Teatro

Teatro: “Tudo Sobre a Minha Mãe” ou tudo sobre a verdade?

14 janeiro 2023 14:04

Se existe um final feliz, ele decorre desta espécie de justiça afetiva que, nos piores momentos, nunca se ausenta da vida das personagens

estelle valente

“Tudo Sobre a Minha Mãe”, peça de teatro inspirada no filme de Almodóvar, recria a ideia de família e de estrutura familiar a partir de uma rede de afetos e de verdade. No Teatro São Luiz, até dia 22

14 janeiro 2023 14:04

Tudo Sobre a Minha Mãe” é um filme de Pedro Almodóvar que foi estreado em 1999, com grande êxito de crítica e de bilheteira. No final existe uma dedicatória do realizador: a Bette Davis, a Gena Rowlands e a Romy Schneider. E ainda, de maneira mais extensa, “a todas as atrizes que fizeram de atrizes, a todas as mulheres que atuam, aos homens que atuam e que se convertem em mulheres, a todas as pessoas que querem ser mães. À minha mãe”. Em 2007 foi estreada, em Londres, a peça de teatro “Tudo Sobre a Minha Mãe”, de Samuel Adamson. Com o mesmo título do filme, é também uma recriação dramática do mesmo. Do ponto de vista das personagens e dos conteúdos, a peça é fiel ao filme. O que se altera é, algo previsivelmente, a estratégia narrativa, que decorre da especificidade de cada médium: ao cinema o que é do cinema, ao teatro o que é do teatro.

É, aliás, um aspeto salientado por Daniel Gorjão, o encenador. Se o seu apreço pelo filme de Almodóvar está fora de questão, não foi o filme que ditou a sua leitura da peça e a sua encenação. Ao teatro pertence um registo próprio, na maneira de contar, no tipo de representação, no trabalho das e dos artistas que integram o espetáculo. A cenografia, por exemplo, é nesta versão muito depurada, até nas cores utilizadas, cujas manchas mais berrantes estão, essencialmente, nos figurinos: coloridos, exuberantes, quase como se “saídos de uma passadeira vermelha”. No cerne da narrativa estão Manuela e o seu filho Esteban. Ela é enfermeira, ele quer ser escritor e vai fazer 17 anos. Vão ao teatro ver a grande atriz Huma Rojo em “Um Elétrico Chamado Desejo”, de Tennessee Williams; é o presente de aniversário de Manuela a Esteban. No fim, ele quer um autógrafo, e quando tenta falar com a atriz, que se mete num carro, sem falar com ele e sem lhe dar o autógrafo, é atropelado e morre.