SER

“Galp já é o maior utilizador de hidrogénio em Portugal: queremos é substituir o cinzento pelo verde”

9 janeiro 2023 14:45

walter branco

Lee Hodder é o Chief Sustainability Officer da Galp Energia e deu uma entrevista ao Expresso SER para explicar o plano traçado pela empresa rumo à descarbonização. Mas como é que se descarboniza uma empresa cujo negócio principal é a venda de combustíveis fósseis? A resposta, diz o CSO, passa pelo solar, hidrogénio verde, lítio e biocombustível

9 janeiro 2023 14:45

Nos últimos anos esteve na Shell, passou por vários países desde a Dinamarca, a Gronelândia e a Islândia, até que em outubro de 2021 chegou à Galp Energia para ser o Chief Sustainability Officer (CSO) e vice-presidente do departamento de estratégia da maior petrolífera nacional. Lee Hodder conversou com o Expresso SER para explicar como a empresa, com um dos negócios mais poluentes do país, quer rumar em direção à neutralidade carbónica.

A neutralidade carbónica, explica Hodder, não é deixar de vender combustíveis fósseis, mas passa por ter um mix energético com um peso cada vez maior de energias limpas e ajudar os outros a cortar nas emissões de CO2. “Ao produzir lítio, por exemplo, estamos a ajudar o mundo a produzir 700 mil veículos elétricos por ano. Mesmo que no curto prazo possamos aumentar as nossas emissões, o benefício líquido é positivo”, explica o CSO da empresa. O responsável refere ainda que a “Península Ibérica está bem posicionada para ser líder em hidrogénio verde” e afirma que a Galp já é hoje em dia o maior consumidor de hidrogénio, mas que está a fazer o grey to green switch, ou seja, a substituir o hidrogénio cinzento (que se obtém a partir do gás natural) pelo verde que se obtém através de eletrólise.

Vou começar com uma provocação. É difícil ser Chief Sustainability Officer numa empresa poluente, cujo negócio principal é o petróleo?
[Risos] Acho que tens de ter algumas crenças. Sou a quarta geração da minha família a trabalhar no setor da energia. Acredito que a energia é importante para a economia e acredito que nós temos de continuar a entregar energia barata aos nossos clientes, dentro daquilo que podemos. Para mim, ter a possibilidade de ser CSO de uma companhia como a Galp é uma grande oportunidade. Penso que há cerca de cinco anos, o digital era uma das buzzwords, e agora estamos num período em que a sustentabilidade tem de ser a prioridade de empresas como a Galp. É uma grande tarefa, não é uma coisa fácil de fazer. Há vários investidores que não se querem comprometer com uma empresa de petróleo e gás. Eu acredito que o setor está a mudar e vai mudar e prefiro ser parte disto em vez de estar fora disto. Por isso é que eu gosto de estar aqui.

O Lee Hodder veio da Shell para a Galp, certo?
Juntei-me à Galp em outubro de 2021. Antes de vir para a Galp estava na Shell, durante sete ou oito anos, e andei por vários países diferentes e fiz muitas coisas na Shell. Comecei mais do lado do gás, sou engenheiro químico de formação. Fui country chairman da Shell na Dinamarca, na Gronelândia e na Islândia e uma parte grande do meu trabalho foi tratar da transição energética. Também fui Head of Investment Appraisal durante algum tempo, quando havia grandes investimentos, basicamente a minha equipa dava indicações ao CEO para dizer se aquilo era um bom investimento. Também fui responsável por um dos programas globais de transformação digital na Shell.

Na Galp, é Chief Sustainability Officer (CSO) e ainda vice do departamento de estratégia.
Quando vim para a Galp decidimos juntar as equipas de Estratégia e Sustentabilidade por duas razões principais. No verão de 2021, mesmo antes de eu chegar, houve um refresh de toda a nossa estratégia e, no coração dessa alteração, estava a crença de que a transição energética ia acontecer e ia acontecer mais rapidamente do que as pessoas pensaram. Depois, o papel da sustentabilidade é importante não só para o nosso desempenho atual, mas também, no longo prazo, para a empresa que nós queríamos ter.

É justo dizer, não é só a Galp. Historicamente, a sustentabilidade era um pouco vista com um tópico do compliance e ao juntá-la com a Estratégia quisemos que fosse um pouco mais tópico do dia a dia, em vez de apenas o reporte do compliance. Tentámos fazer esse equilíbrio, mudámos a nossa equipa para que isso acontecesse, e, atualmente, não está perfeito, mas estamos satisfeitos com algum reconhecimento e ratings que obtivemos por parte de alguns índices.

Até 2030, a Galp planeia reduzir a meta de emissões poluentes em 40% e chegar à neutralidade carbónica em 2050. Que caminho estão a fazer para alcançar essas metas?
Sim, entre agora e 2030 estamos a fazer um conjunto de coisas para que isso aconteça. Não há só uma coisa que se faça e resolva tudo de uma só vez, há muitas coisas que estamos a fazer em paralelo. Em relação ao negócio do upstream [extração e exploração], ao nosso portfólio de petróleo e gás, estamos a ser muito seletivos sobre onde é que investimos. Mesmo sabendo que continuamos a produzir petróleo e gás, a média de emissões dos nossos ativos já é de cerca de metade face aos nossos concorrentes.

Quando avançamos na cadeia [de produção], estamos a tentar descarbonizar um grande número de coisas. Estamos a aumentar drasticamente o nosso investimento em combustíveis renováveis e com baixas emissões de carbono. Dissemos que íamos gastar cerca de metade do nosso Capex [despesa em capital] líquido de 2021 a 2025 em investimentos de baixas emissões. E isso quer dizer que estamos a investir em hidrogénio verde, estamos a investir diretamente em fontes renováveis, como o solar e as eólicas, em vez de queimar gás natural. Estamos também a olhar para outros tipos de moléculas com baixa emissões, como o biocombustível. Creio que um dos desafios é descarbonizar, ao mesmo tempo que continuamos a responder às necessidades dos nossos clientes. Temos planos bastante claros entre agora e 2023 para alcançar essas metas.

Esse é o plano?
A outra coisa que estamos a fazer, por cima disto tudo, é ajudar outras pessoas a reduzirem as suas emissões. Isso é uma das razões pela qual quisemos entrar na cadeia de valor das baterias. Já deves ter ouvido que queremos avançar para a refinação do lítio. Ao produzir lítio, estamos a ajudar o mundo a produzir 700 mil veículos elétricos por ano. Mesmo que no curto prazo possamos aumentar as nossas emissões, o benefício líquido é positivo.

No dia em que a Galp for uma empresa neutral em termos de carbono, significa que nesse dia vão deixar de vender petróleo?
Não, mesmo quando chegarmos a 2050. As grandes organizações, com a Agência Internacional de Energia (AIE), quando olham e dizem como é que será o mundo em 2050, mesmo na maior parte dos cenários de zero emissões líquidas, eles continuam a achar que continuará a haver necessidade de petróleo e gás. Obviamente, muito menos. Mas tens de garantir que nessa altura tua produção é a mais eficiente e com menos emissões dos que os teus concorrentes. E aí creio que o nosso portfólio está bem posicionado. A razão de ser é que muitos dos nossos ativos de petróleo e gás são relativamente recentes e eles usaram tecnologia mais moderna dos últimos dez anos, tecnologia de produção com menos emissões face a outras instalações mais antigas, com 20 a 30 anos.

Estão a investir nas centrais solares e no hidrogénio. No futuro, a vossa ambição é ser uma empresa que venda quase 100% de energia verde?
Vai depender como a empresa evolua nas próximas décadas e como os mercados mudam. Penso que é claro que no final desta década teremos o potencial de ter uma parte significativa da nossa receita vinda dessas fontes de energia limpa. É difícil prever com exatidão exatamente o mix de energia em 2040 ou 2050. Para fazer a descarbonização total, existem tecnologias que ainda não estão completamente amadurecidas, portanto, no presente temos de alavancar a tecnologia existente de forma mais eficaz no curto e médio prazo, e acompanhar de perto algumas dessas tecnologias emergentes para quando estiverem prontas para serem usadas.

Em termos de mix de energia, creio que a AIE diz que mesmo num cenário de emissões líquidas zero, 20% ou 30% da energia no mundo continuará a vir do petróleo e do gás. Temos de descarbonizar o mais depressa possível, mas garantir, -- com a guerra na Ucrânia e outros eventos, -- que a energia continue a ser acessível às pessoas.

A Galp é uma das maiores poluidoras de Portugal. Quando é que vê a Galp mais como uma empresa de energia verde do que uma empresa de gás e petróleo?
Depende das métricas para as quais estejas a ver. Penso que já dobramos o ponto de gastar 50% do nosso capital em investimento com baixas emissões. Vais ter um desfasamento em termos de investimento versus receitas, mas acho que dentro de uma década uma parte significativa das nossas receitas poderão vir de soluções com baixas emissões.

walter branco

“Península Ibérica está bem posicionada para ser líder no hidrogénio verde”

Dizia há pouco que algumas tecnologias ainda não estão maduras. O hidrogénio, por exemplo, já é um investimento que seja viável do ponto de vista financeiro?
Sim, se olhares para o mundo há muito investimento que está a ser feito, mas com muitas diferenças do ponto de vista geográfico. Creio que a Península Ibérica está bem posicionada para ser um líder europeu em hidrogénio verde. Portanto, eu penso que é potencialmente viável do ponto de vista económico. Mas tem de ser um equilíbrio entre o negócio, a sociedade e os governos que têm de ajudar, garantindo que existe estabilidade fiscal. A tecnologia do hidrogénio também está pronta, temos é que ver como é que integramos tudo isso. Mas eu sou um grande crente no hidrogénio no longo prazo, penso que vai ser uma parte muito importante do mix energético e penso que a Península Ibérica poderá ser uma parte importante disso.

Nós somos os maiores utilizadores de hidrogénio em Portugal. A refinaria usa mais hidrogénio do que qualquer outra localização em Portugal. Produzimos a partir do gás natural, ainda vem com uma emissão de carbono associado, e o nosso objetivo é substituir esse hidrogénio cinzento por hidrogénio verde, produzir por eletrolise e não com gás natural. Ouves muitas vezes a expressão grey to green switch quando falamos de Sines e esta transição vai ser uma das mais importantes na transição energética na Galp e em Portugal. Estamos focados nisso entre agora e 2030.

Em relação ao lítio, fizeram uma joint-venture com a sueca Northvolth para a construção de uma fábrica em Portugal. Acha que Portugal pode ser um grande produtor de lítio e de baterias de lítio?
Sim, acho que Portugal está muito bem posicionado. Sobretudo tendo em conta o que tem acontecido no último ano, com uma grande preocupação sobre a segurança energética na Europa. A União Europeia fixou metas muito ambiciosas com o REPowerEU, por isso, acho que existe essa vontade da Europa de ter a sua própria cadeia de produção e se olhares para Europa, por causa da sua localização geográfica, Portugal está bem posicionado.

Existem fábricas de automóveis, fábricas de baterias na Península Ibérica, não há razão para que não seja uma grande aposta. Agora, se vais minerar o lítio em Portugal ou traze-lo de outras localizações, é algo que creio que podemos ser flexíveis, mas caberá ao Governo e ao Estado português decidir. Quer explorem ou não, continua a existir uma grande oportunidade na refinação. Existem recursos em Portugal. Não podemos ficar dependente de recursos só de um lugar, por isso o nosso plano passa por procurar recursos noutras localizações como a América do Sul, a Austrália e em muitos outros sítios.

Há pouca falava no biocombustível. Quem planos têm para o biocombustível?
Temos um projeto para produzir óleos vegetais hidrogenados para que possas produzir combustível sustentável, por exemplo, para a aviação. É um processo em que agarras nos óleos vegetais despejados, na gordura animal despejada, e os processas para produzir produtos com baixa emissão de carbono. Tal como no lítio, ainda estamos a tentar perceber onde garantir um fornecimento fiável desses recursos, estamos à procura das melhores localizações para abastecimento.

Foto: Galp Energia

Foto: Galp Energia

Os índices ESG são um espelho para nos vermos a nós próprios

Esteve na COP27, ficou satisfeito com o resultado final da cimeira?
Acho que é um passo positivo, mas pequeno. É sempre bom que continuemos comprometidos com a meta dos 1,5º. Foi uma COP positiva em que se levantaram temas importantes, como o da biodiversidade e o da água, pelo menos foram discutidos. Acho que o foco na implementação e o tracking dos progressos deverá ser o tema das próximas COP. Acho que coisas como o TCFD [Task Force on Climate Related Financial Disclosures] e as novas regulamentações de reporte que estão a sair na Europa e à volta do mundo são globalmente positivos, porque ajudam a standardizar os nossos relatórios e a sermos transparentes. Acho que é positivo, mas ainda há trabalho a fazer.

No ano passado, Elon Musk, o patrão da Tesla, causou grande polémica ao dizer que o ESG [Environmental, Social and Governance] era um “esquema escandaloso” e que empresas como Exxon Mobil não mereciam estar à frente de empresas como a Tesla em índices de sustentabilidade, como os da S&P.
Acho que temos de ser julgados pelas nossas ações mais do que pelas nossas palavras. Para mim isto foi uma das coisas da COP. Tens muitas empresas e muitos governos com boas ambições, -- é importante ter ambições, -- mas creio que estamos numa fase agora em que as empresas vão ser mais julgadas pelo track record ou se estão realmente a fazer a descarbonização. Eu não concordo com o Musk, mas consigo perceber alguns dos seus pontos. Existem elementos de greenwashing, por isso é que eu acho que os reportes e a transparência são importantes, porque ajudam os investidores a terem mais confiança que as pessoas estão a fazer o que dizem e não apenas a dizer.

Entraram recentemente num novo índice da Euronext sobre igualdade de género [O Euronext Equileap Gender Equality Eurozone 100]. Não é estranho fazerem parte deste índice quando têm um Conselho de Administração com apenas cinco mulheres. Sendo que dos executivos, apenas uma é mulher.
[Risos] Creio que se olhares para a organização como um todo, penso que é importante continuar a encurtar esse gap a todos os níveis. Na minha equipa, mas de 50% são mulheres. Há aqui uma questão de herança, estamos a falar de uma indústria historicamente com muitos homens, mas hoje em dia alguns dos melhores desta indústria são mulheres. Na nossa empresa, esse gap de género está a fechar-se.

Estão presentes em mais índices ESG, além deste da Euronext?
Sim, estamos nos índices da Dow Jones Sustainability Indices, da MSCI E aumentámos o nosso rating CDP para as Alterações Climáticas (ver texto em baixo).

Com essas presenças nos índices ESG, conseguem diversificar mais a vossa base de investidores?
Espero que sim. Para mim estes índices servem para algumas coisas. Uma é ajudar a comunidade de investidores a comparar várias empresas. Mas para mim, como CSO, é muito importante porque é uma espécie de espelho para me ver a mim próprio, para ver onde é que temos os maiores gaps. E ajudam também a perceber as tendências emergentes. Se recuares um ou dois anos, os tópicos da biodiversidade, da água ou dos direitos humanos começaram a emergir na indústria, o que te dá uma indicação sobre como estão a mudar as expetativas da sociedade nesses pontos. Como CSO não te podes só guiar pelos índices, tens de ter métricas internas de desempenho para ver se consegues avançar mais. Como CSO estou muito orgulhoso dos nossos ratings e rankings, e mesmo que sejamos os primeiros não quer dizer que sejamos perfeitos, mas mostra que estamos a ser sérios.

A refinaria de Sines é a empresa que mais emite CO2 em Portugal

A refinaria de Sines é a empresa que mais emite CO2 em Portugal

d.r.

Galp lidera entre as petrolíferas no Dow Jones

Num comunicado enviado ao Expresso SER, e que serviu de mote a esta entrevista com Lee Hodder, a Galp diz que no final de 2022, conseguiu “classificações de topo” nalguns dos mais respeitados rankings globais de ESG, incluindo o CDP, Dow Jones Sustainability Indices, MSCI e Sustainalytics. A petrolífera refere que no final de 2022 “era a empresa mais sustentável do seu setor no Dow Jones Sustainability Indices, estava na banda Leadership do CDP para as Alterações Climáticas, tinha uma classificação AAA no MSCI e estava no top 5 do Sustainalytics”.

“Atravessamos um processo ambicioso de transformação numa empresa mais sustentável, empenhados em reforçar as nossas áreas de negócio de energias renováveis e de baixo teor de carbono, e focados na sustentabilidade de todas as nossas operações”, afirma Filipe Silva, CEO da Galp. No mesmo comunicado, o presidente executivo refere ainda que “neste processo, é fundamental ser transparente, para que o nosso desempenho possa ser comparado com outros de forma rigorosa, e para percebermos onde podemos melhorar. Estamos contentes por ver os nossos esforços reconhecidos”.

A petrolífera conta que na avaliação feita pelo CDP - Disclosure Insight Action alcançou a pontuação de “A-” nas suas práticas de mitigação das Alterações Climáticas, o que compara com a média da indústria, de “C”. Refere ainda que 16 de dezembro de 2022, alcançou a pontuação mais alta entre as 158 empresas do sector de Petróleo & Gás Upstream & Integrated avaliadas pelo S&P Global Corporate Sustainability Assessment.