Sociedade

Carlos Nobre: “O acordo entre o Mercosul e a UE deve ter um papel muito relevante nas políticas de sustentabilidade”

28 dezembro 2022 8:44

Carlos Nobre é um dos cientistas brasileiros mais conhecidos do mundo e signatário do manifesto que defende uma parceria estratégica entre a União Europeia, o Brasil e o Mercosul

renato lopes

Carlos Nobre é um dos cientistas brasileiros mais conhecidos do mundo e um dos 44 signatários de um manifesto que defende uma parceria estratégica entre a União Europeia, o Brasil e o Mercosul (Mercado Comum do Sul) para a defesa do clima estável como Património Comum da Humanidade

28 dezembro 2022 8:44

O investigador sénior do Instituto de Altos Estudos da Universidade de São Paulo e membro da Royal Society (Reino Unido), é um dos cientistas brasileiros mais conhecidos do mundo devido à sua investigação pioneira das alterações climáticas. E é também um dos subscritores do “Manifesto Clima Estável Património Comum da Humanidade”.

Qual é a influência que o manifesto pode ter num novo acordo entre o Mercosul e a UE que não seja meramente comercial, mas que tenha em conta as questões ambientais e da biodiversidade, nomeadamente na Amazónia?
O Acordo entre o Mercosul e a União Europeia deve ter um papel muito relevante para que todos os países envolvidos tenham políticas e práticas de sustentabilidade nos seus modelos sociais, económicos e ambientais. O novo marco legal da UE para não importar ou exportar qualquer produto associado ao desmatamento em qualquer lugar do mundo deve ser implementado com enorme rigor no âmbito deste acordo. O manifesto coloca de forma veemente a importância de combater a emergência climática. Possivelmente o maior desafio já enfrentado pela Humanidade é atender às metas do Acordo de Paris de reduzir em 50% as emissões de gases de efeito estufa até 2030 e chegar a emissões líquidas zero antes de meados do século. Isto para não ultrapassarmos 1,5 graus de aquecimento global. No caso do Brasil, cerca de 50% das emissões têm origem nos desmatamentos, principalmente da floresta amazónica. Além de reduzir a zero os desmatamentos para combater a emergência climática, torna-se essencial também evitar que a Amazónia ultrapasse o ponto de não-retorno, que transformaria mais de 50% da floresta em ecossistemas degradados, com um impacto catastrófico na extinção de espécies da região com a maior biodiversidade do planeta. E que resultaria na emissão de mais de 200 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono, praticamente tornando impossível atingir as metas do Acordo de Paris.

Com a vitória de Lula da Silva, o Brasil vai ter de novo um papel importante na política internacional. A grande vantagem competitiva do Brasil, onde o país faz a diferença, poderá ser a liderança mundial nas questões ambientais e da biodiversidade, em especial no chamado Sul Global?
Na primeira gestão do Presidente Lula da Silva, de 2003 a 2010, o governo federal implantou políticas efetivas de redução dos desmatamentos e proteção da biodiversidade. Os desmatamentos da Amazónia caíram 83% entre 2004 e 2012. Agora, o Presidente eleito Lula da Silva já deixou muito claro que o seu novo governo irá combater eficazmente os desmatamentos e a degradação em todos os biomas brasileiros, e combater o crime ambiental que explodiu no Brasil nos últimos quatro anos. O Presidente Lula indicou Marina Silva como ministra do Meio Ambiente, que foi quem implantou as políticas ambientais do governo federal, quando ministra de 2003 a meados de 2008. O novo governo enfrenta desafios ainda maiores do que aqueles de 20 anos atrás. O crime ambiental explodiu em toda Amazónia, com ilegalidades na grilagem de terra, exploração de madeira, garimpo e tráfico de animais selvagens, entre outros. Tais ilegalidades são controladas pelo crime organizado. Mas há razões de otimismo com o novo governo, de fazer o Brasil retomar protagonismo do combate à emergência climática e proteção da biodiversidade e dos povos indígenas e comunidade locais. Dez anos atrás, o Brasil era o país como o maior índice de redução de emissões. O país deve servir de exemplo para todos os países tropicais de como criar trajetórias sustentáveis de desenvolvimento.

Como será possível construir um novo modelo económico e social que compense quem presta os serviços dos ecossistemas e contribui para preservar e restaurar a floresta da Amazónia, e que penalize quem a destrói?
O grande potencial socioeconómico da Amazónia está em manter a floresta em pé e na sua imensa biodiversidade. Os Sistemas Agroflorestais (SAF) trazem benefícios sociais e económicos para as muitas cooperativas que os operam, muitas delas formadas por antigos pequenos criadores de gado que restauraram pastagens degradadas com os SAF, produzindo um grande número de produtos da floresta. Tais sistemas prestam inúmeros serviços de ecossistemas, além de manterem a floresta com o seu imenso stock de carbono. Por exemplo, a reciclagem eficiente de água aumentando o volume das chuvas, mantendo temperaturas mais baixas e contribuindo para o transporte de vapor de água pelos ventos para fora da Bacia Amazónica - os chamados rios voadores -, alimentando sistemas pluviométricos em grande parte da América do Sul, um fator também essencial para a agricultura da região. O desafio é implementar uma inovadora bio-economia de floresta em pé em escala em toda Amazónia e com agregação de valor através da industrialização dos produtos da floresta para criar condições para uma sociedade de classe média. Estes são desafios que o governo de Lula da Silva, e também de outros países amazónicos, como o governo do Presidente Gustavo Petro na Colômbia, devem enfrentar como prioridades de políticas.