Opinião

Quem não gosta da Festa, bom sujeito não é

António Filipe

António Filipe

Membro do Comité Central do PCP e professor universitário

1 agosto 2022 12:40

O que de mal tem a Festa do Avante para os seus detratores é ser uma grande realização construída pelo PCP, não apenas para os seus, mas para todos os que nela queiram participar. Num tempo em que o espaço público e mediático se instala um discurso de ódio e o anticomunismo faz parte do livro de estilo, a Festa do Avante é um inimigo a abater

1 agosto 2022 12:40

Quem não gosta do samba/bom sujeito não é
ou é ruim da cabeça/ou doente do pé

Dorival Caymmi ("Samba da minha terra")

Foram muito difundidas há uns anos as imagens de Marcelo Rebelo de Sousa, então pré-candidato à Presidência da República, em alegre convívio na Festa do Avante (adiante designada por Festa) com artistas, com visitantes anónimos (para ele) e com dirigentes do PCP. Não foi caso único, nem sequer incomum. Ao longo destes anos, convivi muitas vezes na Festa com deputados e militantes destacados de outros partidos que foram à Festa, ou para aproveitar a oportunidade rara de assistir a um concerto de música sinfónica para milhares de pessoas ao ar livre, ou para ver este ou aquele artista, ou para ver um outro espetáculo ou exposição do seu interesse, ou por aceitar participar num debate (sim, participei em debates na Festa ao lado de personalidades publicamente ligadas a outros partidos), ou porque gostam da Festa e lhes apeteceu ir.

Ao longo dos muitos anos que a Festa já leva, muitos milhares de artistas passaram pelos seus palcos, desde músicos e cantores míticos já desaparecidos, como Max Roach, Richie Havens, Miriam Makeba, Mercedes Sosa, José Afonso ou Adriano, até ao que de melhor teve e tem a música portuguesa, brasileira, e de outras partes do mundo. O critério para a atuação na Festa nunca foi a opção partidária. Que o digam os muitos artistas que já nela participaram e que nunca se identificaram partidariamente com o PCP.

Contudo, a Festa não é só espetáculos musicais. Tem uma bienal de artes plásticas, exposições sobre temas diversos, um teatro, um cinema, um espaço Ciência, um espaço para crianças, um vasto programa desportivo, uma feira do livro e do disco com apresentações de obras e sessões de autógrafos, para além de bares e restaurantes representando todas as regiões e culturas gastronómicas representadas em Portugal, para além de restaurantes incluídos nos stands internacionais. E a Festa também é política, obviamente. Para além do comício politicamente marcante de domingo, a Festa tem debates políticos, exposições, presença de partidos comunistas e progressistas de muitos cantos do mundo, e é uma realização promovida pelo PCP e construída pelo seu trabalho militante.

Por isso, a Festa nunca teve boa imprensa. Na melhor das hipóteses é quase ignorada. Quase sempre, é vilipendiada. É conhecida a fábula das receitas. Às segundas, quartas e sextas, a Festa gera receitas milionárias, mas às terças, quintas e sábados, e nos mesmos órgãos de comunicação social, dá prejuízos ruinosos. Por vezes há acusações de participarem organizações que os EUA acham que são terroristas (como já aconteceu com o ANC de Nelson Mandela). E há dois anos, a propósito da epidemia, valeu tudo o que a desonestidade conseguiu imaginar, numa campanha sistemática e orquestrada contra a realização da Festa que incluiu a instrumentalização de comerciantes locais, o depoimento de batalhões de tudólogos, a caricata apresentação no Jornal da Noite da SIC de uma capa falsa do New York Times onde a Festa seria criticada (imagine-se), as acusações de que a Festa seria responsável pelo agravamento da pandemia, para depois silenciar que a Festa, tendo respeitado todas as indicações da DGS, mesmo as especialmente exageradas, foi um sucesso e demonstrou que a vida pode continuar desde que sejam tomadas as devidas medidas de segurança.

Neste ano de 2022, a campanha contra a Festa tem uma nova faceta e, diria eu, que às vezes ainda sou ingénuo, impensável, que é o autêntico bullying, e até ameaças diretas, de que são vítimas os artistas que vão participar, o que obrigou alguns deles, muito justamente, a defender-se publicamente e outros a aceitar submeter-se a entrevistas em modo de interrogatório policial de quem já vai condenado à partida. Claro que não faltaram, para animar a narrativa, artistas que não foram convidados a dizer que não participariam se tivessem sido, ao modo da fábula da raposa que, por não chegar às uvas, dizia, “são verdes e não prestam”.

Tudo visto e ponderado, o que move os detratores da Festa? É haver música sinfónica? É haver centenas de artistas, dos mais aos menos consagrados, a participar em vários palcos? É o teatro, o cinema, os livros e os discos? É o desporto ou a Ciência? É a gastronomia? Nada disso. Ao atacar a Festa atacam quem nela participa e o que nela se faz. Não hesitam em atacar e denegrir grandes músicos e cantores. Não hesitam em atacar a Cultura, a Ciência, o Desporto que tenha presença na Festa. Mas o móbil é o ódio.

O que de mal tem a Festa para os seus detratores é ser a Festa do Avante. É ser uma grande realização construída pelo PCP, não apenas para os seus, mas para todos os que nela queiram participar e a um preço relativamente acessível. Num tempo em que o espaço público e mediático se instala um discurso de ódio e o anticomunismo faz parte do livro de estilo, a Festa do Avante é um inimigo a abater, e tanto mais poderoso que não se deixa abater.

Assim, no primeiro fim de semana de setembro, vão lá e disfrutem. Podem ir ao comício, assistir a debates ou intervir se quiserem, ver espetáculos de música, cinema ou teatro, comprar um livro ou um disco, comer o que mais vos agradar, do leitão ao vegan, num espaço de convívio e tolerância. Ninguém vos pergunta em quem votam ou a que partido pertencem. E se lá forem pela primeira vez, vão perceber o que quem a conhece já percebeu há muito, que quem não gosta da Festa, bom sujeito não é.