Opinião

“Surpresa? Qual surpresa?”, escreve Domingos Lopes sobre a sucessão de Jerónimo

6 novembro 2022 13:13

O antigo dirigente do PCP que abandonou o partido há 12 anos assume uma posição crítica no rescaldo da saída de cena de Jerónimo de Sousa. “O mal maior já não é para o PCP que caminha inelutavelmente para a irrelevância. O mal é para o ideal mais atual e mais necessário que nunca. Deste lado da barricada nada há a esperar, a ânsia de sobreviver é mais forte que o ideal”, comenta o ex-quadro comunista

6 novembro 2022 13:13

Para alguém se poder apresentar aos seus como o mais capaz para exercer a mais alta função de uma organização, é adequado que seja conhecido entre os seus membros e esse conhecimento advirá das suas ações, da sua obra, da sua inteligência e daquilo que os outros pensam que é capaz de realizar nessa função.

O objetivo de um partido político é alcançar o poder ou partilhá-lo com outros. O líder será essa expressão da capacidade reconhecida para levar a bom porto o desiderato.

Dentro da organização ser-lhe-ão reconhecidas faculdades e capacidades que o tornaram o mais capaz. Um cidadão ou uma cidadã com tais qualidades é conhecido(a) e reconhecido(a) como tal, ou seja, ninguém se surpreenderá que venha a liderar esse projeto.

Acontece até que esse reconhecimento salta as próprias fronteiras do partido, o que vale por aceitar que gente que não partilha o ideal do líder lhe reconhece esses atributos. Quantos cidadãos votavam no PCP e não eram comunistas?

Ademais a função exige um passado que o tenha notabilizado precisamente entre os seus militantes e que o seu nome constitua uma inevitabilidade entre outros candidatos, não constituindo assim qualquer surpresa, sobretudo tendo em conta que a vida democrática torna possível que pelo menos a parte mais esclarecida politicamente conheça essas possibilidades.

Mesmo para um partido que tenha sido obrigado a lutar na clandestinidade sempre foi possível que determinados quadros pela sua coragem, capacidade, inteligência se destacassem e se tornassem conhecidos interna e nacionalmente.

Um partido que já teve influência eleitoral na casa dos vinte por cento, que no plano sindical teve um apoio quase esmagador, que teve mais de duzentos mil militantes, que dirigiu dezenas e dezenas de autarquias certamente teria para a função homens e mulheres cujo rosto nunca seria uma surpresa.

Entretanto, num percurso acidentado, com o colapso da URSS, Álvaro Cunhal “encostou-se” à perestroika e dentro desse contexto internacional a figura de Carlos Carvalhas era a que podia dar outro rosto mais consentâneo com o novo ambiente no movimento comunista internacional. Carvalhas era conhecido no partido e fora do partido, vinha de longe, da memória das lutas e das capacidades. Ele, felizmente, entre tantos outros.

Só que o partido também era feito de um outro partido onde as fidelidades ao velho projeto dogmático eram muitas, fechado perante as novidades. O aparelho que tudo controlava, na sombra começou a desenhar um movimento de resposta à implosão do socialismo implantado e de regresso ao “santo” passado.

O pretexto é conhecido e Cunhal ainda o definiu – impedir o liquidacionismo. Apresentando um real rejuvenescimento em matéria de idades, o PCP saltou por cima de gerações que tinham levado o partido àquele ponto e promoveu, tal como na revolução cultural chinesa, quadros que se revelaram exatamente nessa luta contra o “inimigo” interno.

Animados pelo lastro da luta contra a influência dos intelectuais, estabelecida como regra de ouro, os dirigentes do PCP foram descobrindo operários (mesmo naqueles que tinham feito biscates nas obras) entre tantos eleitos, cuja fidelidade era a garantia da pureza ideológica dada pela sua condição.

Não se tratava de seguir o exemplo de Paulo de Tarso que deixava a vida boa para seguir Cristo, nem de tantos e tantos traidores de classe como o próprio Álvaro Cunhal que para afugentar a origem social inventou a perfilhação posterior - adoção da classe operária, coisa que a Marx ou Engels jamais lhes passaria pela cabeça.

Assim a direção do PCP foi instalando na direção do partido, nos deputados da AR, no movimento sindical, nas organizações de massas os seus mais fiéis quadros, em suma, aqueles em que podia confiar, mesmo contra o próprio tempo.

Estava assim criado o partido onde uma dezena controla toda a vida partidária através daquilo a que chamam centralismo democrático e de uma caricatura do marxismo-leninismo coisa que provavelmente nem Marx, nem Lenin teriam propugnado.

Aqui chegados tudo é possível, a surpresa decorre de não dar a devida atenção aos sinais.

O mal maior já não é para o PCP que caminha inelutavelmente para a irrelevância. O mal é para o ideal mais atual e mais necessário que nunca. Deste lado da barricada nada há a esperar, a ânsia de sobreviver é mais forte que o ideal.