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Women in ESG Portugal: estas três mulheres querem igualdade nos cargos de chefia e nos salários

4 janeiro 2023 9:46

Alice Khouri, Filipa Pantaleão e Rita Rendeiro criaram um movimento cívico chamado Women in ESG Portugal e estão a fazer uma lista para dar voz às mulheres que reclamam e procuram igualdade de oportunidades e de remuneração, em especial nas áreas de sustentabilidade e ESG

4 janeiro 2023 9:46

De uma forma muito simples e resumida, o Women in ESG Portugal é uma comunidade que reúne mulheres com algum background ligado ao ESG (sigla inglesa para Environmental, Social and Governance) e que passam a fazer parte de uma lista onde partilham experiências, documentos, e discutem caminhos para integrar a perspetiva de género no dia a dia das empresas e das instituições.

O Expresso SER conversou com as três fundadoras deste projeto, – Alice Khouri, Filipa Pantaleão e Rita Rendeiro, uma brasileira e duas portuguesas, – todas com um profissões ligadas à temática ESG. São mulheres que olharam para os índices de igualdade de género e para a participação de mulheres nas grandes cimeiras como a COP27, e não gostaram do que viram.

Na prática estão a criar uma rede de networking – ver site em winesgpt.com – que funciona como “um agente facilitador da igualdade de oportunidades e de remuneração do género hoje sub-representado, em especial nas áreas de ESG”. Filipa Pantaleão explica que “estas áreas de ESG, sobretudo o ‘E’ e o ‘S’, são áreas onde as mulheres estão em maioria. O que queremos é ter a certeza que depois elas sobem e têm o mesmo acesso de oportunidades e remuneração que os homens”.

E como é surgiu esta ideia? A ideia partiu de Alice Khouri e veio do Brasil. Khouri conta que quando Jair Bolsonaro tomou posse como presidente, em 2019, “faz um primeiro governo de transição e na pasta da Energia ele nomeou 100% de homens. A justificação dada na época aos jornais foi que só os homens tinham competência na energia e que energia era assunto de homens. Isso fez com que, em pouco tempo, surgisse uma lista, -- www.simelasexistem.com -- a elencar mulheres que tinham currículo e que podiam ocupar altos cargos no setor da energia. Foram 163 nomes e, por acaso, eu estava entre elas. E isso foi para dizer: ‘olhem, altos cargos de energia, background no mínimo de dez anos de experiência, e formação académica com doutoramento estão aqui’”. Essa comunidade brasileira ainda hoje existe e “sindicam para muitas coisas: para dar aulas, para trazer mais diversidade de género nos cursos, nas palestras, nos congressos e nas empresas. Eu já contratei pessoas dessa lista para a minha equipa de advogados. A própria diretora do regulador de energia brasileiro é da lista e no seu discurso de posse falou da lista”.

Houve um outro clique que levou Alice Khouri a ter a ideia do Women in ESG Portugal. Ela é uma participante assídua das COP (conferências climáticas das Nações Unidas) e na última, na COP27, diz ter ficado impressionada com a diversidade de género”, ou melhor, com a falta dela na conferência do Egipto. Refere que só 39% das delegações da maior conferência de sustentabilidade do mundo eram mulheres e tiveram apenas 27% do speaking time. Recorda que ela própria moderou um painel em que a rainha Sofia de Espanha estava rodeada de sete sheiks árabes: “É o retrato da realidade”, desabafa.

Mas, em vez de fazer uma lista setorial ligada à energia como no Brasil, Filipa, Alice e Rita resolveram lançar uma comunidade aberta a todas as profissões, que possa albergar “grandes CEO e estagiários”.

Alice Khouri, Filipa Pantaleão e Rita Rendeiro (da esquerda para a direita).

Alice Khouri, Filipa Pantaleão e Rita Rendeiro (da esquerda para a direita).

Porque é que esta lista só tem mulheres, se a iniciativa pretende promover precisamente a igualdade de género? Rita Rendeiro explica que “aqui é o conceito jurídico de igualdade, que é igualdade material, que é tratar igual o que é igual, e tratar diferente o que é diferente. Existem dados que são bastante notórios da diversidade não ser equitativa, não corresponder depois à progressão dos dois géneros, nem aos cargos que são ocupados, nem o nível de remuneração”. “O que nós queremos fazer é fechar esse paradoxo das mulheres que têm muito expertise e depois não estarem tanto nos cargos de decisão”, reforça Alice Khouri.

Este movimento cívico quer agora divulgar e alargar a “lista” e para tal vão lançar várias iniciativas, desde uma masterclass, um ciclo de talks “centrado na igualdade de género para descomplicar o ESG para a sociedade,” e preparam-se para uma grande conferência sobre a temática do ESG na segunda metade do ano. “Achamos que estas talks vão trazer duas coisas importantes: alimentar a comunidade e este sentimento de partilha em algo que nós acreditamos”, explica Filipa Pantaleão.

Sobre o enquadramento legal existente no nosso país nesta temática de igualdade de género, Rita Rendeiro defende que Portugal, “de facto, no papel está avançado, mas não tenho ideia que sejam normas que estejam a ser escrupulosamente cumpridas”. Defende que a nova diretiva europeia sobre igualdade de género pode trazer algum valor acrescentado ao nosso enquadramento jurídico. Por exemplo, a lei em Portugal já estabelece quotas de 40% nos conselhos de administração das empresas cotadas e nas empresas públicas, mas é omissa em relação à comissão executiva, que é aquela que tem mais poder nas empresas. E a diretiva europeia veio fixar aqui também uma quota de 33,3%.

Rita Rendeiro é analista certificada ESG pela European Federation of Financial Analysts Societies e atualmente é Operating Partners do fundo Maingreen Capital Partners e presidente e fundadora da Associação Direito Mental. Filipa Pantaleão é engenheira do Ambiente e trabalha atualmente numa empresa de resíduos urbanos, a EGF, do grupo Mota-Engil. Alice Khouri, a outra das fundadoras deste projeto, é advogada e professora nas áreas de Energia, Regulação e Sustentabilidade e trabalha no escritório brasileiro Rolim Advogados, em parceria com a Ferreira Pinto em Portugal.