Humor à Primeira Vista

Mónica Vale de Gato: “Há dificuldade na integração de mulheres na comédia”

Fotografia de Miguel Moreira
Fotografia de Miguel Moreira

No podcast Humor à Primeira Vista, Gustavo Carvalho conversa com a humorista Mónica Vale de Gato sobre o seu primeiro solo em palco e a dificuldade de ser humorista num meio marcadamente masculino em Portugal

Deixou o “emprego certo” para se dedicar à “vida certa”. A humorista Mónica Vale de Gato trocou um trabalho das nove às cinco pela liberdade que lhe dá ser freelancer e a comédia em palco. “Demasiado” é o seu primeiro espetáculo de stand-up a solo e vai passar por Lisboa, Porto e Tomar. O nome remete para o momento em que, após uma das suas atuações, uma pessoa lhe disse que estava demasiado bem vestida para fazer stand-up.

Fizeste alguns espetáculos no Lisboa Comedy Club, um dos quais com as humoristas Beatriz Magano, Inês Coimbra e Joana Santos. Foi a partir dessas sessões que criaste estes textos do “Demasiado”?

Sim, eu trouxe um ou outro texto novo para esse espetáculo e saiu-me uma punch muito engraçada. Até tinha outra, mas aquilo resultou tão bem que já nem disse a que eu tinha escrito. Às vezes também é muito humor físico, que sai na altura, e as pessoas riem-se bastante. Vou trazer isso para o espetáculo a solo. Aliás, foi esse espetáculo com elas que me deu coragem para realmente criar o meu. Eu dei por mim já em palco há meia hora – e não era suposto. Tive de acabar assim muito rápido e tinha tanto para dizer que pensei: “epá, vou criar o meu solo.”

O nome do solo é “Demasiado”. O nome surgiu de uma situação real em que numa noite de comédia te disseram que estavas demasiado bem vestida para fazer stand-up. O que é que achas que essa pessoa quis dizer com isso?

Eu acho que o que ela quis dizer é que não criei empatia com o público por estar demasiado bem vestida. Mas eu não estava demasiado bem vestida. Estava com um casaco preto até ao chão, parecia o Jon Snow, porque estava frio. Sei que não foi por mal. Quando falo sobre isto não quero que pensem que é uma revolta.

Mas marcou-te de alguma forma.

Sim, marcou-me. Agora tenho de ir com uma calça de ganga e uma t-shirt básica porque tem de ser? Não, cada um vai como quer. Se está confortável, está bom. Mas para mim é um espetáculo. Eu acho que tenho de me vestir bem. Vou providenciar um espetáculo às pessoas, não gosto de ir vestida como se estivesse em casa. Acho que toda a gente tem de ter a liberdade de estar vestido como quiser. Essa ideia de não criar empatia se não estiver bem vestida… se não crio é uma barreira que temos de ultrapassar. Porque as mulheres também não podem ver uma mulher bem vestida a dizer piadas e sentirem-se inferiores ou sentirem concorrência. Têm de olhar e pensar que ela está bonita e tem graça. E isso é um trabalho que eu quero fazer. Se calhar posso prejudicar-me se não for lá para cima como maria-rapaz.

Fotografia de Miguel Moreira

Mas porque é que achas que esse estilo maria-rapaz funciona melhor? Porque distrai menos do mais comum que é estar um homem em palco?

Não é isso, é não seres vista como chica-esperta, com a mania que é engraçada. Estás mais low profile. Já reparei que me olharam de baixo para cima quando estava em palco. Mas não senti que isso tenha prejudicado espetáculos meus.

Sendo a maior parte dos comediantes homens, achas que há uma expetativa para que as mulheres que entrem no humor se adequem àquilo que é a norma e de alguma forma não destoarem tanto em palco, seja na forma como fazem stand-up ou na forma como se vestem?

Não sei, acho que não. Os homens nem têm noção quando dizem essas coisas. Acho que isso até é um tipo de machismo mais perigoso. É as pessoas acharem que não são machistas. Antigamente o machista sabia que era e dizia que era. Agora as pessoas são machistas sem perceber. Por exemplo, uma Ana Garcia Martins (Pipoca Mais Doce) se for bem vestida se calhar acham normal, mas também soube que ela já ouviu comentários sobre isso. E não tem de ser. Cada um vai vestido como quiser, e não estou a dizer que temos de ir todos bem vestidos. Cada um veste-se como quiser.

Numa entrevista à MAGG dizias que tinhas de ser “one of the boys”, um dos rapazes. Achas que há dificuldade na integração de comediantes mulheres no meio da comédia?

Acho que há, não sei porquê, mas acho que nenhum comediante homem vai conseguir falar comigo como se fosse um amigo – e simplesmente não falam. Se calhar se fosse mais low profile já falariam, porque não represento uma ameaça – não sei se isto faz sentido. Mas sinto que ou já és muito grande ao ponto de ser fixe falar contigo, ou então tens de ser low profile para ser fixe pegar em ti, porque és um dos rapazes.

Fotografia de Miguel Moreira

Gustavo Carvalho faz perguntas sobre comédia. O convidado responde. Sorriem… é humor à primeira vista.

Ouça mais episódios:

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: clubeexpresso@expresso.impresa.pt

Comentários

Assine e junte-se ao novo fórum de comentários

Conheça a opinião de outros assinantes do Expresso e as respostas dos nossos jornalistas. Exclusivo para assinantes

Já é Assinante?
Comprou o Expresso?Insira o código presente na Revista E para se juntar ao debate
+ Vistas