A Revista do Expresso

A pobreza é uma doença: “comportamento à pobre” é um conjunto de sintomas do campo da saúde mental

20 janeiro 2023 8:34

Através da revolução da epigenética, uma nova neurociência da pobreza mostra-nos que a miséria extrema é sobretudo a manifestação de um grupo de doenças mentais. A pobreza pode ter um tratamento ou mesmo uma cura

20 janeiro 2023 8:34

Todos nós temos rastilhos que fazem explodir bombas de stresse. Imaginemos, por exemplo, uma crian­ça que vai ao centro de saúde tomar a vacina e que sente ali um incontrolável pico de medo, ou seja, o seu cérebro é invadido por um influxo de cortisol, a hormona do stresse que nos coloca no estado na natureza, o estado da sobrevivência, que induz as reações extremas dos três F: fight, flight, freeze (lutar, fugir, paralisar). Só que, assim que a tarefa complicada é realizada, o pico de stresse desaparece e a criança regressa aos seus padrões normais. Sobra, no entanto, uma questão fundamental: o que acontece quando o pico de stresse não desaparece? O que acontece quando o cortisol é uma constante na criança? Como salienta Andrea Elliott em “Invisible Child — Poverty, Survival and Hope in New York City” (2021), Pulitzer e clássico instantâneo sobre a miséria, uma crian­ça pobre vive num permanente pico de stresse. O cortisol não aparece de vez em quando, está lá sempre. A criança de classe alta ou de classe média sai do centro de saúde e deixa lá o medo e, desse modo, regressa biológica e quimicamente aos níveis normais, o que permite o desenvolvimento normal do seu cérebro. A criança pobre sai da vacina mas permanece no medo e no stresse, porque é perigoso voltar para casa, porque a sua rua é perigosa, porque a sua casa é péssima (ou enregela no inverno ou sufoca no verão), porque ouve os vizinhos a berrar, porque não sabe se tem jantar porque o pai está preso e/ou porque a mãe não chegou do segundo ou terceiro trabalho, porque não tem um quarto sossegado onde possa fazer os trabalhos de casa, porque não sabe o que vestir no dia seguinte porque a roupa está toda suja ou ainda molhada, porque a sua vida é sempre este carrossel imprevisível... O seu espírito nunca sossega. Pior: esta escassez de paz de espírito acaba por criar um cérebro que é biológica e quimicamente diferente, um cérebro mais propenso a cometer erros nas escolhas; um cérebro sempre inundado com as hormonas do stresse torna muito mais difícil a ação do livre-arbítrio e do juízo. Não, não anula a consciência humana. Não, o pobre não é um ser inimputável. Mas essa agência racional fica de facto mais difícil num cérebro quimicamente reconstruído pelas hormonas do stresse. Se há o famoso fog of war a encobrir as decisões do soldado, também há um fog of poverty a encobrir neurologicamente as decisões do pobre.

O que está aqui em causa é uma revolução cognitiva sobre a pobreza, que, por sua vez, abre uma revolução epistemológica sobre a tensão moderna entre genética e livre-arbítrio e sobre a tensão clássica entre espírito e matéria. Aliás, se esta ciência mantiver a sua solidez, este é um momento difícil para os materialistas, sejam eles darwinistas, marxistas e socialistas e até liberais da linha utilitarista, porque é bastante claro que os idealistas — como eu — tinham e têm razão no sentido em que o espírito tem mesmo efeito sobre a matéria através de uma linguagem central da natureza: a química, ou melhor, os canais químicos do corpo e do cérebro.