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Brexit? Mais de dois mil britânicos expulsos da UE desde que o fim do período de transição, mas não se conhecem as razões

6 janeiro 2023 21:08

tolga akmen/ epa

Apesar de não serem conhecidas as razões que levaram tantos britânicos a perderem direitos de residência nos países que os expulsaram, os analistas chamam a atenção que estes números são uma dura forma de lembrar as mudanças estruturais que o Brexit provocou na forma como as pessoas se movimentam na Europa. A imigração para o Reino Unido não diminiu com o Brexit; está, aliás, em máximos históricos

6 janeiro 2023 21:08

Uma das forças mais fortes por trás da campanha vencedora pelo Brexit foi o desejo de uma considerável fatia de britânicos em restringir o acesso de imigrantes ao país. A União Europeia (UE), findo o período de transição - em dezembro de 2020 - também passou a poder negar permanência a cidadãos britânicos que não tenham os documentos necessários para ficarem no espaço europeu e foi o que aconteceu a 2.250 pessoas, que entre o final desse período e setembro do ano passado, foram obrigados a deixar os Estados-membros onde viviam. Os dados são trimestrais e foram publicados esta sexta-feira pelo organismo de estatística e recolha de dados da UE, Eurostat.

Apesar de os dados não especificarem as razões de cada expulsão, os especialistas acreditam que a maioria das partidas estão relacionadas com a impossibilidade de um cidadão britânico poder viver num determinado país europeu sem ter pedido residência, tal como acontece aos europeus que não tenham autorização de permanência no Reino Unido.

“Não sabemos as razões precisas pelas quais as pessoas foram instruídas a sair, por isso devemos ser cautelosos e não retirar muitas conclusões definitivas. No entanto, estes números são uma forma muito direta de nos lembrarmos que 26 estados da UE – todos exceto a Irlanda – podem exercer controlos de imigração sobre cidadãos do Reino Unido, e muitos fazem-no. E isso é uma consequência da saída do Reino Unido da UE”, disse ao “The Guardian” a professora Michaela Benson, da Lancaster University, que tem coordenado estudos sobre mudanças demográficas, imigração pós-Brexit e questões de identidade nacional.

Apesar das promessas dos políticos que defendiam que a saída do Reino Unido iria reduzir os números das entradas no país acabaram por não se revelar verdadeiras. Se não entram tantos europeus, a verdade é que os números do próprio Governo britânico mostram que, de junho de 2021 a junho de 2022, chegaram ao Reino Unido 1.1 milhões de imigrantes. Saíram muitas pessoas do país também, a maior parte cidadãos europeus, mas a imigração líquida, 504 mil pessoas, é a mais alta de sempre.

Portugal e Espanha, dois dos países da UE onde mais cidadãos britânicos mantêm residência, não expulsaram nenhum cidadão britânico. Só a Suécia repatriou quase metade do número total (1050), os Países Baixos outros 615, Malta mais 115, France enviou 95 britânicos de regresso ao seu país, a Bélgica 65, a Dinamarca 65, da Alemanha saíram 25 e, da Áustria, 10.

Jane Golding, presidente do grupo Britânicos na Europa, disse ao diário “The Guardian” que há um número “preocupantemente alto” de saídas alguns, mas ficou também que os dados não distinguem entre as pessoas que chegaram depois de dezembro de 2020 e as residentes antes, que deveriam, em princípio, ter direitos sob o acordo de saída do Brexit. “Sem mais informações, não podemos dizer se há problemas de implementação do acordo de saída em alguns desses países e se essa matéria precisa de ser investigada”, disse ainda Golding.