A Beleza das Pequenas Coisas

Siza Vieira: “Acha-se que um arquiteto só serve para o capricho de quem tem dinheiro. Acredito na habitação social com qualidade para todos”

3 junho 2022 15:00

Rui Oliveira

Fotojornalista

É uma das maiores figuras da arquitetura mundial e um dos mais premiados de sempre. Há 30 anos, Álvaro Siza Vieira foi o primeiro arquiteto português a receber um Pritzker - considerado o Nobel da arquitetura. Pode mesmo dizer-se que Siza reescreveu a história da arquitetura projetando-a para o futuro. A um mês de completar 89 anos, Siza Vieira faz um balanço do percurso, critica o “estado de agonia” da profissão e lamenta não ter mais trabalho e não estar a deixar mais obra relevante no país. “Quando me é atribuído um prémio fico satisfeito mas, ao mesmo tempo, digo 'vou ter mais problemas para ter trabalho.'“ Ouçam-no no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas“, com Bernardo Mendonça

3 junho 2022 15:00

Rui Oliveira

Fotojornalista

Natural de Matosinhos, é hoje um dos maiores nomes da arquitetura mundial e, prestes a completar 89 anos, continua a trabalhar em Portugal e nos quatros cantos do mundo. Aprendeu a desenhar com o tio ainda em criança e desde aí nunca mais parou de o fazer. Na verdade, o desenho é a sua arma secreta. Uma arma que é a base do seu pensamento, investigação e criação, enquanto busca soluções e possibilidades para os desafios que enfrenta.

Siza Vieira primeiro sonhou ser escultor, mas o seu pai achou que essa era uma vida demasiado errante e Siza acabou por seguir Belas Artes até optar definitivamente por Arquitetura. “Entre as várias formas de arte há uma relação muito estreita. A arquitetura tem muito a ver com a escultura, a pintura, a música, o cinema, ou a poesia”, responde, sem hesitar, sobre a sua arte.

rui oliveira

Mestre de todos os tempos, ou sempre à frente do tempo, Siza Vieira surpreende a cada obra que assina, deixando-nos torpedeados pelas suas escolhas e soluções nada óbvias, tornando o nunca imaginado no único caminho possível. Siza Vieira sempre teve uma relação profundamente honesta com o trabalho e nunca amoleceu nem se deixou levar pelo ego ou pela fama para seguir uma certa fórmula ou uma marca mais industrializada. O que é sempre admirável é que a cada projeto Siza Vieira dá um novo salto, ou melhor, lança-se num voo novo para outro lugar sonhado por si, sempre único e inimitável, sempre alvo de estudo para várias gerações de arquitetos.

É impossível conseguir encaixar nesta introdução a vasta e relevante obra arquitetónica de Siza Vieira em Portugal e no resto do Mundo, mas vou arriscar um resumo: por cá, destaco a remodelação do Chiado, em Lisboa, depois do incêndio em 1988, o bairro da Malagueira, em Évora, a Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, o Museu de Serralves, o Pavilhão de Portugal, a igreja de Marco de Canaveses.

Mas Siza tem assinado obras igualmente relevantes um pouco por todo o planeta, da Europa à América Latina, da Ásia aos EUA. Um dos seus edifícios mais recentes é um arranha-céus de 37 andares em Manhattan, Nova Iorque, que é de uma beleza e elegância ímpar por ser muito estreito, com 15 metros de profundidade e 137 metros de altura. Um sonho americano desenhado e projetado por um português.

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Nesta entrevista em podcast, gravada no seu atelier, no Porto, Álvaro Siza Vieira chega a constatar que está a ser subaproveitado e subvalorizado no país, critica o sistema e a mentalidade do “quem dá menos“ e o “para quem é bacalhau basta“, defendendo habitação social com qualidade para todos. Lamenta ainda as perversões das obras e concursos públicos. No entanto, considera que está bem acompanhado por outros arquitetos portugueses prestigiados além fronteiras. “Quando acontece ter um prémio importante, fico satisfeito. Mas presente está sempre a ideia de que 'desta vez fui eu', podiam ter sido mil outros.”

Quem conhece bem Siza Vieira conta que ele é um asceta - insaciável em relação ao saber e profundamente dedicado ao trabalho. Obcecado por todos os detalhes e pela beleza das pequenas coisas. Tão genial quanto modesto. Um homem de esquerda e muito direito na maneira de pensar e reagir. Discreto e omnipresente. Com muita vontade de continuar a sonhar e a criar.

Apesar da vontade de fazer, Siza revela nesta conversa que a pressão do contra relógio se começa a sentir. “Está-me sempre a faltar tempo. Quando me entregam um projeto penso sempre 'terei tempo para isto'? É inevitável. E não prevejo ter a vitalidade de Oscar Niemeyer ou de Manoel de Oliveira.“

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Há muito mais para ouvir e descobrir sobre o arquiteto Álvaro Siza Vieira, que chega a revelar algumas das músicas que o acompanham e libertam da parte chata da vida e da profissão.

Como sabem, o genérico é uma criação original da Joana Espadinha, com mistura de João Firmino (vocalista dos Cassete Pirata). Os retratos são da autoria de Rui Oliveira. E a edição áudio deste podcast é desta vez do João Luís Amorim.

Termina aqui mais uma temporada de conversas, este podcast entra agora de férias mas regressa em Setembro.

Até lá, aproveitem para regressar ou conhecer as mais de duzentas conversas disponíveis, digam coisas, façam-se ouvir, escrevam-nos, comentem, classifiquem o podcast e, já sabem, pratiquem a empatia, boas férias a quem for de férias e... boas conversas!