A Beleza das Pequenas Coisas

Jessica Athayde: “Durante anos quis ser protagonista de novela. Sentia desvalorização. Agora quero ir para fora e representar em inglês"

É das atrizes com mais palco nas redes sociais, a superar um milhão de seguidores. E há muito que deixou de temer posicionar-se sobre temas que dividem opiniões. Já foi notícia pelo seu combate aos distúrbios alimentares, pelas agressões que sofreu por não corresponder ao “corpo perfeito”, por assumir uma depressão pós-parto, ou pela forma como educa o filho Oli. Há dois anos a atriz decidiu bater com a porta da TVI, cansada da máquina trituradora das telenovelas, em busca de outras oportunidades. E tudo mudou quando Bruno Nogueira a convidou para a série “Princípio, meio e fim”, na SIC. Daí, veio o cinema, com o “Pai Tirano”, a série “O Clube”, na SIC, e o teatro, na peça “Dois+Dois”, sobre os limites do amor, do sexo e da fidelidade, em cena no Villaret, em Lisboa. Ouçam-na no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas”, com Bernardo Mendonça

Uma das características que mais distingue a atriz Jessica Athayde, de 37 anos, é a sua autenticidade, a coragem com que se posiciona, e a forma como tem assumido as suas falhas, dores, dúvidas e imperfeições. Mostrando-se como uma mulher de carne e osso. E, num mundo cada vez mais cheio de filtros, máscaras e encenações da vida real - nas redes sociais e nos media - é sempre mais interessante e de louvar quem tem a ousadia e a coragem de se apresentar como uma pessoa real, nas suas opiniões e múltiplas contradições e singularidades.

Jessica já foi notícia por abordar publicamente os seus distúrbios alimentares, por denunciar as pressões que sofreu para corresponder a um certo paradigma de corpo perfeito feminino, por falar da depressão que passou na gravidez e no pós-parto, pela forma como educa o filho, pelos desafios e desaires amorosos, ou por revelar um certo estigma que ainda paira sobre si por se ter estreado na série juvenil “Morangos com Açúcar”, da TVI. E diz-se consciente que paga uma fatura por isso.

A atriz é a prova de que na vida por vezes os “nãos” são por vezes bem mais importantes do que os “sins”, já que quando deu um grande “basta” no contrato de exclusividade que tinha com a TVI e durante um tempo apostou mais noutros palcos, as redes sociais, em particular o Instagram (onde conta com mais de um milhão de seguidores), a sua vida ganhou outro controlo, outro fôlego e até outra disponibilidade para o que veio a seguir.

Bruno Nogueira deu-lhe visibilidade durante a pandemia nos famosos diretos do “Como é que o bicho mexe” e, mais tarde, convidou-a para o projeto televisivo “Princípio meio e fim”, na SIC. E Jessica foi a jogo e mostrou-se à altura do desafio e de um elenco destravado e de excelência que além de Nogueira contava com Rita Cabaço, Nuno Lopes e Albano Jerónimo a representarem histórias delirantes das mentes de Bruno Nogueira, Nuno Markl, Salvador Martinha e Filipe Melo.

Depois disso, integrou vários outros projetos televisivos como a série “O Clube”, onde representou uma jornalista de investigação no submundo dos clubes da noite habitados por acompanhantes de luxo; ou o ‘remake’ do clássico filme “O Pai Tirano”, onde foi a feminista Tatão.

Neste momento, Jessica integra o programa “Vale Tudo”, na SIC, que lhe valeu um entorse nos desafios do cenário inclinado, e está em cena até o final de fevereiro, com a peça “DOIS + DOIS”, no Teatro Villaret, em Lisboa, junto com José Mata, Ana Cloe e Miguel Raposo. Uma peça encenada por Miguel Thiré que envolve dois casais numa encruzilha emocional e sexual, onde os limites sexuais e emocionais são testados entre si. “É possível manter a paixão viva em relacionamentos longos? O que acontece ao desejo quando se forma uma família? As relações abertas podem ser a saída para a rotina sexual e emocional de um casal? Existe apenas uma maneira de entender a fidelidade?

Estas e outras questões são lançadas ao longo da peça, e foram também lançadas neste podcast. Jessica chega a deixar claro que os primeiros anos de maternidade são particularmente desafiantes e mudam bastante a intimidade do casal. Mas, no entanto, afirma que aprecia a rotina e nunca esteve tão feliz. Ao ponto de equacionar voltar a ser mãe.

“O que mais gosto na vida é ser mãe. Disse que não queria voltar a ter outro filho, mas já pondero ter outro. Tenho é medo de voltar a não dormir e das depressões…”

Com uma grande exposição nas redes sociais, e enorme atenção por parte das revistas sociais sedentas por títulos suculentos e polémicos, Jessica arrepende-se de ter exposto tanto tempo o filho Oli na sua página de Instagram. “O meu filho nasceu logo para dentro de uma exposição nas redes sociais. Disse ‘não quero mais” quando uma senhora me abordou na rua a perguntar se podia tirar uma foto com o meu filho. Abri essa porta tempo demais.”

Jessica aborda também neste podcast a chuva de ofensas e críticas que recebeu quando assumiu que um dia perdera a calma com o filho Oli. “Quando assumi que tinha dado uma palmada na fralda do meu filho, foram horríveis os insultos que recebi de ‘mães perfeitas’, com discursos fundamentalistas. Atenção, não bato ao meu filho, foi um momento de fragilidade meu. A maternidade é um momento de grande solidão, sentimo-nos sempre a falhar e em culpa”, chega a dizer.

A atriz revela que um dos seus novos “grandes fantasmas” é ter passado a ter “medo das palavras”, por causa dos rótulos, das más interpretações e por “poder magoar alguém”. Mas diz-se uma mente aberta e disponível para aprender mais sobre o que não sabe.

E conta ainda neste podcast o episódio em que o seu filho lhe pediu um destes dias para ir para a escola com as unhas pintadas. A mãe fez-lhe a vontade, e a estranheza não veio das outras crianças, mas de um outro pai quando se cruzaram à saída. “O meu filho quis pintar as unhas de cor de rosa e, na escola, outro pai questionou-o: ‘Que unhas são essas?’ Respondi-lhe: “Os tempos mudaram”. Ri-me e fui-me embora.”

Nesta conversa, Jessica comenta ainda o tema do momento, a invasão no palco do São Luiz e a discussão que agita a sociedade sobre o casting “transfake” e, mais à frente, lê um poema de Rosa Lobato Faria e revela algumas das musicas que a marcaram ou a acompanham.

Como sabem, o genérico é uma criação original da Joana Espadinha, com mistura de João Firmino (vocalista dos Cassete Pirata). Os retratos são da autoria do Nuno Botelho. A sonoplastia deste podcast é de José Cedovim Pinto e de João Martins.

Este podcast regressa na próxima semana com outra pessoa convidada. Até lá, pratiquem a empatia e boas conversas!

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: BMendonca@expresso.impresa.pt

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