Música

Eterna curiosidade. o que nos revela o décimo álbum de Björk

30 setembro 2022 13:35

Mário Rui Vieira

Mário Rui Vieira

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Jornalista

Björk pega no mundo, e nos ensinamentos da natureza, para lidar com as tragédias que se abatem sobre si

vidar logi

Björk escava as profundezas da sua criatividade para encontrar canções térreas, nascidas do luto mas enraizadas no ciclo renovador da vida

30 setembro 2022 13:35

Mário Rui Vieira

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Jornalista

Björk tem persistido, desde a década de 90, como uma das vozes mais peculiares e excitantes da pop. Facto indiscutível. Depois de se libertar da teia pós-punk dos Sugarcubes, a banda que apresentou a sua voz ao mundo, ouvimo-la estrear-se em nome próprio com ‘Human Behaviour’ e seguir à letra, desde então, a mensagem dessa sua primeira canção: “Se, por acaso, se aproximarem de um ser humano e do comportamento humano, preparem-se para ficar confusos.” É emaranhada no caos da natureza humana que tem criado as suas grandes canções. Da guerrilha de ‘Army of Me’ à sensibilidade de ‘All Is Full of Love’, passando pela dilaceração de ‘Hyperballad’, quem a ouve dificilmente escapa à humanidade que transpira da sua arte. Três décadas volvidas, a eterna curiosidade da artista islandesa continua a permitir-lhe que se destaque num cenário bem mais competitivo do que aquele que encontrou quando entrou em cena — o maravilhoso universo da pop está hoje, felizmente, bem servido de excentricidade. Essa curiosidade traz consigo não só uma forma muito própria de explorar (e esticar) os limites da sua arte como uma necessidade contínua de encontrar algo que a mantenha entusiasmada na hora de criar música. “Fossora”, o décimo álbum de um percurso sem passos em falso, poderá não ser o disco mais disruptivo ou ‘fora de pé’ que já gravou, mas não deixa por isso de estar enraizado na mais pura das vontades de expandir os seus horizontes e, pelo caminho, os daqueles que a escutam — como o compatriota, e baixista dos Sigur Rós, Georg Hólm, nos admitiu recentemente: “Ela chegou e tornou-se um incrível furacão de criatividade.”

Cinco anos depois de, em “Utopia”, se libertar das sombras de “Vulnicura”, que assume ter sido o seu “álbum de luto” — enquanto retrato do final da sua relação com o artista norte-americano Matthew Barney —, Björk apresenta “Fossora” como materialização do seu “período dos fungos”. “Um álbum assente nas raízes das árvores seria bastante severo e austero, mas os cogumelos são psicadélicos e nascem em toda a parte”, explica a artista em entrevista ao site “Pitchfork”, depois de revelar que “Fossora” é uma palavra inventada por si: “É o feminino de fossore, que significa ‘escavador’, portanto, resumindo, significa ‘aquela que cava’ o solo.” Apesar de, como todos os seus álbuns, estar assente num conceito muito claro e específico, pelo menos na sua cabeça, “Fossora” parte, com liberdade poética, da ideia da capacidade transformadora e regeneradora dos fungos para seguir num ziguezague de emoções, intensificado pelo trabalho omnipresente de um sexteto de clarinetes baixo e a forte contribuição da dupla indonésia de eletrónicas experimentais Gabber Modus Operandi (particularmente sentida nas batidas intrigantes de ‘Atopos’ ou ‘Fungal City’, que conta, também, com a contribuição vocal de Serpentwithfeet). Na mente de Björk esta ligação poderá não fazer grande sentido, mas a dureza instrumental de “Fossora” (o seu som é descrito pela própria como ‘tecno biológico’) e a sua humanidade levam-nos de volta a “Medúlla”, de 2004, que permanece até hoje um dos capítulos mais inabaláveis e, curiosamente, dos mais impenetráveis da sua discografia. O que isso significa, e falamos agora para quem se deixou arrebatar pelas eletrónicas mais elaboradas de discos como “Homogenic” (1997), “Volta” (2007) ou mesmo “Vulnicura” (2017) — que deu início a uma revitalizante colaboração com Arca, continuada em “Utopia” —, é um certo esvaziamento do binómio eletrónico-orquestral, em detrimento de uma sonoridade mais madura, que parece ter perdido a sua aguçada sensualidade algures pelo caminho.