Política

Montenegro diz-se “solidário” com ministro da Economia, “triturado pela máquina socialista”

23 setembro 2022 0:34

O presidente do PSD, Luis Montenegro, durante a visita ao Parque da Ciência e Tecnologia de São Miguel

eduardo costa

Além de concordar com a proposta do ministro de reduzir o IRC, o presidente do PSD considera “verdadeiramente notável” que o governante tenha sido desautorizado, “em público”, pelo ministro das Finanças, por dois secretários de Estado e pelo líder parlamentar do PS. E garante que a sua solidariedade não é “hipocrisia política”

23 setembro 2022 0:34

O presidente do PSD enviou dos Açores “uma palavra de solidariedade” com o ministro da Economia. A declaração provocou risos entre a plateia que assistia ao jantar-conferência que encerrou o 1º Encontro Interparlamentar do partido em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel. Mas Luís Montenegro declarou esta quinta-feira estar a falar “francamente”. Veio isto a propósito de o ministro António Costa Silva ter considerado que seria “extremamente benéfica” uma redução transversal do IRC, apenas para ir sendo desautorizado por colegas do Governo e pelo líder parlamentar do PS. “Nós não nos conhecemos”, prosseguiu Montenegro, mas a palavra de solidariedade é na “substância” e na “forma”.

Solidariedade na substância porque nós concordamos com ele na necessidade de baixar a carga fiscal sobre as empresas para tornar o investimento mais atrativo”, começou por justificar. “E também solidariedade na forma porque, sendo ele uma personalidade independente que aceitou ir para um governo, ainda por cima monocolor e de maioria absoluta, estar a ser triturado pela máquina socialista, merece, do ponto de vista democrático, mesmo dos seus adversários, como é o nosso caso, uma palavra de solidariedade – e coletiva”, acrescentou, entre aplausos.

Para Montenegro, é “verdadeiramente notável” que depois de o ministro se pronunciar, tenham vindo “um ministro – por acaso, o das Finanças –, dois secretários de Estado, incluindo o da própria Economia, e o líder parlamentar do PS” desautorizá-lo “em público”. E logo quem é “o detentor da batuta da política económica”.

Dizendo-se consciente de que isto poderá ser lido como “cinismo” ou “hipocrisia política”, o líder do PSD garantiu que não é disso que se trata. “Não vi até hoje ninguém a ser solidário com o ministro da Economia. Discordo dele em muitas coisas e discordo da política global que tem para o país, mas sou solidário nesta medida em particular”, insistiu. “E também porque acho que não é justo que, dentro de um governo, se trate assim quem tem a autoridade, cada vez mais colocada em causa, para conduzir a política económica.”

A intervenção de Montenegro focou-se essencialmente numa análise comparativa entre o que descreveu como o sucesso do Governo Regional dos Açores e o fracasso do Governo da República. Recorde-se que em outubro de 2020, José Manuel Bolieiro, que neste jantar-conferência falou antes do presidente do PSD, se candidatou às eleições legislativas regionais, nas quais o PS foi o partido mais votado, elegendo 25 parlamentares mas perdendo a maioria absoluta. O PSD, o CDS-PP e o PPM, que juntos representam 26 deputados, assinaram um acordo para formar governo, contando ainda com o apoio parlamentar do Chega e da Iniciativa Liberal – e pondo, deste modo, fim a 24 anos de governação socialista nos Açores. Bolieiro tornou-se assim presidente do Governo Regional e, desde então, tem conhecido vários sobressaltos, sobretudo vindos do Chega, partido que elegeu dois deputados regionais mas cedo perdeu um deles (que passou a independente) e recorrentemente ameaça rasgar o acordo que assinou.

“A confusão reina” no Governo de Costa, que está “em roda livre”

O presidente nacional do PSD elogiou “a capacidade agregadora, a serenidade, a convicção, a inteligência política, a forma genuína de compreender e tratar os outros, a experiência e a vontade” do líder regional. Essas qualidades, defendeu Montenegro, têm permitido a Bolieiro, em “circunstâncias absolutamente complexas”, “gerir um encontro de cinco partidos”, de “cinco sensibilidades”, e, “com esta diversidade”, “oferecer estabilidade”. Mesmo quando “os interesses se entrecruzam”, uma vez que cada partido tem “a sua função, a sua missão, a sua responsabilidade, a sua legitimidade perante os seus eleitores” e, ainda assim, há “esta capacidade de juntar, coordenar, estruturar e liderar o funcionamento das instituições”. O contraponto é o Governo de António Costa, que é de “um só partido” e dispõe de “uma maioria absoluta”, mas onde “infelizmente a confusão reina” e está “absolutamente em roda livre”.

Neste ponto, Montenegro voltou ao tema das pensões para sublinhar que o primeiro-ministro não teve “a coragem, que foi precisa aqui nos Açores”, para dizer a verdade. E para reconhecer que teve de inverter a marcha depois de, “há dois meses, numa televisão”, ter dito que “a lei de atualização das pensões era para cumprir, que aliás as leis são todas para cumprir e que Portugal ia ter um aumento histórico das pensões”. O líder social-democrata identificou aqui “aquela pompa socialista”, de que o país “bem se lembra” de outros governos do PS, “um que caiu num pântano e o outro na bancarrota”. Mas, na verdade, Costa “tinha razão”: “o aumento é histórico porque não cumpre a lei que disse que ia cumprir e isso, de facto, faz história, só isso faz história”. Em jeito de conclusão, Montenegro declarou que “este Governo não é merecedor da confiança que o povo lhe atribuiu” porque “é confusão por um lado, é dissimulação por outro, é um conjunto desorientado de intervenções”.

Antes, Bolieiro já tinha destacado “o trabalho que estamos a experimentar, de forma inovadora, na democracia autonómica dos Açores”. Trata-se de uma coligação, “onde o PSD é sobretudo um ativo de trabalho, de formação de consensos e de responsabilização pela estabilidade política”, definiu. Nem o líder regional nem o nacional se referiram uma única vez ao Chega nem a qualquer outro partido da solução governativa encontrada, a não ser ao próprio PSD.