Longevidade

Prevenção: rastreios não são eficazes em Portugal

27 junho 2022 12:17

André Rito

André Rito

Jornalista

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

Precaver. É preciso apostar na educação e nas escolas para reduzir os fatores de risco: má alimentação, tabaco, álcool, sedentarismo e excesso de peso. Por ano, morrem 30 mil pessoas vítimas de cancro — o diagnóstico precoce é uma miragem

27 junho 2022 12:17

André Rito

André Rito

Jornalista

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

Em 2020, Portugal registou como principais causas de morte os acidentes vasculares cerebrais (9,9%), o cancro do pulmão, colorretal e do estômago (9,2%), a doença cardíaca isquémica (6,4%), a covid-19 (5,7%) e a pneumonia (5,1%). Para aumentar a longevidade com saú­de será necessário atuar nos fatores de risco, mal controlados pelos portugueses, sobretudo no que respeita a doenças cardiovasculares, que são a principal causa de morte no país. Segundo um estudo do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), 68% da população apresenta dois ou mais fatores de risco para doenças cardiovasculares e 22% quatro ou mais.

Se a saúde, como defende a médica Isabel Galriça Neto, deve ser — antes de tudo — uma preocupação individual, a verdade é que os portugueses apenas reagem quando surge um problema: “‘Agora que apanhei um susto vou passar a ter cuidado.’ É este o pensamento que vigora”, diz a médica diretora da Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital da Luz. “A prevenção serve para trabalhar a médio e longo prazo, não existem resultados em termos imediatos, o que afasta as pessoas, porque estas só a valorizam quando já estão a perder.”

Em parte, isto explica a razão para mais de metade dos portugueses serem obesos ou pré-obesos e 43% terem hipertensão arterial. Daí a importância de se desenvolverem estratégias para rastrear a população quanto aos fatores de risco para as doenças cardiovasculares e promoverem medidas de estilo de vida adequadas e literacia em saúde. Uma delas, refere o bastonário da Ordem dos Médicos (OM), é o açúcar: “Destrói tudo, é como uma droga legal”, afirmou Miguel Guimarães. A má alimentação foi responsável por 16 mil mortes em 2017. Os fatores de risco mais relevantes são a diabetes, colesterol elevado, hipertensão arterial, pré-obesidade/obesidade e tabagismo (ver gráfico com número de mortes associadas).

Quando começa a prevenção? A resposta não oferece muitas dúvidas à ex-ministra da Saúde Maria de Belém Roseira: na escola. Foi durante o seu mandato que desenvolveu um programa de prevenção do tabagismo nos jovens em ambiente escolar. “Quando comecei, havia pouco mais de 10 escolas aderentes. Era um programa articulado entre os Ministérios da Saúde e da Educação. No fim do mandato, tínhamos mais de mil. Lamentavelmente, esse programa acabou”, afirma, considerando que “os portugueses têm pouca cultura de prevenção”. “As crianças são também agentes de saúde. Devem levar para casa os conselhos que os pais não tiveram e não valorizam.”

António Morais, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, lembra que o cancro do pulmão é hoje uma das principais causas de morte em Portugal. “Em 2018, o tabaco foi responsável por 5284 novos casos de cancro do pulmão, tendo causado quatro mil vítimas. Em Portugal, 15% da população é fumadora, no entanto as consultas de cessação tabágica são das que mais ficaram para trás durante a pandemia — e que acumulam maiores listas de espera”, afirma. “É preciso aproveitar a janela de oportunidade quando alguém se propõe deixar de fumar.” E, apesar de se registarem menos fumadores, hoje existe outro problema que tem sido desvalorizado: os cigarros eletrónicos. “Refere-se que faz menos mal por não ter combustão, mas as substâncias do tabaco tradicional estão lá, como a nicotina, que causa dependência. É um embuste publicitado até à exaustão, mesmo sabendo que a publicidade ao tabaco foi proibida em Portugal.”

Rastreio só para alguns

São chamados rastreios de base populacional. Em fevereiro, a ministra da Saúde garantiu que o diagnóstico precoce tinha voltado aos resultados obtidos nos anos de pré-pandemia. Para exemplificar, Marta Temido referiu que, no caso do cancro do cólon e reto — um dos que mais mata em Portugal —, foram rastreadas cerca de 57 mil pessoas. O número representa um crescimento de 44% face a 2019. Mas os especialistas são unânimes: a cobertura nacional do rastreio é heterogénea. Nos centros urbanos há uma corrida contra o tempo na realização dos exames de diagnóstico em virtude da pandemia, mas há zonas onde praticamente não existe.

“Temos de fazer aquilo que já apontámos várias vezes”, começa por dizer Miguel Guimarães. “Conseguimos melhorar os maus indicadores da doen­ça crónica, que são maus a nível europeu porque temos uma carga de doença elevada depois dos 65 anos, mas precisamos de apostar na prevenção, no rastreio de outros cancros — além da mama, colo do útero, cólon e reto. No que respeita à lei de meios — dotação financeira no Orçamento do Estado —, estamos com menos 25% do que se faz a nível europeu”, afirmou o bastonário da OM.

O diploma que aprovou os rastreios de base populacional do cancro da mama, colo do útero, cólon e reto e retinopatia diabética avançou em 2016, mas só agora se prevê que seja alargado a outras doenças. O programa está nas mãos da presidência checa da União Europeia e deverá ser discutido publicamente em breve em Portugal. “[O problema] não se trata apenas do rastreio. As 30 mil mortes não são evitadas apenas pelo rastreio. Mas os cancros que mais matam em Portugal ainda não têm um rastreio de base populacional eficaz”, afirma José Dinis, diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas.

Referindo que o novo Plano Europeu de Combate ao Cancro está em vias de entrar em discussão pública em Portugal, o também oncologista do IPO do Porto diz que a redução dos números do cancro — responsável pela morte de 30 mil pessoas por ano no país — se faz “modernizando os programas de rastreio em curso e alargando-os a todo o território nacio­nal”. “É necessário elaborar estratégias de adesão. As pessoas têm de aderir, precisamos de as convencer. O programa deve também dotar o território de forma homogénea. Existem zonas bem cobertas pelo rastreio, mas outras não.”

Sabendo que no cancro cada dia conta, o plano europeu tem como meta salvar três milhões de vidas até 2030. Já a sua versão portuguesa pretende reduzir os números de mortalidade no nosso país, onde, segundo dados do Observatório Global de Cancro, em 2018 foram registados mais de 58 mil novos casos. Sabendo que durante a pandemia ficaram por diagnosticar meio milhão de doentes oncológicos, é expectável que os números disparem nos próximos anos.

“Os especialistas são unânimes em dizer que em 2022 e nos anos que se seguirão teremos uma onda de casos diagnosticados mais tardiamente”, afirma o médico e deputado do PSD Ricardo Baptista Leite. “Muitos dos diagnósticos precoces são feitos nas unidades de cuidados de saúde primários. Com tanta gente sem médico de família, significa que estamos perante uma falha de base. O fundamental, em vez de olharmos em termos comparativos, é perceber o que se perdeu durante a pandemia.”

P&R

Por que razão diagnósticos tardios de cancro?

A falta de médicos nos cuidados de saúde primários. A maioria dos rastreios da doença são feitos nestas unidades, pelos especialistas em Medicina Geral e Familiar. O problema é que há mais de um milhão de portugueses sem acesso a um médico de família, o que agrava a possibilidade do diagnóstico precoce.

Quantos médicos de Saúde Geral e Familiar trabalham no SNS?

Em 2020, havia 400 médicos desta especialidade em Portugal. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, a maioria destes clínicos, perto de 310, trabalhavam no serviço privado.

Até que idade é expectável ter uma vida saudável?

Estima-se que os homens possam viver livres de doença até aos 73 anos. Já as mulheres têm uma vida saudável até aos 72. Segundo a Pordata, um quinto das mortes em Portugal são prematuras.

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sara tarita

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Textos originalmente publicados no Expresso de 24 de junho de 2022