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A História como nunca a viu conta-se no "Coliseu"

A História como nunca a viu conta-se no "Coliseu"

A nova série documental do Canal História conta a ascensão e queda do Império Romano em oito capítulos. Estreia-se esta segunda-feira

Catarina Brites Soares

A grande diferença face a outras produções é que aqui o protagonista não é um imperador, um gladiador ou um mártir, mas um edifício. Retratar aquele que foi certamente o maior império da História da Humanidade a partir do Coliseu é notável”, considera Sergio Ramos, vice-presidente de programação da AMC Networks, na apresentação da nova série do Canal História. O formato não foge ao que é hábito no canal: voz off, depoimentos de especialistas em registo de entrevista e imagens que procuram reconstruir momentos e ambiente.

De dentro e do que resta do Coliseu, não há registos gravados pela equipa e as reconstruções nem sempre resultam. Falta-lhes realismo e a limitação acaba por nos lembrar o que seria expectável esquecermos nos 50 minutos que dura cada parte: que somos só espectadores e não fazemos parte daquele tempo, mundo e contexto. “A série assenta fundamentalmente na recriação, é um documentário ficcionado. Lembrem-se que foi gravada durante a pandemia”, justifica Ramos. “É muito difícil filmar dentro do Coliseu, incluindo porque há escavações e trabalhos arqueológicos contínuos”, acrescenta Ángeles Castellano, chefe do Departamento de Antiguidades Gregas e Romanas do Museu Arqueológico Nacional espanhol, e também presente no evento de lançamento em Madrid.

Apesar do registo algo ultrapassado face ao que se faz hoje em televisão e documentário — e assim comprometendo alargar o público para lá do que já é fiel à linguagem —, não deixa de ser potente. Afinal de contas, como recordam os especialistas que intervêm, o Coliseu foi símbolo de conquista; de domínio e de poder imperial; a mensagem de que a vida é um combate; um aviso judicial: que ninguém teste o poder de Roma; e o palco onde escravos se tornavam heróis. A equação era simples. Só havia duas variáveis para quem combatia no Coliseu: a liberdade ou a morte. Há uma exceção, e mais não revelamos. “Está tudo no Coliseu”, frisa um dos historiadores. “O sangue, a glória, a magnificência e os defeitos que fizeram de Roma o maior império que a Europa conheceu.”

Jerry Toner, Barry Strauss e Alexander Mariotti, além dos arqueólogos Darius Arya e Jeannette Plummer, e dos professores T. Corey Brennan e Alison Futrell sustentam a narrativa dos oito episódios, sem previsão para mais, dedicados às várias facetas e fases do maior anfiteatro do mundo. Produtores defendem que a série é imperdível. Não bastasse debruçar-se sobre um período fundamental da génese da civilização ocidental; de Roma ter deixado um legado do qual ainda hoje persiste o Direito, Calendário além dos monumentos; há também a proximidade. A história do Coliseu é a da capital do império, e essa é a de Portugal e Espanha. Ángeles Castellano sublinha: “Somos Roma.” A conservadora recorda que são vários os resquícios do império dentro das fronteiras luso-espanholas. “Espanha é Roma e uma das províncias mais importantes da capital do império. Havia gladiadores no país, os que eram naturais, os de fora mas que viviam, trabalhavam e lutavam aqui, mártires, e certamente alguma gladiadora além de médicos. O único que não tínhamos, e se vê na série, é um imperador numa arena.”

Tal como o Império, o Coliseu também foi “do grito ao silêncio”, resume. De edifício monumental passou a ruínas, e a decadência reflete o que se passava no seio de um poder que se estendeu pelo que é hoje Europa, África e Médio Oriente. A série atravessa vários séculos, de forma cronológica, para explicar a centralidade do edifício, os desafios da sua construção mas também os que fizeram dele um acontecimento. Roma tinha mais de um milhão de habitantes. O Coliseu albergava 50 mil espectadores.

O Museu Arqueológico de Nápoles, a Câmara Municipal de Roma, o Parque Arqueológico do Coliseu e o Ministério Italiano do Património Cultural foram algumas das entidades que colaboraram para reconstruir com rigor o que se passava na arena. “As lutas de feras tinham lugar pela manhã. A de gladiadores pela tarde e ao meio-dia davam-se a comer aos animais ladrões e cristãos. Estava tudo organizado”, contextualiza Ángeles Castellano. A morte e a violência como espetáculo. Não havia espaço para misericórdia e a série espelha a brutalidade. Será frequente que os mais sensíveis tenham de virar a cara. E várias vezes.

O combate entre Prisco e Vero é um exemplo. Os gladiadores deviam bater-se até à morte, mas o desfecho foi outro. Todos são personagens verídicos e incontornáveis na vida do Coliseu. Haterio à cabeça. Depois de erguer o edifício, havia de enfrentar outro repto. Não havia limites para os desejos magnânimos do imperador, neste caso Domiciano, e não cumpri-los poderia significar a morte.

Também se fala das feras, tão imprescindíveis na arena como os homens. A multiplicidade de espécies que ia aparecendo era indicadora da expansão: girafas, rinocerontes, elefantes e leões vinham de destinos longínquos por meio das rotas comerciais que se iam desenhando. Tinham de estar treinadas para entrar no campo de batalha com ânsia de matar, o que fazia dos domadores outra das peças-chave. Carpóforo foi dos mais célebres. Ficou conhecido por ter de enfrentar 20. Terá sobrevivido? A série “Coliseu” responde. Ignacio de Antioquia protagoniza ‘O Mártir’, antepenúltimo episódio, que reflete o Cristianismo como outra das ameaças ao poder imperial.

As mulheres participam igualmente da história em que por norma não entram, pelo menos como lutadoras. “Coliseu” só se lhes dedica um episódio, ainda assim revelador. Afinal, combatiam e não eram somente as da plebe. “Também gostaria de saber mais sobre as personagens femininas que passaram pelo Coliseu”, realça Ángeles Castellano. “Sabemos que havia de certeza, mas a história dos gladiadores está escrita por homens e para homens. Havia mulheres assim como imperadores que desciam à zona de combate, mas não deixam de ser exceções. A figura comum é a do homem”, esclarece. É no quarto capítulo que aparece ‘A Gladiadora’, como se intitula o episódio. Mevia tornou-se célebre por ter sido a primeira que abdica da liberdade para lutar. Aconteceu na era de Trajano, no ano 107 dC, quando os grandes jogos desse ano romperam com a tradição e incluíram um combate de mulheres. Normalmente eram prisioneiras. Mevia foi uma exceção.

O primeiro episódio da série abre com a inauguração do Coliseu pelo imperador Tito, no ano 80 dC, com cem dias de jogos promovidos por um líder inseguro. ‘Pão e circo’ era a fórmula para manter e conter o povo. O Coliseu fazia parte da segunda e com a festa se evitavam revoltas. “Ao longo de quase dez anos, comprovei que há certos momentos, conflitos e personagens que provocam um fascínio quase automático e quando parece que já não há nada de novo que se passa contar, neste caso sobre o Império Romano, o Canal História mostra que sim, e sob uma perspetiva original”, afirma Sergio Ramos.

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