Sociedade

Maioria dos psicólogos trabalhou mais durante a pandemia

24 fevereiro 2022 0:14

Foto: GETTY IMAGES

Mais trabalho e menos desemprego, mas menos bem-estar e sinais de burnout. São estas as principais conclusões de um estudo realizado pela Ordem dos Psicólogos sobre as “condições socioprofissionais dos psicólogos face à pandemia”

24 fevereiro 2022 0:14

Entre algumas consultas presenciais e muitas à distância, a maior parte dos psicólogos trabalhou mais durante a pandemia. Segundo um estudo realizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, a que o Expresso teve acesso, cerca de 57% dos profissionais desta área viram o volume de trabalho aumentar.

De acordo com o estudo sobre as “condições socioprofissionais dos psicólogos face à pandemia”, em cerca de 24% dos casos o volume de trabalho “aumentou bastante” e em 33% “aumentou um pouco”. Um quarto dos inquiridos trabalhou o mesmo durante a pandemia, cerca de 11% trabalharam menos e 7% viram o seu volume de trabalho “reduzir bastante”.

O aumento do volume de trabalho parece refletir-se, desde logo, no número de psicólogos desempregados ou à procura de emprego na área. Se antes da pandemia 4,1% encontravam-se nessa situação, em 2021, ano a que reportam os dados, apenas 1,5% não tinham emprego. No entanto, desde o início da pandemia, 1,5% suspenderam a atividade por conta própria e 0,4% entraram em “layoff”. A maior percentagem de psicólogos continuou a trabalhar por conta de outrem com contrato permanente, sem variações significativas nos dois períodos de tempo comparados.

Cursos de longa duração diminuíram, aumentou participação em “webinars”

O estudo decorreu nos meses de setembro e outubro de 2021, tendo participado 1.759 psicólogos, a maioria da área da psicologia clínica e da saúde (61,0%). A segunda área com mais inquiridos é a psicologia da educação (30,6%), seguindo-se a psicoterapia (12,3%) e a psicologia comunitária. A área com menos inquiridos é a sexologia (1,1%).

Tal como noutras profissões, foi alargada a utilização de plataformas online, com apenas 7,9% dos profissionais a afirmar não ter dado consultas à distância. Antes da pandemia, essa percentagem fixou-se em valores muito mais elevados, com mais de metade dos psicólogos (51,9%) a responder da mesma forma. A videoconferência foi o serviço mais utilizado para estas consultas e intervenções. Apesar disso, a maioria dos psicólogos continua a preferir as consultas presenciais (68,1%).

Desde o início da pandemia, cerca de 84% dos inquiridos fez algum tipo de formação na área da psicologia, mas diminuiu a frequência de cursos de curta, média e longa duração. Pelo contrário, a participação em “webinars” e a “aprendizagem autónoma” aumentaram, assim como a participação em “atividades de estudo” e em “redes colaborativas e grupos de partilha”.

Quase metade dos psicólogos com menos bem-estar

Além do trabalho e da formação, também foi avaliado o impacto da pandemia no bem-estar destes psicólogos. Quase metade afirmou que piorou (49,9%) e cerca de 40% afirmaram que se manteve. Só em 10% dos casos o bem-estar melhorou. Quando se olha, em concreto, para o bem-estar psicológico, a matemática é outra, sendo mais os psicólogos que não reportaram alterações do que aqueles cujo bem-estar piorou. São as mulheres com menos de 35 anos, uma “situação financeira difícil” e mais trabalho que “estão em maior sofrimento psicológico”, sublinha o estudo.

Cerca de um quarto dos inquiridos (24,2%) apresenta, aliás, sintomas de burnout, contra cerca de 76% onde esses sinais não são visíveis. Mais uma vez, são as mulheres as mais afetadas, neste caso com idades entre os 35 e os 44 anos, com uma situação financeira “difícil ou muito difícil” e que viram o seu volume de trabalho aumentar muito durante a pandemia. Apesar disso, os psicólogos estão, “de um modo geral, satisfeitos” com a sua profissão. O que os deixa “mais insatisfeitos” são os salários e a progressão salarial.

E embora seja significativa a percentagem de psicólogos com sintomas de burnout, a maioria utiliza estratégias ou outros cuidados para melhorar a sua saúde, qualidade de vida, bem-estar psicológico e prevenção do desgaste profissional. São cerca de 87% e as principais estratégias que utilizam são conviver com amigos e família, manter uma boa higiene do sono e manter uma “atitude positiva no trabalho”.