Cinema

Cinema: em “Crimes do Futuro”, a cirurgia é o novo sexo

Saul Tenser (Viggo Mortensen), produtor de novos órgãos, e a sua parceira Caprice (Léa Seydoux), que os extrai, são os protagonistas

Este é o filme com que Cronenberg regressa ao território onde se afirmou. Em “Crimes do Futuro”, pratica um cinema que é mais do domínio do fantástico que da ficção científica

24 novembro 2022 10:48

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

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Jornalista

É no futuro, está no título. E desde a primeira imagem que percebemos ser um futuro onde talvez não gostemos de viver, ao mesmo tempo que nos damos conta de não estarmos num verdadeiro futuro, no sentido premonitório de serem provavelmente assim, nesse indeterminado devir, as casas, os utensílios, as vestes, os rostos, a tecnologia, os modos das pessoas.

Cronenberg pratica um cinema que é mais do domínio do fantástico que da ficção científica, os seus universos estão tão próximos do surrealismo que criam uma realidade alternativa que se avizinha de nós como um parasita a tentar fagocitar-nos a alma.

Este é um universo onde a dor desapareceu da experiência humana e novas patologias físicas e mentais emergiram. Algumas pessoas começaram a sofrer do Síndroma de Evolução Acelerada

Neste caso é um universo onde a dor desapareceu da experiência humana e novas patologias físicas e mentais emergiram. Primeira patologia: algumas pessoas começaram a sofrer do Síndroma de Evolução Acelerada que provoca que o corpo comece a produzir novos órgãos, de função obscura. Esse facto teve uma miríade de consequências.

Alguns dos pacientes desenvolveram formas de adaptabilidade ao meio ambiente sobrecarregado de detritos tecnológicos. Há quem consiga alimentar-se de plásticos; é uma nova era, uma nova tribo, uma nova estirpe de transumanos. Há quem use esses órgãos para se exibir em performances cirúrgicas, espetáculos públicos cada vez mais populares.

É o caso da dupla de protagonistas, Saul Tenser/Viggo Mortensen produtor de novos órgãos que a sua parceira Caprice/Léa Seydoux extrai, vedetas maiores de uma espécie de pornografia ao vivo em que o corpo não é apenas penetrado, é perfurado, aberto, explorado por bisturis comandados a partir de uma consola com forma de inseto de carapaça mole.

A cirurgia, diz-se algures, é o novo sexo — e Cronenberg filma uma extração tumoral do abdómen, numa cama de um dispositivo que a Lifeform Ware concebeu, em tempos idos, para autópsias, como se fosse uma prática orgástica. Segunda patologia: naquele universo já não há padrões morais. Sim, uma mãe que mata um filho ainda vai parar à cadeia, fora isso, faça a polícia o que fizer, os graus de liberdade com que as pessoas se relacionam e interagem estão muito além dos tabus e interditos que costumamos tomar como correntes. Quando o corpo deixou de ser um contentor onde se penetra por vias limitadas, tudo é possível.

Estamos num território que fascina e faz medo, provoca horror e vontade de pensar aceleradamente, queremos olhar para outro lado e não conseguimos tirar os olhos do ecrã, porque nunca tínhamos imaginado nada assim, o território não tem mapa nem GPS para orientação, não fazemos a menor ideia onde iremos dar na viagem ficcional sem antes nem depois, só agora. Sim, é uma experiência para audaciosos, tanto melhor quanto menos memória houver do cinema anterior de Cronenberg. Porque — destino do escriba que assina estas linhas e viu tudo — o que há de mais visionário e perturbante em “Crimes do Futuro”, já estava em múltiplos momentos da sua obra.

O sexo ligado a corpos que se mutilam era o tema de “Crash” (1996), a utilização de espaços cenográficos obsoletos, degradados, sujos, a enformar uma sociedade hipertecnológica já estava em “eXistenZ” (1999), filme onde ainda podemos ir buscar utensílios com formas orgânicas. Neste capítulo, nada exceda “O Festim Nu” (1991)

O sexo ligado a corpos que se mutilam era o tema de “Crash” (1996), a utilização de espaços cenográficos obsoletos, degradados, sujos, a enformar uma sociedade hipertecnológica já estava em “eXistenZ” (1999), filme onde ainda podemos ir buscar utensílios com formas orgânicas, embora, neste capítulo, nada exceda o que o cineasta nos legou quando mergulhou no universo de William S. Burroughs, em “O Festim Nu” (1991). O abdómen com uma fenda de acesso livre faz lembrar “Experiência Alucinante” (1983) com as videocassetes enfiadas nas entranhas de James Woods.

Até a ideia de um concurso para avaliar a beleza interior dos corpos já fora formulada no enigmático e pavoroso “Irmãos Inseparáveis” (1988), onde Jeremy Irons interpretava dois irmãos gémeos ginecologistas que tinham desenvolvido uma panóplia de instrumentos — arrepiava só de imaginar para o que serviriam...

Temos então: nada de novo? Nada de novo. Ao aproximar-se das oito décadas de vida e com mais de 50 anos a fazer cinema, David Cronenberg regressa ao território onde se afirmou — o das ficções em que o horror se escora nas mutações dos corpos — para nos dar uma espécie de súmula, de revisão da matéria dada — com imenso garbo. E sempre — sempre — aquele finíssimo humor e aquelas imprevisíveis mulheres que dão o que nós nem sabíamos que podiam prometer. Com berbequins e tudo, pois claro! b