Isabel II

“E agora onde deixo as flores?!” Cortejo fúnebre de Isabel II paralisa centro de Londres

Dezenas de milhares de pessoas encheram as ruas do centro de Londres para ver passar o caixão de Isabel II

carl court/getty images

Rainha saiu pela última vez do palácio de Buckingham. Velório público decorre no Parlamento até segunda-feira, dia do funeral. Segurança está reforçada nas ruas de Londres, à espera de numerosos chefes de Estado e de Governo

14 setembro 2022 15:27

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

Enviado a Londres

Editor da Secção Internacional

O silêncio sepulcral que dominava o londrino Hyde Park rompeu-se às 14h22 desta quarta-feira com a primeira de muitas salvas de canhão, uma por minuto enquanto arrancava do palácio de Buckingham, ali ao lado, o cortejo fúnebre que leva Isabel II da sua residência oficial para o Salão de Westminster, no Parlamento. É nesse espaço que decorre o velório público até à próxima segunda-feira, dia 19.

Minutos antes, uma jovem relaxava. “É às 14h30, estamos bem”. “Não, é às 14h22, daqui a nada”, retorquia a mãe, ofegante. Chegaram ambas a tempo ao espaço do parque onde, em ecrãs gigantes, era possível ver cada minuto do cortejo. Se na véspera, à chegada do corpo de Isabel II ao palácio, fora a chuva o maior incómodo para os fãs da rainha, esta quarta-feira foi um sol forte que os desafiou.

Era visível o esforço dos que se acotovelavam por não fazer barulho, mesmo quando pediam licença para alguém com mobilidade reduzida passar ou para deixar sentar uma criança. O aeroporto de Heathrow suspendeu operações para não haver ruído que perturbasse a solenidade do momento. Lágrimas nalguns rostos, sorrisos noutros, grande expectativa face às exéquias da rainha falecida no passado dia 8 de setembro.

Acompanhada das suas flores

Só meia hora após o início da função se ouviu um aplauso espontâneo e contagioso. Que se repetiu em pontos marcantes, sempre sem quaisquer gritos ou vivas. Os de Hyde Park imitavam o que viam fazer os que estavam mais perto do caixão da soberana chorada.

Este saiu pontualmente do palácio, transportado numa carruagem militar e escoltado por vários regimentos da sua guarda. Cobriam-no o estandarte real, a coroa imperial, rosas e dálias e ainda folhagem dos seus jardins de Balmoral (na Escócia, onde faleceu) e Windsor (onde gostava de morar).

Multidão em Hyde Park para assistir em ecrãs gigantes ao cortejo fúnebre de Isabel II

Multidão em Hyde Park para assistir em ecrãs gigantes ao cortejo fúnebre de Isabel II

pedro cordeiro

Atrás de Isabel caminhava Carlos III, acompanhado dos irmãos Ana, André (este sem traje militar, por ter perdido honrarias devido à sua ligação ao milionário abusador de menores Jeffrey Epstein) e Eduardo. Ladeavam todo o trajeto dezenas de milhares de populares. Muitos de telemóvel em riste a fotografar e filmar, outros de semblante carregado e a tirarem o chapéu à passagem da carruagem que transporta os restos mortais da anterior chefe de Estado.

Logo a seguir ao novo rei, os seus dois filhos, William e Harry, que há 25 anos desempenharam igual papel no enterro de sua mãe, a princesa Diana, na altura acompanhados e encorajados pelo avô, Filipe de Edimburgo, marido de Isabel II. Com relações tempestuosas em tempos recentes, juntaram-se de novo após passeio inesperado em Windsor, há dias, com as respetivas mulheres, para ver as flores e outras homenagens prestadas à avó. Há certo alívio no Reino Unido com o anúncio, esta quarta-feira, de que foi adiado para 2023 (em vez de neste Natal) o lançamento das memórias que Harry escreveu e cujas eventuais revelações fazem tremer a família real.

Com os dois irmãos no cortejo em Londres estava ainda Peter Phillips, filho da princesa Ana. Os três netos mais velhos da desaparecida, portanto. Harry tampouco ia fardado, pois desistiu de funções oficiais há dois anos. Peter não é militar.

Participaram ainda no cortejo, a pé, o cunhado do rei, Timothy Lawrence (marido de Ana), e o seu primo David, conde de Snowdon (filho da falecida princesa Margarida, irmã de Isabel II), e o duque de Gloucester, primo direito da malograda soberana. Atrás, de automóvel, a rainha consorte Camilla, e as mulheres de Eduardo, William e Harry, respetivamente, Sophie, Kate e Meghan.

À chegada ao Parlamento, um coro entoou cânticos religiosos, dando início a uma beve celebração presidida pelo arcebispo de Cantuária, Justin Welby, máxima autoridade da Igreja de Inglaterra a seguir ao chefe de Estado. Seguiram-se homenagens de autoridades civis e militares, que apresentaram condolências à família real, antes de o público poder entrar, às 17h.

Dificuldade em travar circulação

Antes do arranque do cortejo, era grande a confusão nas zonas limítrofes ao percurso do cortejo, que seguiu pela alameda The Mall até ao quartel da guarda a cavalo, onde virou para Whitehall, a avenida onde ficam os edifícios do Governo (e, numa esquina, Downing Street, residência dos primeiros-ministros, 15 dos quais nomeados por Isabel II), até chegar ao Parlamento. Ao fim da manhã, polícias, seguranças e assistentes indicavam a quem passava que já não havia espaço na área de onde se podia assistir ao vivo à cerimónia.

“Então agora onde deixo as flores?”, indignava-se uma jovem mãe, aconselhada por incontáveis cartazes por todo o centro de Londres a deixar quaisquer ramos em Green Park. “Green Park está fechado. Continuem a avançar, por aqui não vão a lado nenhum. Em Hyde Park há ecrãs”, rezava o aviso repetido através de um megafone.

Carlos III, ladeado pela irmã Ana e seguido por familiares, seguiu a pé o caixão da mãe, do palácio de Buckingham até ao Parlamento

Carlos III, ladeado pela irmã Ana e seguido por familiares, seguiu a pé o caixão da mãe, do palácio de Buckingham até ao Parlamento

karwai tang/getty images

Perto do Parlamento, a dificuldade das equipas era que o fluxo de peões parasse, para poderem montar as barreiras. Surpreendidos por não poderem chegar mais perto do percurso do cortejo, muitos tentavam perceber a melhor alternativa. Não havia muitas.

350 mil em risco de esperar horas para nada

Do outro lado do rio, entretanto, ia crescendo a fila para o velório público de Isabel II, que começa à tarde. As dezenas que lá estavam terça-feira, mais de um dia antes da abertura de portas, passaram rapidamente a centenas. Prevê-se que a fila ocupe a margem direita (sul) do Tamisa numa extensão de 10 milhas (mais de 16 quilómetros), num total de 750 mil pessoas.

São três vezes mais do que há 20 anos entraram no Parlamento para contemplar o féretro da rainha-mãe. Mais preocupante, são mais 350 mil do que a capacidade estimada até segunda-feira às 6h30 da manhã, hora a que as portas fecham para Isabel II ser levada para a abadia de Westminster, onde decorrerá o funeral de Estado. Depois, pelas 16h, será sepultada em Windsor.

A operação de segurança é gigante, “equivalente a várias vezes os Jogos Olímpicos”, segundo fonte oficial citada pelos jornais britânicos. Com chefes de Estado de todo o mundo a viajar para a capital britânica nos próximos dias, do imperador japonês ao Presidente dos Estados Unidos — Rússia, Bielorrússia, Myanmar, Síria, Venezuela e Afeganistão não foram convidados —, a cidade está sob apertadíssima vigilância. Portugal estará representado pelo Presidente da República.