Política

Luís Montenegro aponta o relógio a António Costa: “É hora de mostrar o que vale.” E admite ir a Belém pedir novas eleições

25 janeiro 2023 23:13

Luís Montenegro

manuel de almeida/lusa

No discurso de abertura do Conselho Nacional, o líder do PSD deixou recados para fora, mas também para dentro. Se o primeiro-ministro “não estiver à altura”, irá ao Presidente da República pedir eleições antecipadas. E, se for preciso, o partido apresentará uma moção de censura, mas “com consequência”

25 janeiro 2023 23:13

“Dr. António Costa, esta é a sua hora de mostrar o que vale, é a hora de ser merecedor da confiança que recebeu dos portugueses. Dr. António Costa, esta é a sua hora.” Em jeito de desafio, como quem dá uma última oportunidade ao primeiro-ministro para causar uma boa impressão, Luís Montenegro deixou claro que se Costa “não estiver à altura da sua hora”, o PSD fará o que lhe compete junto de quem de direito: o seu líder irá ao Presidente da República dizer “por A mais B” que já não há condições para o Governo continuar em funções.

No discurso que abriu o Conselho Nacional desta quarta-feira, num hotel de Lisboa, Montenegro garantiu que “o PSD está sempre preparado” para disputar eleições e que “o líder está sempre preparado para ser primeiro-ministro, sempre”. Em resposta aos críticos de fora, mas também aos de dentro do partido, arrancou assim o mais forte aplauso dos conselheiros. O partido agirá sem “manobras de diversão” e sem preocupação com “quem chega primeiro”, assegurou.

Mais: “se for preciso concretizar com uma moção de censura, será com consequência”, numa referência à moção apresentada pela Iniciativa Liberal em que o PSD se absteve. O sentido de voto foi criticado por outros partidos da oposição e levou dois deputados sociais-democratas, André Coelho Lima e Carlos Eduardo Reis, a apresentarem uma declaração de voto em que defendiam que o partido deveria ter votado a favor. Sem referir o par de deputados e outros que foram manifestando, em surdina, o seu desacordo relativamente à orientação de voto, Montenegro atirou: “Alguém pensa, com bom senso, que é o PS que vai tirar o tapete ao PS? O Governo [que dispõe de maioria absoluta] não cai na Assembleia da República.”

A “máquina de propaganda” que “não pára de tentar atirar o PSD para a lama”

Num registo bastante aguerrido e levantando frequentemente a voz, Montenegro referiu-se ainda à “máquina de propaganda” do PS, do Governo e dos “interesses”, que “não pára de tentar atirar o PSD para a lama”. Foi uma mais do que provável referência, ainda que velada, à “Operação Vórtex”, que já levou à exoneração de Joaquim Pinto Moreira, amigo de longa data, da vice-presidência da bancada parlamentar e da presidência da comissão de revisão constitucional. “Não me intimidam, nem intimidam o PSD. Estamos aqui para lutar por Portugal até à última gota do nosso esforço”, assegurou. Além disso, governar “não é hoje a responsabilidade” do PSD, mas há de “ser um dia” e “isso já se percebeu”. E, de novo, para dentro: “Tenhamos sangue frio, paciência e inteligência emocional. Não nos deixemos levar por ímpetos repentinos. Nós somos diferentes.”

Nos 40 minutos da alocução, Montenegro voltou a destacar “o conjunto inesgotável de confusões e descoordenações no Governo”, desferindo ataques mais personalizados contra o ministro das Finanças, o ex-ministro das Infraestruturas e o ministro dos Negócios Estrangeiros. “Fernando Medina diminui-se politicamente” no lento deslindar do caso a envolver a ex-secretária de Estado do Tesouro que recebeu uma indemnização de meio milhão de euros da TAP. “Se o ministro não sabia, é de uma ligeireza total. Se sabia, é uma falta à verdade.”

Mas, com este Governo, “nunca sabemos se a memória não se vai avivando com o passar do tempo”, disse, numa referência ao ex-ministro Pedro Nuno Santos, que entretanto revelou que “não só sabia [da indemnização], como anuiu”. E quanto ao ministro João Gomes Cravinho, que transitou da Defesa para os Negócios Estrangeiros, Montenegro disse que “os indícios de que há qualquer coisa mal explicada são mais que muitos” relativamente à derrapagem no custo das obras no antigo Hospital Militar de Belém.

Costa “a brincar com a governação”, a sondagem e a confiança de Moedas

Entre os casos que “afetam a credibilidade do Governo”, o líder do PSD destacou “outra perplexidade”. Contexto: a secretária de Estado da Agricultura cessou funções no dia em que foi defendida pelo primeiro-ministro e depois de o Presidente da República aludir à ausência de condições para se manter no cargo. E a perplexidade: “Ainda não se sabe quem a substitui. É caso para perguntar se ninguém passou no questionário”, afirmou Montenegro, arrancando risos e aplausos dos conselheiros. Também no que respeita ao questionário para candidatos a governantes, Montenegro sentenciou que Costa “anda a brincar com a governação e com a sua própria autoridade como primeiro-ministro”.

A poucos dias de se completar um ano sobre as últimas eleições legislativas, que se assinala na próxima segunda-feira, “o que sobrou deste ano”? Montenegro perguntou e deu a resposta: os últimos 12 meses tiveram “a marca do desnorte, da incapacidade, da falta de liderança, do desmerecimento da confiança” dos eleitores que deram ao partido do Governo uma maioria absoluta. Em contraste, descreveu, o PSD tem estado na “linha da frente”: com o Programa de Emergência Social, com as alterações ao Orçamento do Estado e com “o projeto mais credível de revisão constitucional”.

Este é “um dia muito, muito especial”, começou por dizer o presidente do PSD na sua intervenção. E não, não se referia à sondagem da Pitagórica que coloca o seu partido à frente do PS pela primeira vez desde 2017. O dia é especial porque esta quarta-feira o Executivo iniciou em Castelo Branco o “Governo Mais Próximo”, num registo semelhante ao que o PSD começou em setembro, com o périplo “Sentir Portugal”. “Uma iniciativa que podíamos designar ‘Sentir Portugal 2’”, gracejou, acrescentando que, “como qualquer cópia, é pior do que o original”, ainda que tenha descrito como “muito positivo que o Governo vá à rua”.

Só no final aludiu, sem concretizar, à sondagem. “Não me deprimo com maus estudos de opinião, nem me entusiasmo quando são bons.” E ainda: “Estarei aqui enquanto o partido quiser. Jamais quererei governar se não merecer a confiança maioritária. No dia da avaliação final, cá estarei para assumir as responsabilidades.”

Na reunião que se seguiu e que decorreu à porta fechada, Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, disse que “a escolha é entre as artimanhas do PS e mudar o país com o Luís Montenegro que todos apoiamos”. Ao que o Expresso apurou, o autarca e conselheiro nacional dirigiu-se ainda diretamente ao líder do PSD e afirmou: “Tu estás a mudar o partido, estás a ouvir as pessoas, estás a chamar gente ao partido, e estamos unidos porque tenho a certeza de que serás o próximo primeiro-ministro.”

À chegada ao Conselho Nacional, Montenegro e Moedas desceram juntos as escadas de acesso à sala no que pode ter sido um encontro fortuito ou mais uma tentativa de esvaziar a especulação à volta de uma vaga de fundo para o autarca da capital se atravessar no caminho do atual líder. Mas esta reunião do órgão máximo entre congressos serviu também para Montenegro reconhecer, em definitivo, a existência de fissuras internas e sublinhar que não se desviará do rumo que traçou.