Sociedade

Omertà, o código de silêncio que encobriu o ‘padrinho’ da máfia siciliana durante 30 anos

20 janeiro 2023 17:55

handout / getty images

A omertà é um código de honra, um voto de silêncio usado entre organizações mafiosas. Um provérbio siciliano resume bem a forma como a omertà é respeitada: “Quem fala pouco viverá cem anos”

20 janeiro 2023 17:55

Matteo Messina Denaro, chefe da máfia siciliana detido esta segunda-feira, quando se dirigia para fazer quimioterapia numa clínica privada em Palermo, era um dos dez criminosos mais procurados em todo o mundo e o mais procurado em Itália. Esteve foragido durante 30 anos, sem que as autoridades conseguissem qualquer pista sobre o seu paradeiro ou mesmo sobre a sua aparência.

A pergunta que fica é: afinal, como é que o ‘padrinho’ da Cosa Nostra conseguiu passar despercebido durante todo este tempo, sem nunca ser denunciado? A resposta é simples e é um termo usado na língua napolitana: omertà.

A omertà é um código de honra, sustentado por um forte sentido de família, usado entre organizações mafiosas do sul de Itália. No fundo, trata-se de um voto de silêncio que faz com que os mafiosos protejam outros elementos do grupo, impedindo-os de colaborar com as autoridades. Um provérbio siciliano resume bem a forma como a omertà é respeitada e seguida à risca: “Quem fala pouco viverá cem anos”.

É esse código de honra que explica que Messina Denaro, também conhecido por “Diabolik”, tenha continuado a viver tranquilamente, sem nunca ser denunciado, em Campobello di Mazara, uma pequena povoação com apenas 10 mil habitantes, onde quase todos se conhecem, onde quase nada é segredo. “Infelizmente, há cidadãos aqui que preferiram esconder a cabeça na areia”, admitiu o presidente da câmara, Giuseppe Castiglione, após a detenção do mafioso.

Por lá, nunca ninguém questionou a identidade do patrão da Cosa Nostra, um homem que chegou do nada, sem família conhecida ou amigos, conta o “The Guardian”.

E nem se pode dizer que o “chefe de todos os chefes” fosse propriamente discreto, pois sempre manteve o estilo de vida luxuoso que o caracterizava. Nunca poupou na ostentação, passeando pelas ruas com roupas caras, enquanto cumprimentava a vizinhança. Tampouco evitava ser reconhecido e costumava frequentar o mesmo café ou a mesma pizzaria.

Escondido desde 1993, a polícia italiana foi conseguindo, ao longo dos anos, capturar mais de uma centena de cúmplices de Messina Denaro, além de ter apreendido vários dos seus bens. Ainda assim, durante três décadas, nem sinal do “Diabolik” que um dia afirmou: “Enchi um cemitério sozinho”.

Os investigadores, com base em testemunhos de ex-mafiosos, acreditam que, além do seu último reduto em Campobello di Mazara, o ‘padrinho’ da Cosa Nostra terá passado também por Espanha, Reino Unido, Alemanha e pela América do Sul.

Um cartaz do ator Marlon Brando no filme “O Padrinho”, pedras preciosas e vários documentos foram encontrados pelos investigadores em três casas onde viveu Matteo Messina Denaro.