Guerra na Ucrânia

Ucrânia: demissões no Governo ucraniano são medidas contra membros da elite, considera investigador

25 janeiro 2023 8:56

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Em entrevista à Lusa, Arkady Moshes, analisa as notícias que marcam a atualidade na guerra da Ucrânia, da corrupção no governo ucraniano aos tanques alemães e processo de adesão da Suécia e Noruega à NATO

25 janeiro 2023 8:56

Em entrevista à Lusa, Arkady Moshes analisa as notícias que marcaram os últimos dias no conflito ucraniano.

O investigador do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais defende que o escândalo de corrupção no governo ucraniano e as sucessivas demissões demissões resultam de medidas contra a elite. No panorama da geopolítica internacional, defende que a adesão à NATO dos países nórdicos deve ser conjunta, mas não descarta que a Finlândia avance sozinha e rejeita a ideia de uma “divisão” entre Aliados devido aos tanques alemães.

Corrupção no governo: “a Ucrânia já tinha uma reputação que estava longe de ser a ideal”

As recentes demissões de altos responsáveis do Governo ucraniano por suspeitas de corrupção provocaram danos, mas é importante demonstrar que esse comportamento não será tolerado, disse à Lusa o investigador Arkady Moshes. “O Governo demonstrou que está disposto a afastar essas pessoas e não em defendê-las, em julgá-las e não deixá-las sem punição, disposto a tomar medidas contra os membros da elite.”

"Na Ucrânia existe um grupo designado o 'batalhão do Mónaco', gente rica que continua a gozar a vida na Riviera francesa, em vez de lutar", precisou o diretor do programa para a Europa de leste e Rússia do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais (FIIA), sediado em Helsínquia.

E vincou: "Se o Governo demonstrar que não vai tolerar este tipo de comportamento, isso será bom para a Ucrânia. Alguma reputação foi atingida, algum dano feito, mas se o Governo estiver disposto a reagir como reage um Governo democrático normal, que se preocupa com eleições, com o que pensa a população, ajudará a conter estes danos".

Numa referência a este recente escândalo, que se seguiu a investigações de diversos 'media', o investigador lamentou que durante uma guerra "ainda existam pessoas que pensam poder roubar o seu próprio povo". No entanto, recordou que antes do início do conflito, motivado pela invasão militar russa de 24 de fevereiro de 2022, "a Ucrânia já tinha uma reputação que estava longe de ser a ideal, e isso não se altera do dia para a noite".

Arkady Moshes, 56 anos, também membro do Programa de Novas Abordagens sobre Pesquisa e Segurança na Eurásia (PONARS, Eurásia), considera que os danos terão sido contidos atempadamente, num contexto em que a guerra parece entrar numa fase decisiva.

Incorporação de estrangeiros “não é escassez de tropas”

Nesta perspetiva, o académico refere que a recente aprovação por Kiev de novas normas para a incorporação de estrangeiros no exército ucraniano não constitui um sinal de escassez de recursos humanos, como foi sugerido por diversos analistas. "Os ucranianos parecem ter o número de soldados suficientes, não têm é o número suficiente de armas para lhes fornecer", assinalou.

"Não é escassez de tropas, pode apenas aumentar as fileiras ucranianas, e quem o quer fazer provavelmente já está no terreno. Não considerei isso como um grande sinal, ainda têm gente suficiente, e armamento insuficiente", reforçou.

Os estrangeiros incorporados no lado ucraniano deverão ser contemplados com diversos direitos no final do conflito, como a atribuição de uma pensão, segundo Arkady Moshes. "Será uma forma de tornar mais transparente o estatuto legal desses estrangeiros e mais fácil, porque quem ficasse seriamente ferido não tinha praticamente direitos na Ucrânia", concluiu.

Suécia e Finlândia farão o possível para aderir em conjunto à NATO

A Finlândia e a Suécia pretendem aderir em conjunto à NATO mas não se pode excluir uma adesão em separado ou aguardar pelo resultado das eleições turcas em maio, disse à Lusa o investigador Arkady Moshes.

"Existe um consenso de que por motivos políticos, militares, logísticos, técnicos, faria sentido uma adesão em conjunto. Se o preço consistir em esperar até às eleições (legislativas) na Turquia em maio, sem problema, porque até esse período as garantias de britânicos e norte-americanos vão permanecer em força", afirmou.

Contudo, o académico não exclui a adesão da Finlândia sem a Suécia, mesmo que considere como "provavelmente apressadas" as recentes declarações nesse sentido emitidas pelo chefe da diplomacia de Helsínquia. "Numa perspetiva analítica não pode ser excluída, mas tudo será feito para uma adesão em conjunto. Finlândia e Suécia farão os possíveis por aderirem à NATO em conjunto. É também a perspetiva dos aliados, da Noruega aos Estados Unidos", precisou.

No caso de uma entrada em separado, o investigador assinala que as relações entre Suécia e Finlândia não serão prejudicadas. "Ambos entendem que a sua cooperação é de extrema importância em termos estratégicos e práticos. Mas é uma situação hipotética, neste momento é necessário partir da premissa de que vão aderir em conjunto, apesar de talvez ser necessário esperar até maio", disse o académico.

Paralelismos históricos motivam "nível de solidariedade e de apoio público" na Finlândia

Numa referência à ajuda militar à Ucrânia pela Finlândia, um país fronteiriço da Rússia e que desde há décadas mantém estreitos contactos e envolvimento em exercícios militares com membros da NATO, Arkady Moshes assinala o recente pacote decidido pelo Governo de Helsínquia.

"É muito importante perceber a forma como a Finlândia está envolvida, porque acabou de aprovar um novo pacote de ajuda militar à Ucrânia sem precedentes, de 400 milhões de euros. É muito dinheiro para a Finlândia, nos últimos dez meses disponibilizou à Ucrânia cerca de 200 milhões de euros, agora 400 milhões e começou a preparar de imediato o próximo pacote", revelou.

Uma decisão que, segundo o académico, sublinha o "nível de solidariedade e de apoio público" e quando já se completaram 11 meses de guerra, na sequência da invasão militar russa de 24 de fevereiro de 2022.

"O Governo da Finlândia e a sua opinião pública possuem números recordes em toda a Europa sobre a questão da necessidade em apoiar a Ucrânia", frisou. "E isso pode entender-se por existir uma espécie de similaridade histórica em discursos que comparam a invasão da Finlândia por Estaline [em 1939] com a invasão da Ucrânia por Putin", prosseguiu.

A comparação entre a designada "guerra de inverno" de 1939 -- com cerca de 200 mil baixas no então Exército Vermelho contra 25 mil entre os finlandeses, apesar de o país escandinavo ter perdido parte do seu território -- e o atual conflito na Ucrânia motivou uma forte reação do ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, que negou qualquer ambição territorial face ao seu vizinho nórdico. "Mas é isso o que as pessoas sentem neste país, e por isso necessita ser entendido", precisou.

O académico indica que o debate na Finlândia sobre esta questão "é muito calmo", e que as declarações dos responsáveis políticos e militares "não estão a provocar ansiedade" e que, pelo contrário, "basicamente referem que a atual situação militar não é ameaçadora".

Na perspetiva de Helsínquia, o envolvimento das Forças Armadas russas na Ucrânia impede que promovam novas ações nas fronteiras de outros países. "Mas pode não ser sempre assim, é por isso que a Finlândia quer aderir à NATO e antes disso comprou novo armamento aos Estados Unidos, incluindo aviões de combate", mesmo que o país encare a situação com "serenidade e ausência de pânico", destacou. "A análise que está a ser transmitida à população é tranquilizante e sensata", reforçou.

Numa referência a outros países fronteiriços da Rússia, em particular os três Estados do Báltico, ex-repúblicas soviéticas, e mesmo a Polónia, que mantém relações particularmente tensas com Moscovo, o investigador também transmitiu um sinal de serenidade. "As capacidades russas estão a ser de tal forma empregues na Ucrânia que para outros países a situação não é particularmente ameaçadora", afirmou.

Posição alemã sobre envio de tanques não constitui “divisão estratégica”

Para Arkady Moshes, a posição reservada da Alemanha sobre o envio dos seus tanques para a Ucrânia não constitui uma divisão estratégica da Europa e deve-se às fraturas existentes na opinião pública e Governo.

"A coesão não está em causa, não é uma contradição permanente. A liderança alemã tenta encontrar o que será melhor para si, a nível interno e internacional. Mas não tenta bloquear o processo, já anuiu ao desejo de fornecer os tanques Leopard 2, e isso é agora mais importante", considerou.

Horas depois de o académico ter falado à Lusa a imprensa alemã avançou, terça-feira à tarde, que a Alemanha tinha aprovado o envio de tanques Leopard 2 para a Ucrânia e que estava disposta a autorizar a transferência para aquele país de pelo menos uma companhia do modelo Leopard 2A6.

Na perspetiva do académico, a "renitência" alemã às crescentes pressões de diversos aliados da NATO para a autorização do envio deste sofisticado armamento, em particular da vizinha Polónia, não constitui uma "divisão estratégica". "Mas existem obviamente desacordos relacionados com a posição alemã, que podem ser explicadas por uma conhecida fratura na opinião pública alemã, entre a opinião pública na antiga Alemanha de leste e o resto do país, mas também nos partidos", prosseguiu.

A nível europeu, recordou, os britânicos já tomaram essa decisão com os seus Challenger 2 e os franceses estão a discutir o envio de diversos tanques Leclerc. "O processo segue na direção de que a Ucrânia irá receber os tanques. Haverá uma coligação de vontade que pode ser menor que no início, mas é um facto que os tanques serão enviados, incluindo os Leopard 2 que possui a Polónia", vaticinou.

"No início da invasão, os países ocidentais estavam muito hesitantes em enviar algo mais que capacetes e cobertores, mas tudo mudou quando os ucranianos começaram a receber mísseis Javelin, armas de topo tecnológico, e depois os sistemas de defesa antiaérea Patriot", indicou.

No entanto, o investigador considera que, em termos simbólicos, o envio dos tanques não são o fator mais importante no atual cenário do conflito, e quando já foram percorridos 11 meses desde o início da invasão militar russa, em 24 de fevereiro de 2022.

"A Ucrânia e o próprio Presidente [Volodymyr] Zelensky disseram que caso recebam 50 tanques isso não vai alterar estrategicamente a situação, em comparação com o número de tanques que o exército russo ainda possui", frisou.

Desta forma, Arkady Moshes considera que este novo armamento não significará uma "alteração substancial" na atual situação militar, apesar de politicamente ainda se caminhar nessa direção.

"Temos visto aquilo que a Ucrânia recebe diariamente, quer a nível militar quer em termos económicos. Nesse sentido, a coesão não está em causa porque existe o consenso de que a Ucrânia necessita ser ajudada, há apenas desacordos sobre o que exatamente é necessário e quando a Ucrânia necessitará dessa ajuda", concluiu.