Opinião

O primeiro dia do resto das vidas do BE e do PCP

2 fevereiro 2022 9:31

A mudança de lideranças no BE e no PCP é inevitável, mas não é a questão principal. Num cenário de maioria absoluta e de um governo mais centrista, a ideia do diálogo à esquerda é estultícia. BE e PCP são oposição. Devem garantir que a representação do mal-estar social e a vigilância redobradamente necessária não ficam nas mãos da extrema-direita. O PCP tem de encontrar forças para reanimar alguma capacidade de mobilização. O BE, para ressuscitar a capacidade de falar para fora da bolha partidária e para os jovens. E falarem um com o outro

2 fevereiro 2022 9:31

Não vou continuar a discutir o que aconteceu no chumbo do Orçamento. Apesar de ter escolhido ter um governo minoritário que renegou qualquer apoio do PSD ou acordo de legislatura à esquerda para ter maioria, a narrativa de António Costa passou sem dificuldade. Conseguiu impor como normal a ideia de que existe uma maioria parlamentar sem programa comum. Escrevi-o vezes sem conta, desde 2019: se Bloco e PCP permitissem esta situação, seria o partido hegemónico a controlar o momento da crise inevitável, porque nenhuma maioria sobrevive assim. E controlando o timing, controlaria quem seria punido. Permitiram-no e acabaram esfolados.

Mas a derrota do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista veio em várias fases. A primeira, estrutural e com razões demográficas e sociológicas, atingiu o PCP. Mas, se quisermos ser rigorosos, depois das enormes perdas do século passado, o declínio até foi estancado, sobretudo com Jerónimo de Sousa. De 2005 a 2015, a CDU mantém uma votação estável, para não dizer igual, subindo de 14 para 17 deputados durante esse processo (a abstenção aumentou).

O abraço do urso

É com a “geringonça” e o abraço do urso do PS que a queda se torna imparável. De 2015 para 2019, os comunistas passam de 445 mil para 332 mil votos, perdendo 113 mil votos e passando de 17 para 12 deputados. De 2019 para 2022, perdem mais 96 mil votos, passando para 236 mil votos e de 12 para 6 deputados. Em todas as restantes eleições somaram derrotas. Nas autárquicas, passam de 11%, 552 mil votos, 213 vereadores e 34 câmaras, em 2013, para 9,4%, 489 mil votos, 171 vereadores e 24 câmaras em 2017. E, por fim, para 8,2%, 410 mil votos, 148 vereadores e 19 Câmaras, em 2021. Nas europeias, presidenciais e regionais o padrão repetiu-se.

A “geringonça” foi uma tragédia para os comunistas. Porque os eleitores castigaram esta opção de abertura? As coisas não funcionam assim. Os eleitores atribuíram ao PS os ganhos conseguidos por comunistas e bloquistas. E é por isso que entendimentos deste tipo, para além de exigirem um guião claro em que se perceba o papel de cada um, obriga que a liderança no partido hegemónico queira partilhar vitórias, não esvaziar os seus parceiros.

Extraordinariamente, os comunistas, num gesto que ainda não compreendo, acharam, em 2019, que a sua situação ficaria melhor sem acordo. Como já escrevi, é como um trabalhador achar que é mais livre se for precário. Não se pode dizer que o Bloco tenha sido beneficiado eleitoralmente pela “geringonça”. Passa de 10,2%, em 2015, para 9,5%, em 2019. O tombo foi menor porque os seus eleitores teriam uma visão mais utilitária desta cooperação e porque o Bloco, para enorme irritação de António Costa, que o considerava por isso desleal, foi sabendo, até 2018, vender melhor as suas conquistas.

Daqui não concluo que os entendimentos à esquerda sejam mortais para os partidos mais pequenos, apesar da história europeia dar essa indicação geral. Concluo que eles só não o são se a liderança do partido maior tiver como estratégia crescer ao centro e deixar os partidos à sua esquerda tratarem do seu espaço. Mal há competição, os pequenos são engolidos. E neste caso, não havia competição. Havia, sobretudo em relação ao BE, uma vontade de aniquilação. Nenhum entendimento resiste a isto.

Do chumbo do OE ao voto útil

Depois, veio a perda mais recente. O chumbo do Orçamento do Estado, em que António Costa, que preparava esta crise política desde 2019, vendeu melhor a sua narrativa do que aqueles que o puseram no poder em 2015, terá sido responsável por grande parte das perdas. Aí, o grande penalizado terá sido o Bloco, com muito mais vasos comunicantes com o PS.

Mas, se nos fiarmos nas sondagens, que não estou certo que sejam grande indicador, uma parte da perda ainda terá vindo depois, quando elas começam a dar um empate técnico entre o PS e o PSD. Aí, mesmo os bloquistas (mas também comunistas) que não compravam a narrativa do PS sobre o chumbo do Orçamento (e os estudos de opinião dizem que não eram assim tão poucos) foram sugados para o que afinal era um engodo, contribuindo involuntariamente para uma maioria absoluta que seguramente não desejavam.

As perdas do Bloco são impressionantes. Passa de 19 para 5 deputados (com representação em três círculos, em vez de nove). E passa de terceira para quinta força (sexta em representação parlamentar), sendo previsivelmente ultrapassado pelo Chega, mas também pela IL, que até ficou aquém das previsões. Este é o terceiro pior resultado de sempre. Pior, só nos primeiros anos depois da fundação: 132 mil em 1999, 153 mil em 2002, primeiro com dois e depois com três deputados eleitos, sempre abaixo dos 3%

O copo meio cheio, se ele pode existir nesta razia, é a comparação com a outra queda, em 2011, depois do chumbo do PEC IV, de que o BE viria a recuperar em 2015, conseguindo o melhor resultado de sempre. Olhando para os deputados, não é comparável. Na altura, passou de 16 para 8, exatamente metade. Agora, passa de 19 para 5, quase um quarto. Mesmo na percentagem é um pouco pior, apesar de menos mau: passa de 9,5% para 4,5%, menos de metade, enquanto de 2009 para 2011 passou de 9,8% para 5,2%, quase metade.

Quando se passa para os votos (a abstenção caiu), perde cerca de 260 mil votos, enquanto em 2011 perdera 269 mil. Não sendo previsível que tenha conquistado votos à abstenção, não há razões para dizer que não venha a recuperar mais tarde o que perdeu agora, como aconteceu no passado. Depende do BE e das circunstâncias nas próximas eleições.

A troca de líderes

E é aqui que chego ao futuro. Primeiro, o futuro quase imediato. Jerónimo de Sousa é um dos principais responsáveis pela extraordinária resistência do partido nas duas últimas décadas. Chegou a novas pessoas, deu um rosto humano ao discurso muitas vezes pouco flexível dos comunistas. Mas a idade, a saúde e as derrotas dos últimos anos exigem outros rostos. Quanto mais depressa fizer a transição (e estou a pensar no ritmo muito próprio de uma instituição centenária), mais rapidamente o PCP voltará à ofensiva.

Olhando para o cenário, parece evidente que a escolha seja João Ferreira, que com desistências até pode chegar a um grupo parlamentar muito depauperado. Mas o PCP tem as suas próprias evidências e nem sempre se sai mal com elas. Com o Bloco as coisas são ainda mais complicadas. Não acho que Catarina Martins tenha responsabilidades neste resultado. Fez a campanha possível numa situação dificílima, determinada por uma decisão unânime da Mesa Nacional do partido. Mas é óbvio que, até por ter gerido este período, a sua eficácia se perdeu.

Com o disparate tático de terem queimado (intencionalmente?) Marisa Matias numa absurda aventura presidencial, sobra-lhes, que eu veja, Mariana Mortágua. É eficaz no combate tribunício, não sei se é a líder para a reorganização de um partido em que pequenas tendências se sabotam mutuamente. Mas já me enganei, no passado, em relação a Catarina Martins, que levou o BE aos melhores resultados da sua história. No meio, ainda terá de adaptar a uma nova capacidade financeira, o que não vai costuma ajudar à moral.

Na oposição. E agora?

Mas a questão principal não é, para estes quatro anos, a liderança. Com maioria absoluta, uma direita fragmentada e radicalizada e o flanco esquerdo enfraquecido, o terceiro governo de António Costa nada terá a ver com os anteriores. Será muitíssimo mais centrista, para dizer o mínimo. E o PS também. Por medo ou por irritação, os eleitores mais à esquerda deram a Costa o direito a governar sozinho, livre para rumar à direita. A sedução da esquerda far-se-á, muito provavelmente, transformando o Chega no principal inimigo, e ao mesmo tempo governando ao centro. Até pode usar a IL como caricatura, para tudo parecer excelente.

Neste cenário, a ideia do diálogo à esquerda é estultícia. Governos de maioria absoluta não dialogam, quanto muito trocam umas ideias e ouvem uns conselhos. Entendimentos à esquerda não são um fim em si mesmo e dependem da correlação de forças existente. BE e PCP passarão, como é suposto perante estes resultados, para a oposição. E não lhes faltam tarefas. Começaria por duas: garantir que a representação do mal-estar social e político que se sentirá nestes quatro anos e a vigilância redobradamente necessária perante uma maioria absoluta não fica nas mãos da extrema-direita (o PSD, sem o combustível do poder, vai andar muito tempo a apanhar bonés). E trabalhar para que o debate ideológico e um discurso aspiracional mais ambicioso do que a mera gestão rotineira da governação não fica para a IL.

Para isto, o PCP tem de encontrar forças para reanimar alguma da sua adormecida capacidade de mobilização. Um dos problemas da “geringonça” foi repetir o erro habitual da esquerda, que desiste da rua quando está nas instituições. Já o Bloco tem de ressuscitar a sua capacidade de falar para fora da bolha partidária, trabalhar com independentes (muitos terão votado PS circunstancialmente) e voltar a falar para os jovens. Uma novidade: as ditas causas fraturantes já não chegam. Até a direita “liberal” as compra, desde que venham com benefícios fiscais.

BE e PCP têm quatro anos para se reorganizar. A maioria absoluta do PS, que os liberta da pressão tática dos últimos seis anos, torna esse trabalho difícil, mas possível.

Entendam-se!

A tarefa mais improvável para bloquistas e comunistas é, no entanto, a mais óbvia: falarem uns com os outros. É impressionante que partidos que votam mais de 90% das vezes ao lado um do outro, que se dividem apenas em questões internacionais e alguns temas de costumes, não se consigam sentar à mesma mesa sem que seja o PS a juntá-los. Seria injusto dizer que o sectarismo dos dois é equivalente, mas há responsabilidades partilhadas.

A “geringonça” teria sido bem diferente, com conquistas bem maiores, se se tivessem coordenado. A sua divisão foi uma forte aliada de António Costa. E as coisas teriam sido diferentes, em 2019, se tivessem travado juntos o jogo que os tramou. Também a oposição será diferente se conversarem um com o outro. E isso deve ser-lhes cobrado por eleitores e militantes. Não se pedem coligações – a soma pode excluir mais do que junta –, mas coordenação. A alternativa é disputarem migalhas, derrotando-se mutuamente.