Opinião

A morte da “prioridade ao Interior”

6 agosto 2020 10:46

Três anos sobre os incêndios de Pedrógão e de outubro de 2017 bastaram para que as juras sobre a prioridade que iria ser dada ao desenvolvimento do Interior jazam mortas e arrefeçam, esquecidas por todos os políticos

6 agosto 2020 10:46

O principal responsável por esta traição aos portugueses é o Governo – e já explicarei porquê. Mas tão culpado como ele é o Presidente da República, que rasurou dos seus discursos uma causa pela qual a tantos braços se entregou, tanta selfie tirou, tantos mergulhos deu em praias fluviais. É culpado – culpadíssimo! – o Parlamento, no qual está sentada meia centena de deputados eleitos por estes territórios e que, nestes três anos, nunca recuperaram o tema para agenda política. São por isso culpados todos os partidos da oposição.

Esta indignidade de que mais de metade do país é vítima teve a sua mais fiel tradução na “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030” de António Costa Silva: as páginas dedicadas à coesão territorial (a partir da 110) são o que de mais vago, vácuo e irrelevante se escreve em todo aquele documento.

Mas é no terreno que as traições são frequentes e mais duramente sentidas. Partilho apenas dois exemplos do Instituto Politécnico da Guarda – IPG, a que presido.

O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) tinha acordado colocar no Politécnico da Guarda a sua base de dados de segurança, medida que recebeu luz verde da agência europeia que inspeciona os grandes sistemas de informação da União Europeia. No entanto, o Ministério da Administração Interna vetou essa decisão e irá concentrar os data center das polícias num único espaço, em Contumil, nos arredores do Porto, tendo ordenado há uma semana a transferência para lá, com “caráter urgente”, do serviço que deveria ficar na Guarda.

Juntamente com o data center, irão para o Porto todas as ações de formação que o Instituto Politécnico da Guarda iria dar aos técnicos e inspetores do SEF, bem como a ciência que iria ser produzida nesta cidade do Interior nas áreas da engenharia relacionadas com bases de dados. Haverá maior traição ao “espírito de 2017”?

Outro exemplo: o Instituto Politécnico da Guarda tem alargado e renovado a sua oferta formativa, tendo como principal constrangimento à vinda de alunos para a cidade a falta de residências estudantis. Há um ano e meio o Governo prometeu que a pousada do Instituto Português do Desporto e Juventude na cidade, há muito encerrada, iria passar para a alçada do IPG e – para além de recuperar a sua função hoteleira inicial – passaria a funcionar também como residência estudantil.

Pois bem, há um mês o IPG foi informado pela Fundiestamo (organismo que gere imobiliário do Estado) que “com o atual Regulamento de Gestão do Fundo Nacional de Reabilitação do Edificado, a operação não é viável”, há que aguardar pelas alterações a implementar... Resultado: o IPG tem novos cursos, únicos na Região Centro, mas não pode ter alunos porque estes não têm onde ficar!

No Interior nada é fácil. Mas, com “ajudas” destas, o difícil torna-se impossível.