Opinião

O Feminismo é só para mulheres?

Clara Não

Clara Não

Ilustradora, ativista, autora

O Feminismo nunca parou de evoluir. Hoje procura a inclusão total e a equidade: garantir direitos e oportunidades a quem não os tem, para que toda a gente possa viver em igualdade

2 janeiro 2023 10:19

Por muito que já se tenha falado tanto de Feminismo, continua a haver muita confusão na sua definição. Se desse lado a palavra o/a faz revirar os olhos, talvez no fim desta crónica desenjoe um pouco. O princípio de um novo ano traz sempre uma boa dose de esperança, por isso, haja esperança.


clara não

O que é o Feminismo

De uma forma muito geral, o Feminismo é a procura de igualdade de tratamento e de oportunidades para toda a gente, independentemente do género, sexo, cor de pele, orientação sexual, religião, nacionalidade. Para atingirmos a plenitude da igualdade, temos também de ter em consideração a ecologia e a proteção da vida à nossa volta. Desta forma, o feminismo não é só para mulheres, foi, sim, impulsionado por mulheres. O Feminismo é bom para toda a gente, menos para aqueles que lucram com o machismo de uma forma social e, ou, profissional.

Vagas Feministas

Este movimento tem várias vagas, sendo que cada uma tem uma preocupação mais específica, conforme os assuntos mais gritantes de cada época e o contexto social, político e económico de cada país.

Tenha-se em consideração que a mera ideia de que o Feminismo procurou conseguir que as mulheres fossem para o mercado de trabalho em vez de serem recatadas e do lar é muito inocente. Só famílias de classe média e alta podiam-se dar ao luxo de ter a mulher em casa e o homem a trabalhar fora. Desde sempre muitas mulheres trabalhavam — e não posso deixar de dizer que ser dona de casa é um trabalho também. No entanto, sempre com cargos inferiores aos homens e a ganhar menos pelo mesmo trabalho que eles faziam. No tempo da ditadura Salazarista em Portugal, eram os maridos que controlavam o emprego das mulheres: eram eles que decidiam se elas continuavam a trabalhar e quando se iriam despedir. Ainda, parecia mal a mulher ganhar mais que o marido, por isso, havia mesmo recusa de promoções.

Por muito que o trabalho tenha levado a mulher para fora de casa, o seu maior objetivo deveria ser casar, ter filhos e saber cuidar da casa. Nessa altura havia muitas mais restrições do que atualmente: as mulheres não podiam votar, não podiam ser juízas, diplomatas, militares ou polícias. “Para trabalhar no comércio, sair do país, abrir conta bancária ou tomar contraceptivos, a mulher era obrigada a pedir autorização ao marido. E ganhava quase metade do salário pago aos homens. Estas e outras leis foram rasgadas no 25 de Abril, quando, um ano depois da revolução, os direitos das mulheres ficaram consagrados na Constituição da República.” (in RTP Ensina).

Mesmo que a lei tenha mudado em vários parâmetros, hoje em dia continuamos com preconceitos enormes em relação às mulheres, tanto na vida pública e profissional como na privada. Se antes elas eram mais valiosas puras e recatadas, hoje em dia uma mulher primeira-ministra é criticada por estar a dançar numa festa. As coisas mudaram um pouco, mas o problema é o mesmo. Se antes elas não podiam ganhar mais do que os homens, hoje continuamos a ter uma percentagem muito pequena de mulheres em cargos de poder de decisão.

Além disso, a conquista da mulher no mundo trabalho não fez com o que o papel de cuidadora da família fosse devidamente partilhado, o que lhe acrescentou uma carga mental e física imensa à mulher. Assim como ela conquistou o campo do trabalho, o homem deveria ter feito por conquistar devidamente o campo doméstico. Algo que ainda não aconteceu na maior parte dos lares deste país e do mundo.

Vagas Feministas

Este foco de que a mulher ideal era a mulher doméstica, tão bem ensinado pelo regime Salazarista, foi a primeira quebra desejada do Feminismo, a primeira vaga. Houve ainda uma análise à diferença entre os direitos entre homens e mulheres. Estas não podiam votar nem ter uma voz ativa na sociedade. Aliás, há um livro que explica como as mulheres foram caladas desde os primeiros registos escritos, o Women & Power, de Mary Beard.

Ainda sobre este primeiro movimento, guardem o nome: Sojourner Truth. A ativista afro-americana, com nome auto-proclamado, nascida em 1797, nasceu no contexto da escravatura, conseguindo escapar com a sua filha em 1826. O seu discurso “Ain’t I a Woman?” é um marco feminista.

That man over there says that women need to be helped into carriages, and lifted over ditches, and to have the best place everywhere. Nobody ever helps me into carriages, or over mud-puddles, or gives me any best place! And ain't I a woman?

Nunca nos esqueçamos de que o Feminismo começou com a mulher negra, presa ao trabalho forçado. Claro que nomes como Simone Beauvoir, Judith Butler, Virginia Woolf são incontornáveis, mas não podemos ficar por aí.

Há muita gente que afirma que muitas vezes os movimentos feministas foram agressivos. E têm toda a razão, chegaram a ser. Se queimaram ou não soutiens não é muito relevante, a meu ver, mas a mensagem está lá. A verdade é que a vontade de fazer grandes mudanças inclui ter de haver demonstrações chocantes. Por exemplo, várias igrejas foram alvo de ataques feministas, não fossem as igrejas potenciadoras da pureza da mulher recatada, sem qualquer paridade na hierarquia de poder na sua constituição. No entanto, o meu acto rebelde favorito é o incêndio provocado por um grupo de Suffragettes na Biblioteca de Northfield em 1914. Todo o conteúdo da biblioteca foi destruído à excepção de um livro de Christabel Pankhurst que foi deixado intacto com um bilhete onde estava escrito “To start your new library”. Não é novidade nenhuma que livros escritos por mulheres são muitas vezes afastados e catalogados de Literatura Feminina, sem obterem a atenção do público com paridade. Basta ver os tops dos livros, o rácio de estátuas de homens vs estátuas de mulheres ou olhar os nomes das ruas das cidades.

Se me perguntarem se era mesmo preciso queimar igrejas e bibliotecas, não sei responder ao certo, porque é relativo. Há quem condene a destruição de qualquer património cultural, princípio que eu percebo. No entanto, neste contexto de revolução, considero que fez sentido. (Mais info sobre estas questões no livro Suffragettes, da Penguin). Há certas ações que não precisam de ser certas ou erradas, mas antes válidas ou não válidas segundo o contexto em que se inserem.

Feminismo Interseccional

O que realmente importa saber é que o Feminismo nunca parou de evoluir. Se antes poderia parecer demasiado regrado, hoje procura a inclusão total, a liberdade e a equidade: garantir direitos e oportunidades a quem não os tem, para que toda a gente possa viver em igualdade. Que a mulher, e toda a gente, tenha opções fora dos estereótipos de género: não há empregos para determinado género, o que importa é se a pessoa tem capacidade para executar o trabalho.

Por este motivo, o Feminismo não é só sobre géneros, é sobre libertação de toda a gente e inclui preocupações em diversas áreas. Desta forma, a solução para atingirmos a Igualdade é o Feminismo interseccional: contra o racismo, contra o capacitismo, contra o preconceito pela comunidade LGBTQIA+, o preconceito de idade, a desigualdade social e económica de classes, com preocupações ambientais. O Feminismo Interseccional tem em conta todo o tipo de privilégios e inclui toda a gente na luta que queira fazer parte dela.

Assim, por muito que o leitor/a leitora possa ser contra o Feminismo, o Feminismo é tão altruísta que continua a lutar por um mundo mais justo para si.

Assistimos também à tomada do próprio corpo pela mulher: a mulher faz o que bem quiser com ele. Quando a Beyoncé, a Miley Cyrus e a Lady Gaga se revelaram feministas, eu estava na faculdade e, não vou mentir, fez-me confusão. Para quem tinha lido os clássicos feministas que falavam tanto da problemática da objetificação do corpo feminino, ver uma performer a roçar-se numa chaise longue enquanto diz que é feminista pode ser confuso. Na altura, eu andava a estudar Antropologia da Cultura na faculdade. Então autopropus-me a perceber se tal poderia ser feminista. Cheguei à conclusão que sim, porque não se trata de objetificação mas de empoderamento: são elas que decidem o que fazem com o próprio corpo. Foi através deste pensamento que cheguei ao maravilhoso livro de Roxane Gay “Bad Feminist”.

Noções de Privilégio

O livro de Roxane Gay apresenta de uma forma muito clara as noções de privilégio. Os privilégios são os contextos e características que fazem a vida da pessoa mais fácil em determinada área, ao contrário das pessoas que não têm esse privilégio. Há vários tipos em várias áreas: cor de pele, género, orientação sexual, capacidade económica, contexto político e geográfico. O apogeu do privilégio seria um homem branco, cis, hetero, com todas as capacidades motoras, com dinheiro, num país sem guerra e sem ditadura. Por exemplo, uma mulher negra sofre de maior preconceito social do que uma mulher branca, em diversos sentidos: no trabalho, no assédio, na representatividade nos meios sociais. Ainda, Roxane Gay dá o seu exemplo pessoal: embora ela e a família sejam negras, sempre tiveram o privilégio de terem capacidades económicas.

Quem tem mais privilégios, muitas vezes, são os grupos opressões, que negam o lugar de fala às comunidades oprimidas. Não é por acaso que a cultura mais espalhada seja a que é realizada por pessoas com poder económico. Onde estão os filmes independentes? Os filmes com realizadores negros? Onde está a igualdade salarial entre atrizes negras e brancas com a mesma projecção no ecrã? Onde está a proliferação de música fora da caixa? A valorização de autores negros nos Planos Nacionais de Leitura? A questão do lugar de fala é largamente explorado no livro O Lugar de Fala da filósofa e feminista negra Djamila Ribeiro.

A lei pode ter mudado, mas ainda assistimos a muito sexismo e racismo no meio público e profissional. Entrevistas de emprego que incluem perguntar à mulher se tenciona ter filhos, e não o perguntar a homens. Mulheres negras a serem criticadas pelos seus penteados entrançados. Falta de representatividade de cores de pele em anúncios e programas de televisão. (Ler a crónica de Sandra Baldé que explora as consequências disto). Polícias que não dão importância a relatos de assédio, ou que ainda assediam a mulher que vai fazer queixa de assédio (tive vários relatos destas ocorrências na minha página de instagram). Senhorios que se recusam a alugar casas a pessoas brasileiras. Mulheres e homens que acham que as mulheres brasileiras vêm a Portugal roubar maridos (se eles vão por livre vontade não é roubar, não é?). Casais em que a mulher faz tudo, mas o homem é um santo porque “ajuda”… A luta continua, e nós estamos aqui.

O neologismo Femismo, porque as pessoas são complicadas

Não é novidade que, muitas vezes, há uma alergia à palavra Feminismo. Quantas vezes já ouvimos dizer “não sou feminista, porque não sou de extremos”? Algo que está à procura de equilíbrio é exatamente o contrário de extremista... Há quem diga “não sou Feminista, sou Humanista”. Newsflash: queres dizer a mesma coisa, tens é pudor à palavra Feminismo. Como foi impulsionado por mulheres, e foram o género binário mais oprimido, ganhou o nome de Feminismo: a procura de elevar as mulheres ao mesmo, repito, ao mesmo, lugar de poder social e político dos homens. Se o Feminismo for extremista, então já não é feminismo, é outra coisa qualquer.

Esta noção de extremismo ligada ao Feminismo cresceu especialmente graças à confusão na sua relação com o contexto de machismo. No entanto, a meu ver, podem sim ser considerados conceitos contrários, no sentido em que o machismo promove desigualdade e o Feminismo promove igualdade. No entanto, não correspondem a extremos de poder: se o mundo fosse matriarcal e misândrico, teríamos problemas à mesma. O livro The Power de Naomi Alderman, que recomendo fervorosamente, trata uma distopia que explora esse lado de uma forma incrível.

Graças à confusão na cabecinha das pessoas que em vez de procurarem o que é feminismo, preferem só ouvir populismos acerca da questão, criou-se o conceito “Femismo”: a procura da superioridade das mulheres. Haja paciência. Mas se ajuda a arrumar as ideias, usem, para mim tanto me faz, quero é que se lute pela igualdade.

“Mas, Clara, há aí muitas opiniões extremistas dentro do movimento feminista, com muitas divisões”. A partir do momento que o movimento é feito de pessoas, claro que vai haver divisões. Por muito que eu acredite que a solução é a inclusão, atrevo-me a dizer que não precisamos de concordar todas, precisamos de nos perceber e de nos lembrarmos que o objetivo de tornar o mundo mais justo é superior a tudo. Cabe a cada pessoa autoquestionar-se, procurar informação e evoluir de opinião. Em muitas situações pode não haver respostas certas ou erradas, apenas argumentos válidos e inválidos.

Feminismo para toda a gente

Os homens também podem ser feministas? Claro, e devem, porque têm a ganhar imenso em se juntar ao movimento: o feminismo luta para que tenham uma vida com menos pressão para “ser homem forte, que não demonstra sentimentos”, que tem de ser um garanhão, que é mais homem se gostar de mulheres. É incrível como vemos esta pressão até nos produtos de supermercado, nas cores, nas ilustrações. Recentemente, um amigo falou-me da dificuldade que tinha em encontrar variedade em produtos de cuidado de corpo para homem, de como as secções com cheiros mais masculinos são minúsculas.

Temos ainda um lado bem mais problemático do estereótipo do que é ser homem: o pudor que há em precisar de ajuda para cuidar da saúde mental. Em Portugal, 7 em cada 10 suicídios são de homens.

Claro que não podemos esquecer que a grande, enorme, maioria de pessoas que sofrem assédios são mulheres, as pessoas que são mais mortas pelos seus companheiros são mulheres e que a maior parte dos abusadores são homens. Acredito que a pressão social de que um homem é mais homem se for mais poderoso que a companheira, se for mais bruto, se não mostrar que está frágil, potencia a violência e potencia problemas de saúde mental. Sobre este tema, aconselho a leitura no livro “Os homens também choram”, de Nelson Marques. Nele, o autor fala de masculinidade e de como é possível haver masculinidade positiva, que dê liberdade aos homens de expressarem os seus sentimentos. É ainda de referir que hoje em dia há um grupo de partilha, o Men Talks, e a Associação Quebrar o Silêncio, para homens sobreviventes de violência e abuso sexual.

(Nunca nos esqueçamos que por muito que alguns casos de violência possam ser explicáveis — por passados traumáticos, por preconceitos enraizados — não são justificáveis. A vítima sofre o mesmo quando o companheiro lhe bate porque simplesmente é um otário, ou porque o companheiro teve um passado de violência doméstica em casa dos pais.)

Feminismo não é mulheres vs. homens, é Procura de Igualdade vs. Sexismo, Racismo, Capacitismo, Desigualdade social.

Uma pessoa culta que não seja feminista só acontece por falta de informação sobre o assunto ou porque lucra social e, ou, economicamente com o machismo. Não há outra explicação. Convençam-me do contrário.

Referências literárias

Referidas na crónica:

Ideal Feminino no Estado Novo, RTP Ensina

Women & Power, de Mary Beard

Projeto Ruas do Género

Bad Feminist, de Roxane Gay

Lugar de Fala, de Djamila Ribeiro

Crónica no Expresso de Sandra Baldé

The power, de Naomi Alderman

Os homens também choram, de Nelson Marques

Outras que aprofundam questões levantadas:

Sobre as Ondas Feministas: https://www.pacificu.edu/magazine/four-waves-feminism

The Suffragettes, da Penguin Little Black Classics

Sejamos Todos Feministas, de Chimmamanda Ngozi Adichie

Feminismo para os 99%: um manifesto, de Cinzia Arruzza, Nancy Fraser e Tithi Bhattacharya

Quem tem medo do Feminismo Negro, de Djamila Ribeiro

Nota final: este texto faz parte de um conjunto de conteúdos que o Expresso publica para falar diretamente com os leitores mais jovens e sobre aquilo que os afeta mais de perto. Se tiver dúvidas, sugestões ou críticas, envie-nos um e-mail.