Sociedade

Os alunos de Lisboa que nunca viram o rio

16 fevereiro 2019 0:00

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

nuno botelho

Há escolas que ficam sempre nos últimos lugares. Mas as notas não mostram o muito que é feito apesar do meio onde estão

16 fevereiro 2019 0:00

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotojornalista

Muitos dos alunos da escola básica do Alto do Lumiar, em Lisboa, nunca viram o rio nem acreditam que no centro da cidade haja um castelo. Muitos chegam de manhã às aulas sem terem comido, sem que ninguém em casa os tenha ido acordar e já depois de terem deixado os irmãos mais novos na creche porque as mães acumulam empregos e trabalham desde madrugada. Quando entram na escola, os vasos coloridos pendurados nas janelas não chegam para esconder a degradação de um edifício muitas vezes vandalizado.

Este é um dos estabelecimentos de ensino que aparecem repetidamente nos últimos lugares dos rankings. Entalada entre bairros sociais, a escola que tem o maior número de alunos de etnia cigana em Lisboa e que se orgulha de não recusar nenhuma matrícula não foi além de uma média de 37% e está na 6ª pior posição da tabela que ordena as quase mil básicas públicas e privadas de todo o país com base nas notas dos exames. E nos últimos cinco anos esteve quatro vezes entre as 20 médias mais baixas.

“Quando estão dois graus cá fora e as salas de aulas têm janelas partidas e não têm aquecimento, que motivação podem ter estes alunos num sítio onde nem sequer estão confortáveis? Eles sentem que já foram abandonados, às vezes até pela família, que a vida desinvestiu neles, que não prestam e que são sempre os últimos. E depois veem o estado da escola. Não têm um único local confortável onde estar”, descreve a diretora do agrupamento, Maria Caldeira.

Muitos dos alunos da escola vivem no bairro das Galinheiras, na Ameixoeira, onde foram realojadas famílias de etnia cigana e colocados clãs contrários nos mesmos lugares. “Isso reflete-se na escola e cria constrangimentos, seja pela violência ou pela necessidade de mudança de alunos de turma. Se houver uma rixa no bairro durante o fim de semana, na segunda-feira os miúdos pegam-se na escola”, conta a responsável. “Em 2009, havia 60 meninas ciganas no bairro totalmente analfabetas. Levámos dez anos para conseguir trazer estes alunos para a escola. Mas temos de ser realistas, não podemos esperar que de repente passem de uma situação de abandono escolar para ser assíduos, pontuais e com bons resultados académicos.” A maior conquista é conseguir tê-los na escola, mesmo que seja fora das aulas.

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