Política

Entre a merda e o infinito

30 novembro 2020 10:23

Vemo-nos como consumidores de informação mas somos sobretudo doadores. Não procuramos quem nos defenda do perigo que já todos temos claro que existe ou da exploração a que estamos sujeitos. Procuramos, sim, um serviço de internet mais rápido e mais eficiente. Nunca fomos tão bovinos como agora

30 novembro 2020 10:23

Alguns leitores poderão achar este título muito duro e eventualmente susceptível de ferir sensibilidades. Aconselho esses a não prosseguir esta leitura mas, assim sendo, a eventualmente desligarem a internet. Corrijo: deixem-se de merdas e leiam até ao fim. Pode ser outra coisa e pode ser mesmo isto.

Era uma vez a internet. Entrou na vida das pessoas e cada um, e a seu ritmo, foi criando uma relação com ela e foi criando uma ou várias personagens para através dela, ou delas, lá morar. As regras não eram muitas e as pessoas até tinham boas intenções: inventar versões mais atraentes de si mesmas, discutir temas e partilhar conteúdos. Criar uma vida virtual mais agradável que a real. Foi há alguns anos mas parece que foi há muitos. Já nada disso é o foco. De vez em quando assistimos à entrada de alguém numa plataforma e é fácil perceber que está nessa fase e o principal indicador é apresentar uma idealização de si mesmo como sendo a realidade.

Nada contra, tudo a favor.

Quem se lembra do monólogo de “Agrado”, (Antonia San Juan), no filme “Tudo sobre a minha mãe” de Pedro Almodovar perceberá melhor o que quero dizer. Escolho este excerto:

“Bueno, lo que les estaba diciendo, que cuesta mucho ser auténtica, señora. Y en estas cosas no hay que ser arcana porque una es más auténtica cuanto más se parece a lo que ha soñado de sí misma.”

É isto. Nas idealizações que as pessoas fazem de si mesmas está a grande verdade sobre elas. Está aquilo que gostavam de ser e isso não é menor. Diz-me quem gostarias de ser e dir-te-ei quem és.

Acontece que essa fase não durou muito tempo. Rapidamente, e salvo estranhas excepções, as pessoas fartaram-se de estar ali a dar uma imagem melhorada de si mesmas e das suas vidas e entrou-se numa nova fase. Aquela em que - partindo ainda do pressuposto que ali é a vida virtual, diferente da real, e que há uma certa suspensão nos limites que regulam as relações sociais – se dá a libertação de sentimentos e pulsões habitualmente reprimidos. Esta frase pode induzir em erro. Libertar o que está reprimido é normalmente uma péssima notícia. Há aspectos que, sendo profundamente humanos, devem continuar na sombra. Já lá vamos.

A vida virtual começou por ocupar uma pequena parte do tempo dos utilizadores de plataformas e começou por existir uma ilusão de que aquela não era a vida real mas sim uma paralela. Nessa vida paralela criou-se uma sociedade nova e com novas regras ou melhor: quase sem regras.

O que se tem passado nas redes sociais podia ser visto como uma boa adaptação do romance de William Golding (prémio nobel de literatura em 1983), “O Deus das moscas”, uma ainda melhor que o filme de Harry Hook de 1990. Não deixem de espreitar o trailer.

Trata-se da história de um grupo de crianças ou pré-adolescentes que, na sequência de uma acidente de aviação, se vêem sozinhos numa ilha deserta. A partir daí – de uma situação de liberdade sem precedentes – criam uma nova organização de sociedade que começa por ser democrática e assente na cooperação de todos. Uma sociedade que seguia o modelo da que conheciam mas supostamente melhor porque muito mais livre Essa organização foi efémera. Rapidamente, o que ter podia sido uma oportunidade para dispensar as ordens impostas pelos adultos, para demonstrar que as crianças podem ser mais justas e bondosas, transforma-se num pesadelo de crueldade. Entregues a si mesmos perdem as referências de humanidade, fazem bullying à personagem mais frágil, ferem-se mutuamente. Criam rituais com danças e sacrifícios e unem-se em torno de inimigos comuns. É já numa fase em que tentam o extermínio dos seus opositores que são encontrados e resgatados.

Não é um grande filme mas é uma grande história.

Acredito que é nessa parte que está uma parte das pessoas que vejo nas redes sociais. Quem viu o processo acontecer aprendeu a defender-se dele ou a geri-lo. Podem-se ignorar as tentativas de interação por parte de perfis agressivos e, em último caso, podem-se bloquear. Além do mais, com o tempo ganha-se calo e a vida, como a luta, continua.

A questão é outra: deverá a comunidade que destila ódio nas redes sociais ser “resgatada” ou deveremos deixar isto andar e ver até onde vai?

Há quem não se tenha instalado na comunidade virtual e que, agora, quando vai lá espreitar fique absolutamente estarrecido. De tal forma que não valoriza o que de bom ali se passa e que, claro, é muito. Apenas vê o grupo de crianças com sede de sangue a mostrar crueldade e ignorância.

O que se passa nas redes sociais afasta muitas pessoas boas do espaço público. Há pessoas que não aceitam ser alvos, o que é uma possibilidade a partir do momento em que defendem quaisquer ideias mesmo que fora das plataformas digitais, de discurso de ódio. Esta circunstância pode empobrecer e muito a qualidade da discussão pública.

O que fazer quanto a isto? Deve o Estado intervir legislando e regulamentando?

Os camaradas anarquistas dirão que não mas o problema é que os anarquistas, tão temidos pelos conservadores e pelos amantes da lei e da ordem, acreditam na bondade da natureza humana. Nisso são tão optimistas e irresistíveis como Rousseau. No livro “O contrato Social” Rousseau popularizou o mito do “O bom selvagem”. Este livro será o primeiro texto revolucionário da história e assenta numa crença pura e bondosa da natureza humana. William Golding não tinha essa visão. A sua história é um hino à maldade intrínseca do indivíduo.

Agora o infinito.

É necessário olhar de uma maneira global para o fenómeno do espaço digital. Basicamente tudo passa de alguma maneira por ele. De quem é esta terra de ninguém que parece ser a terra de toda a gente? Qual a importância que tem no mundo em que vivemos?

Tem a importância máxima.

Tudo aquilo que fazemos e precisamos passa, de uma forma ou de outra, pela internet, até o fornecimento dos tradicionais bens essenciais. É neste momento difícil de imaginar como funcionariam as instituições, as redes de abastecimento ou os próprios órgãos de comunicação social sem internet. Nem vale a pena fazer o exercício.

Por outro lado não restam muitas dúvidas que estamos a ser monitorizados pelas grandes multinacionais que controlam a internet (a Google, a Amazon e o Facebook são os melhores exemplos) e que, sem querer, passamos informação altamente pessoal que será gerida e utilizada de uma forma que não controlamos e eventualmente contra nós.

Aqui chegamos a outra questão, a mais importante: podemos tolerar ou não interagir com pessoas que assumem posturas agressivas e ofensivas nas redes digitais mas será que podemos tolerar que nos controlem e nos explorem desta forma?

Enquanto discutimos o cyberbullying, ou a falta de regulamentação que nos desprotege de ataques ofensivos, continuamos a ser os novos explorados da grande fábrica desta era: a internet. E é aqui que está a nova expressão da luta de classes. E ao contrário dos trabalhadores na revolução industrial, nós andamos muito contentes a dar tudo o que temos em troca de muito pouco. Vemo-nos como consumidores de informação mas somos sobretudo doadores. Não procuramos quem nos defenda do perigo que já todos temos claro que existe ou da exploração a que estamos sujeitos. Procuramos, sim, um serviço de internet mais rápido e mais eficiente.

Nunca fomos tão bovinos como agora. A este propósito lembro-me de uma anedota que ouvi quando ainda não tinha andado de avião. Passava-se num voo e havia uma hospedeira que se dirigia aos passageiros dizendo:

“Temos um problema com um dos motores do avião e poderemos ter que fazer uma aterragem forçada. Por favor mantenham a calma.”

Os passageiros olharam uns para os outros apreensivos mas conformados.

A hospedeira continuou:

“Ah, e acabou o café.”

Os passageiros entraram em fúria e gritavam:

“O quê? Mas que porcaria de companhia aérea é esta? Isto é inadmissível!”

Somos esses passageiros: por mais que nos digam que estamos a ser manipulados, que é indecente o que estas multinacionais, que nem pagam impostos onde obtêm receitas, fazem à nossa privacidade, que quem controlar a internet controlará o mundo, permanecemos apreensivos mas conformados. Se algum dia alguém nos disser que acabou a internet nem que seja por uma semana, aí sim começaria uma revolta.

No que diz respeito à vida digital somos todos povo, um povo que não luta.

A União Europeia preocupa-se com a protecção de dados pessoais, e não me refiro apenas ao Regime Geral da Protecção de Dados (RGPD), mas os cibernautas nem tanto.

Julian Assange é um dos que lutou e lutou pelo que agora é o bem maior: informação. Lutou pela transparência neste novo mundo, denunciou aquilo que não queriam que soubéssemos.

Depois de passar uma noite a ler a história de Julien Assange contada pelo próprio, contada por outros e aceder a parte da informação que conseguiu disponibilizar, não consigo dizer quais eram as intenções de Assange. Mas é possível analisar as consequências do trabalho que desenvolveu: foi extraordinário para todos que o tenha feito. Não adianta a análise de que as suas revelações terão ajudado à vitória de Trump contra Hillary. Existe uma coisa que se deve buscar no jornalismo de investigação, a verdade. E só a partir da verdade poderemos encontrar soluções para os problemas de fundo que ultrapassam em muito a eleição de Trump.

Ver as imagens de Julien Assange remete-me para as dos cães do João Moura. Nem um nem os outros merecem tal tratamento. É urgente olhar para homens como Assange ou Edward Snowden ou para mulheres como Sarah Harrisson, é urgente defendê-los e não consentir que as suas vidas sejam destruídas. A aceitação da destruição das suas vidas é a aceitação da perda da nossa liberdade.

É necessário que se avance para a regulamentação na internet e que essa regulamentação não se fique pelo cyberbullying ou pelo discurso de ódio. Se há uma classe dominante, e altamente concentrada, que nos explora (de uma forma que apenas conhecemos com fugas de informação ou denúncias de investigadores que arriscam e perdem as suas vidas para a revelar) então precisamos de uma nova expressão do Código do Trabalho, o Digital. E precisamos de fazer circular a mensagem: cibernautas de todo o mundo, uni-vos!

Por fim e inspirada numa afirmação de Julian Assange: a internet não deve saber tudo sobre nós mas nós deveríamos saber tudo sobre a internet.

A alternativa é encarar que este infinito é uma merda.