Longevidade

Doença de Alzheimer: idade é o principal fator de risco, mas estilo de vida é fundamental

21 setembro 2022 17:32

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A 21 de setembro assinala-se o Dia Mundial da Doença de Alzheimer. Em entrevista ao Expresso, o médico neurologista Alexandre de Mendonça destaca o papel do controlo dos diferentes fatores de risco e a importância da prevenção, através de um estilo de vida saudável

21 setembro 2022 17:32

A idade é o principal fator de risco para o desenvolvimento da doença de Alzheimer, a forma mais comum de demência. No entanto, é possível atuar “no sentido de prevenir o declínio cognitivo associado ao envelhecimento”, explica Alexandre de Mendonça, investigador coordenador e professor catedrático convidado na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. O neurologista é membro da comissão científica da Alzheimer Portugal, organização fundada em 1988 para promover a qualidade de vida das pessoas com demência e dos seus familiares e cuidadores.

Devido ao aumento e envelhecimento da população ao nível global, o número de casos de demência deverá subir de 57,4 milhões em 2019 para 152,8 milhões em 2050, apontam as estimativas publicadas na The Lancet Public Health em janeiro deste ano. De acordo com dados da Alzheimer Europe, Portugal contabilizava 193.516 pessoas com demência em 2018, prevendo-se que este valor suba para 229.914 já em 2025 e para 346.905 em 2050.

Num manifesto divulgado há dias, a Alzheimer Portugal refere a “falsa crença” de que a demência faz parte de um “processo natural de envelhecimento”. É preciso desconstruir esta ideia?
Para quem tem experiência em acompanhar doentes com doença de Alzheimer e outras formas de demência, não subsiste dúvida de que é uma situação patológica muito grave. Não deverá ser confundida com o envelhecimento normal. Dito isto, a idade é o principal fator de risco para a doença de Alzheimer, e será justo reconhecer que a distinção biológica entre a doença de Alzheimer e o envelhecimento cerebral nunca ficou bem esclarecida.

Que outros desafios existem ao nível da literacia e do estigma?
Um documento de referência publicado nesta quarta-feira, World Alzheimer Report 2022, salienta o extenso trabalho que está por fazer em relação à divulgação e educação na sociedade dos vários aspetos do declínio cognitivo e demência, única forma de ultrapassar o estigma.

Além da idade, quais são os principais fatores de risco e que papel pode desempenhar o estilo de vida no desenvolvimento da doença?
Recentemente, tem havido grande ênfase na prevenção do declínio cognitivo. Um artigo importante, elaborado no âmbito da Lancet Commission, aborda fatores de risco para o declínio cognitivo e demência que são potencialmente modificáveis. Esse documento estima que idealmente 40% dos casos de demência possam ser prevenidos se se controlar estes fatores de risco.

Também a Organização Mundial da Saúde emitiu recentemente recomendações semelhantes sobre a prevenção do declínio cognitivo e demência. Estas recomendações são abrangentes em relação à promoção da saúde em geral. Envolvem dieta saudável, realização de exercício físico regular, controlo dos fatores de risco cardiocerebrovasculares – hipertensão arterial, diabetes, hiperlipidemia, excesso de peso ou obesidade –, cessação do tabagismo e do consumo excessivo de álcool, tratamento da depressão, correção de défices auditivos e incentivo do convívio social.

Um dado importante que se tem observado nas sociedades ocidentais é a redução da incidência e da prevalência da demência. Claro que há mais casos porque há mais pessoas idosas, mas ajustando para o grupo etário e para o sexo, tem havido uma redução do número de casos de demência. Esta observação já reflete, provavelmente, mudanças positivas no estilo de vida que se verificaram nos últimos anos. É algo muito animador, sugere que podemos agir no sentido de prevenir o declínio cognitivo associado ao envelhecimento.

Uma nota ainda: frequentemente as pessoas tomam suplementos, vitaminas, extratos de plantas, com o objetivo de prevenir o declínio cognitivo. Porém, não existe evidência científica que sejam eficazes e, por outro lado, estes produtos não estão isentos de efeitos secundários.

Ter um sentido de vida e estabelecer objetivos à medida que a idade avança pode fazer a diferença?
Os estudos epidemiológicos têm mostrado que um conjunto de atividades, embora distintas, parecem ser equivalentes em termos de conferir alguma proteção contra o declínio cognitivo. São exemplos participar no coro, estudar música, ler, sair com os amigos, desenvolver voluntariado, ir ao cinema, frequentar uma universidade sénior. Estas atividades representam interesses e projetos e refletem a manutenção de uma vida com sentido. Terão de ser adequadas aos gostos, possibilidades e vivências de cada pessoa.

A que sinais, ou possíveis sintomas devem as pessoas estar atentas, especialmente as mais velhas, uma vez que a doença de Alzheimer é mais frequente após os 65 anos?
Se as pessoas, ou os seus familiares ou amigos, notarem dificuldades de memória ou outras alterações cognitivas que parecem desajustadas em relação aos esquecimentos que todos temos no dia a dia, devem procurar o seu médico assistente e pedir ajuda. Por vezes tem-se dado ênfase excessivo à questão do diagnóstico precoce da doença de Alzheimer, pelo menos enquanto não houver medicamentos capazes de modificar a progressão da doença.

Que avanços têm sido feitos nos últimos anos e o que é que se pode esperar ao nível da investigação de possíveis tratamentos?
Houve extraordinários avanços nos últimos anos em relação ao diagnóstico da doença de Alzheimer. Esses avanços têm-se baseado, sobretudo, na utilização de biomarcadores neuropsicológicos, neuroimagiológicos e neuroquímicos, que possibilitam um diagnóstico fiável e precoce de doença de Alzheimer. Foram propostos novos critérios para o diagnóstico de doença de Alzheimer que recorrem a vários destes biomarcadores e conseguimos uma compreensão mais precisa da história natural da doença.

Infelizmente, estes avanços no diagnóstico não foram ainda acompanhados por progressos equiparáveis na terapêutica, em termos de podermos dispor de medicamentos capazes de atrasar ou atenuar a progressão da doença.

Que estratégias e ferramentas recomenda que as pessoas mais próximas de um doente com Alzheimer adotem para melhor lidar com a situação?
Os cuidadores familiares, ou informais, estão sujeitos a uma enorme sobrecarga. Cuidar é uma tarefa pesada e exaustiva. Os cuidadores estão em risco de desenvolver doenças do foro psicológico e até mesmo físico. Muitas vezes consideram poder assumir inteiramente esta tarefa de uma forma heroica mas, a certa altura, inevitavelmente claudicam.

Os cuidadores têm de ser apoiados. Há muitas soluções de recrutamento de cuidadores formais, serviços domiciliários, centros de dia, entre outros, que têm vindo a ser desenvolvidas no sentido de apoiar o cuidador. A Associação Alzheimer Portugal pode prestar aconselhamento. Temos de reconhecer que a sociedade, em geral, tem vindo a valorizar o papel crucial do cuidador informal.

Em termos da prevalência da doença de Alzheimer em Portugal, é possível avaliar como é que tem sido a evolução ao longo do tempo?
Têm decorrido alguns estudos epidemiológicos no nosso país, relativamente coincidentes no sentido em que poderá haver cerca de 200 mil pessoas com demência em Portugal. Neste número não estão incluídas pessoas que têm graus mais ligeiros de declínio cognitivo, nomeadamente o que se designa por defeito cognitivo ligeiro. Se incluíssemos estas pessoas, o número seria bastante superior. É um problema de grande dimensão e prioritário em termos de saúde pública.

Um estudo publicado recentemente no Journal of Alzheimer's Disease indica que pessoas mais velhas que tiveram covid-19, especialmente mulheres com pelo menos 85 anos, têm um risco “substancialmente maior” de desenvolver Alzheimer no espaço de um ano. O que é que está aqui em causa?
O período da covid-19 foi difícil para todos nós, mas certamente mais para as pessoas com défice cognitivo. Os doentes que estavam em casa, ainda relativamente autónomos ou acompanhados por um familiar, deixaram de receber visitas, sair, exercer as suas ocupações habituais. Frequentemente não foi possível manterem a assistência médica regular. Os doentes institucionalizados deixaram de receber visitas e desenvolver atividades ocupacionais. Quando as restrições foram sendo aliviadas, notou-se que tinha havido um declínio significativo. Na minha experiência, os doentes pioraram durante a pandemia.