonham, dos Led Zeppelin) pode ter a vitória garantida à partida, face a uma plateia de fãs que o veneram, mas nunca dá esse triunfo por garantido. Com o seu charme menineiro e postura woke, oferece um espetáculo alegre e honesto, virtudes tão raras como necessárias nos dias que correm. Numa das muitas vezes que se dirige ao público, afirma estar a viver o melhor verão da sua vida, e é fácil acreditar nas suas palavras quando, quase duas horas depois do começo do concerto, o vemos correr (e sorrir) com a mesma vontade e a mesma genica.

Numa altura em que a estrela de Justin Timberlake brilha de forma cada vez mais tímida, e Robbie Williams é uma memória distante que só nos ocorre quando Harry Styles canta a power balad 'Sign of the Times', do seu primeiro álbum, é provável que o miúdo que temos à nossa frente, de camisola com ursinho e braços tatuados, seja, a par de Justin Bieber ou The Weekend, uma das maiores estrelas pop masculinas, num meio que é dominado por mulheres. Mas a sua arte não carece de comparações, ocupando um lugar muito próprio - pacífico, feliz, acolhedor - no firmamento pop.

Acedendo aos pedidos do povo, que não se cansou de pedir a canção 'Fine Line', do álbum homónimo de 2019, Harry Styles guardou esse 'miminho', que apresentou à guitarra acústica, para a primeira despedida de palco. Dizem as estatísticas da digressão que, este ano, o tema só foi tocado ao vivo por duas vezes: em junho, na Escócia, e em Lisboa, no grand finale da tournée. Ainda mais convencida de que esta era uma noite especial, Lisboa entrou assim no encore em grande ebulição, e das cinco canções escolhidas para o final constou mais uma surpresa: um belo dueto com Ellie Rowsell, vocalista dos Wolf Alice, que com o seu 'anfitrião' cantou a pastoral 'No Hard Feelings', da sua própria banda.

Tal como no resto da digressão, o ponto de exclamação parágrafo chegaria com 'Kiwi', momento rock resgatado ao primeiro álbum. Mas antes, claro, houve a canção deste verão (o melhor verão da vida de Harry Styles, lá está). 'As It Was', um pequeno tornado de pop tão melancólica como festiva que, tal como o verão propriamente dito, acaba tão depressa como começou, de imediato deixando saudades. Tal como o concerto desta noite que, para rematar a metáfora futebolística, se fosse uma jogada teria sido *aquele* golo de Éder, momento pleno de espanto e felicidade pura.

Na primeira parte, os Wolf Alice foram recebidos com surpreendente entusiasmo. Ainda que sonoramente possam não ser vizinhos próximos de Harry Styles, os londrinos conquistaram a plateia mercê da energia da sua atuação. Ansiosas por sentir e exteriorizar, as fãs do 'patrão' da noite aproveitaram todas as descargas elétricas de uma banda que saltita entre o punk e a folk, o shoegaze e o grunge, para libertarem alguma da sua excitação, acabando por proporcionar uma bela receção à rapaziada que abriu os concertos da Love on Tour. Nas canções mais delicadas - e os Wolf Alice, que começaram como duo acústico de voz e guitarra, têm-nas com fartura -, o público acendeu as lanternas dos telemóveis e deixou-se encantar pelo mavioso trinado de Ellie, que em 'The Last Man on Earth' até se sentou na beira do palco a apreciar o cenário. É comovente ver uma banda que talvez nunca venha a atuar, em nome próprio, numa sala tão grande como esta, sendo acarinhada por uma multidão que, exceção feita a 'Don't Delete the Kisses', não parecia conhecer as suas canções antes deste encontro acidental. E essa é, também, a magia da música e uma das razões pelas quais aqui andamos.

Harry Styles

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Alinhamento do concerto de Harry Styles na Altice Arena a 31 de julho de 2022:

Music For a Sushi Restaurant
Golden
Adore You
Daylight
Cinema
Keep Driving
Matilda
Boyfriends
Lights Up
Satellite
Canyon Moon
Treat People With Kindness
What Makes You Beautiful
Late Night Talking
Love of My Life
Fine Line

Encore:

Sign of the Times
Watermelon Sugar
No Hard Feelings (dos Wolf Alice, com Ellie Rowsell)
As It Was
Kiwi